09
maio
2017
Crítica: “Eu, Mamãe e os Meninos”
Categorias: Críticas • Postado por: Andressa Gomes

Eu, Mamãe e os Meninos (Les Garçons et Guillaume, à table!)

Guillaume Gallienne, 2014
Roteiro:Guillaume Gallienne
Europa Filmes

4

Eu, Mamãe e os Meninos é a autobiografia do ator, diretor e roteirista Guillaume Gallienne. Baseada na peça homônima também escrita pelo próprio, aborda, de forma inteligente e bem-humorada, questões como identidade de gênero e sexualidade, e de que forma o ambiente em que estamos inseridos influenciam nesses aspectos.

A trama gira em torno de Guillaume (Guillaume Gallienne), que foi criado por sua mãe de forma diferente de seus outros dois irmãos, já que ela o viu como uma menina, ou a filha que nunca teve. Como consequência disso, ele cresceu se enxergando como menina, ainda que use vestuário masculino. Já maduro e bem resolvido com sua sexualidade, ele faz uma retrospectiva de sua vida, através de um monólogo teatral, na qual revive também sua jornada para descobrir quem de verdade é – e é ai que o filme começa.

Desde o início fica claro para o espectador a peculiaridade da relação que o personagem possui com sua mãe (também interpretada por ele), só pelo modo de ela chamar os filhos para jantar: Os meninos e Guillaume para a mesa! Ele é sensível e fascinado pelo universo feminino de um modo geral, principalmente sua mãe. Essa admiração faz com que estude e observe meticulosamente seus gestos, maneirismos, e tente reproduzi-los o tempo todo – em uma das sequências, por exemplo, seu pai confunde sua voz com a de sua mãe.

Toda a sua família, colegas de classe e pessoas que o rodeiam assumem que ele é homossexual, o que faz com que Guillaume mesmo acredite nisso. Porém, aos poucos, percebe que a feminilidade e/ou masculinidade não têm necessariamente uma relação com homo/heterossexualidade. Inclusive, todos os personagens homossexuais que encontra são bem mais masculinos que ele.

O filme é estruturado de forma interessante, com flashbacks inseridos durante a apresentação teatral (sua busca para se redescobrir possui divertidos episódios, que incluem, entre outras coisas, uma viagem para à Espanha, muitas visitas a terapeutas, ida a spas e a uma boate gay.). O roteiro estabelece muito bem a relação complexa de amor. ódio e mágoa entre Guillaume e sua mãe. A imitação que ele faz dela no palco é meticulosa e possui ar de paródia, o que revela um rompimento com a prisão psicologia provocada pela veneração que sentia. Ponto para o ator Guillaume Gallienne por interpretar de forma brilhante tantas personalidades diferentes: o filho, a mãe e a imitação que o filho fazia da mãe.

Apesar de parecer seguir um padrão similar a outros filmes relacionados à identidade de gênero e sexualidade, o final e a conclusão a que o personagem chega a respeito de quem é rompe com tudo aquilo que o espectador foi induzido a acreditar. Vencedor do prêmio César (considerado o Oscar francês) de Melhor Filme e Melhor Ator do ano de 2014, trata-se de um longa original e profundo na sua temática, uma iniciativa corajosa de Guillaume Gallienne por expor (ou desabafar sobre) esse aspecto de sua vida. A obra pode ser vista ao mesmo tempo como uma homenagem e uma crítica ou desconstrução da relação entre mãe e filho.



Não lembro de uma época em que os filmes ou a TV não fossem parte da minha vida. Considero o Cinema mais do que entretenimento, uma das mais completas formas de arte e de registro da humanidade. Estudante de Cinema e Audiovisual. Dentre os diretores/roteiristas favoritos estão: François Ozon, Lars Von Trier, Michael Haneke, Satoshi Kon e Vincent Minneli. Sem vergonha de gostar de consumir/discutir cultura pop, viciada em “The Big Bang Theory”, alguns reality shows (Master Chef, The Bachelor) e séries coreanas.