12
maio
2017
Crítica: “Joaquim”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Joaquim

Marcelo Gomes, 2017
Roteiro: Marcelo Gomes
Imovision

4

Já não é novidade que o cinema brasileiro vem crescendo cada vez mais, e nos últimos anos fomos responsáveis por produzirmos regularmente filmes que facilmente podem ser classificados como “excelentes” (sem pensar muito, já dá pra lembrar de Aquarius e Boi Neon, de 2016, Que Horas Ela Volta?, de 2015, Praia do Futuro e Entre Nós, de 2014, Elena e O Som ao Redor, de 2013, e por aí vai…). E 2017 pelo jeito não vai ficar para trás, já que logo nesses primeiros meses já temos pelo menos um título de destaque: este novo, e ótimo, Joaquim.

Tendo sido um dos representantes brasileiros no último festival de Berlim, o filme conta a história do revolucionário Tiradentes (o “Joaquim” do título), mas ao contrário do que seria o mais usual em uma produção biográfica, o que este filme faz não é contar a vida inteira do personagem, nem mesmo resumir seus “melhores momentos”, o interesse aqui é desvendar o que o motivou a se rebelar contra a coroa portuguesa e seu caráter como indivíduo, acompanhando um breve período de sua vida, apenas resumindo sua importância história logo de cara em um direto monólogo inicial.

E essa proposta mais intimista, interessada no homem e não no mártir, pode ser observada pela abordagem do diretor Marcelo Gomes (do belo e internacionalmente reconhecido Cinema, Aspirinas e Urubus): ao invés de apostar em planos abertos, que dariam um caráter mais “teatral” e grandioso à narrativa, ele opta por quase sempre usar câmera da mão e bem próxima aos personagens, o que nos aproxima destes. E o design de produção também acerta por evitar um glamour estilizado na reconstrução de época, criando cenários e figurinos apropriadamente sujos e incômodos.

Outro mérito do filme é conseguir criar um ambiente tão plausível e humano entre seus personagens, e isso se deve aos ótimos atores e, claro, aos diálogos tão bem escritos pelo próprio diretor – destaque para a cena que traz o personagem título ensinando naturalmente um companheiro a peneirar ouro no rio, e outra que traz alguns personagens contando piadas enquanto bebem. Outro mérito do roteiro é não tratar seu protagonista como uma lenda inigualável, mostrando também seus defeitos como ser humano, como, por exemplo, ao mentir descaradamente para prejudicar um colega de profissão.

E apesar do elenco ser todo competente, o maior destaque fica mesmo por conta da excelente atuação central de Júlio Machado: além da entrega física total, o ator consegue trazer sensibilidade e naturalidade até mesmo para os diálogos mais “formais”, ditos em um português antigo e difícil.

E se por um lado a conversão ideológica (que, afinal, é um dos pontos chave do filme) do personagem acabe soando um pouco insatisfatória, a construção do indivíduo é tão rica e complexa, que acaba até funcionando bem.

Não tendo medo de se encerrar em um momento que talvez desagrade alguns pela “abruptalidade”, mas que acaba sendo coerente com sua proposta, Joaquim é um estudo de personagem complexo e interessante, que ao mesmo tempo explora seu personagem título e também acaba funcionando como um retrato de seu país, refletindo o pessimismo com a nação que já era comum desde o século XVIII, e também a perpetuação da desigualdade social. E é mais uma prova da força e versatilidade do nosso cinema.



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.