25
maio
2017
Crítica: “Paterson”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Paterson

Jim Jarmusch, 2016
Roteiro: Jim Jarmusch
Fênix Filmes

4

Os filmes do americano Jim Jarmusch constantemente são sobre deslocados, pessoas que não se encaixam em seu mundo, e que muitas vezes estão em movimento. Não à toa, um de seus gêneros mais recorrentes é o road movie. Então não deixa de ser curioso que em seu novo trabalho, Paterson, ele se proponha a acompanhar o dia a dia de um personagem tão convencional e para quem os dias são quase todos iguais. É um filme sobre a beleza do cotidiano e a nossa necessidade de se expressar através da Arte.

O roteiro escrito pelo diretor basicamente acompanha uma semana na vida do motorista de ônibus Paterson (Adam Driver), seu cotidiano no trabalho, suas tentativas de escrever poesias, e sua relação com sua esposa, que tem interesse em aprender música e cozinhar, e também seu cachorro.

O ritmo do filme é propositadamente lento, vagaroso, como a vida do personagem. Mas isso não significa de forma alguma que ele tenha sido feito com preguiça, ao contrário. A construção feita por Jim Jarmusch é cuidadosamente pensada e por ser tão delicada acaba até por comover.

É notável como o roteiro entende seu ritmo devagar e usa isso para gerar um humor que de outras formas não seria possível de ser alcançado: ao insistir em mostrar o personagem arrumando a caixa de correio em frente a sua casa, por exemplo, ele deixa o espectador tão acostumado com esse gesto, que ao finalmente justificar o porquê da caixa viver entortada ele cria uma piada que mesmo simples, acaba funcionando muito melhor do que se ele tivesse mostrado o gesto apenas uma ou duas vezes.

Da mesma forma, Jarmusch também é eficiente em extrair humor do constrangimento, como ao prolongar além do esperado alguns planos que mostram os personagens em algumas situações embaraçosas. Contando para isso com a ajuda da excelente performance central de Adam Driver, que compreende o poder de leves alterações na expressão para sugerir algo, sendo particularmente notável a cena cômica que o traz comendo uma torta para agradar a esposa.

Mas mais do que um filme vagaroso e que encontra o humor em diversas situações, Paterson também é sobre a nossa necessidade constante de nos expressarmos através da Arte: podemos não saber o que queremos dizer, nem tampouco ter o conhecimento necessário para expressá-lo artisticamente de forma eficiente, mas essa necessidade existe. E é por isso que o protagonista se sente tão bem ao escrever seus poemas ainda que estes se mostrem de péssima qualidade, e também por isso sua esposa quer tanto aprender a tocar violão mesmo aparentemente não levando jeito para isso, porque a vontade de se expressar é mais forte e precisa ser saciada.

Sendo um filme doce e agradável mesmo se estendendo um pouco além do necessário em sua meia hora final, Paterson é um filme que a princípio pode parecer diferente do habitual vindo de seu diretor, mas fala de temas universais e nos lembra da beleza das pequenas coisas.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael