29
maio
2017
Crítica: “Real: o Plano Por Trás da História”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Real: o Plano Por Trás da História

Rodrigo Bittencourt, 2017
Roteiro: Mikael de Albuquerque
Paris Filmes

1

O amadorismo e a ruindade de Real: o Plano por Trás da História são ao mesmo tempo revoltantes e divertidos. Por um lado, incomoda demais a falta de sutileza e a obviedade do roteiro e do diretor em suas críticas e ironias, por outro, não tem como não se divertir ao perceber que o filme realmente se leva a sério e a o todo momento acredita estar fazendo um trabalho impecável, corajoso, e inteligente.

Adaptado de um livro de Guilherme Fiúza, o filme começa em 1993 e acompanha o economista Gustavo Franco (Emílio Orciollo Neto), que é convidado pelo presidente Itamar Franco para fazer parte de um time de economistas, que traz também o até então Ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, e criar um plano econômico para controlar a inflação altíssima do país: processo que acabaria dando origem à moeda Real, utilizada até hoje.

O que assusta logo de cara no filme é a abordagem estética de seu diretor, que poderia ser considerada primária até mesmo em uma novela. Em uma das primeiras cenas, por exemplo, vemos dois casais de amigos conversando em uma mesa de restaurante, reparem como a alternância de planos mostrando um casal, depois o outro, e também um plano conjunto com a mesa inteira, é usado de maneira quase aleatória e automática, e após alguns minutos, depois de provavelmente o próprio diretor ter percebido que criava uma lógica aborrecida e repetitiva, ele decide fazer algo diferente e como faz isso? Posicionando a câmera atrás de alguns copos, como se observando a conversa às escondidas, para criar um clima de suspense depois que (juro!) um dos personagens admite que “votou no PT”.

Ou então, pegue a cena seguinte como exemplo da incapacidade básica do diretor: a cena se passa em uma sala luxuosa onde estão alguns personagens, dentre eles FHC, um dos protagonistas e que aparece pela primeira vez, e ele recebe um telefonema de um telefone posicionado no fundo da sala. O diretor inicia a cena com planos detalhes de alguns objetos da sala, depois corta para mostrar os personagens, FHC então recebe o recado do telefonema, se levanta, e quando corta ele já está ao telefone, então alterna planos mais fechados e mais abertos mostrando o personagem ao telefone e só no final descobrimos que ele ainda está na mesma sala, ou seja, o diretor não consegue estabelecer o espaço da cena nem quando ela se passa em uma pequena sala, algo que seria resolvido com um simples plano geral que mostrasse o cômodo inteiro.

Outra coisa que o filme parece não entender é sua obviedade em suas ironias, que são retratadas com uma falta de sutileza absurda: como ao trazer um economista rico defendendo ideias esquerdistas enquanto come caviar – detalhe que outro personagem verbaliza para não deixar dúvidas de que o espectador entenderá a ironia –, ou então ao trazer um único personagem como representação do PT, e é claro que esse personagem é a representação de todo o mal e o grande vilão do filme, já que só pensa no interesse próprio, tenta alianças que quando não dão certo são chamadas de “golpe”, e vive repetindo que seu partido não tolera corrupção. E acho importante apontar que não critico essas ironias por simplesmente não concordar com elas, afinal, é completamente possível, principalmente para um crítico ou um cinéfilo, apreciar obras com visões totalmente diferentes da sua. O problema é que essas críticas “direitistas” do filme são muito óbvias; seria o mesmo que um cineasta de esquerda trazer uma figura da extrema direita como o Trump fazendo um discurso preconceituoso enquanto usa uma faixa vermelha no braço ou com um bigodinho – posso até concordar com a ideia, mas a execução é tão pobre e desprovida de qualquer sutileza que não tem como defender.

E se não fosse o bastante, falta ao roteiro uma estrutura básica, muitas cenas parecem jogadas quase que aleatoriamente, apenas para passar uma informação ou outra. Até mesmo os flashforwards que mostram o protagonista em uma entrevista são utilizados com proposito exclusivamente expositivo, sendo jogados em momentos que apenas quebram o ritmo da narrativa, chegando até mesmo a interromper uma cena no meio para explicar uma citação. Além disso, chega uma hora que o próprio filme parece se desinteressar por sua história e decide que ao invés de ser sobre a criação do Plano Real, será agora sobre o impacto disso na vida de seu protagonista, e para isso apela para um clichê sexista que poderia ser considerado ultrapassado na década de 50: no início da trama o protagonista tem uma namorada, termina com ela para ir trabalhar em Brasília, e quando ele a reencontra ela está com outro, então diz que vai se mudar e precisa dela de volta e o que acontece? Claro, ela abre mão de sua própria vontade e volta para eles terem um filho (afinal, seguindo lógica do filme, o que mais pode querer uma mulher?).

E não é só isso, o próprio Plano Real é retratado com negligência a partir de certo momento: acompanhamos os esforços de sua criação, mas em nenhum momento fica claro a razão e o momento exato em que ele se torna um sucesso, e, o que é mais grave, não mostra o que isso significou na vida da população por quem eles tanto dizem estarem preocupados.

Mas também não há como negar que há, sim, uma ou outra ideia interessante e bem didática, como quando alguém explica como incluir uma nova moeda poderia aos poucos ir “limpando” a inflação, ou então ao mostrar como a vitória na copa de 70 foi importante para a imagem do “milagre econômico”, e como o futebol tem uma importância enorme para o povo e, por consequência, pode ser utilizado como propaganda. Mas mesmo aí o filme volta a escorregar ao fazer um paralelo óbvio e hipócrita, para não dizer quase fascista, com a vitória do Brasil na copa de 94 e a eleição de FHC para a presidência. Mas também não posso deixar de dizer como me diverti com a dicção de Arthur Kohl, que é completamente idêntica à de seu personagem: José Serra.

Sendo óbvio, absolutamente parcial, e raso em suas críticas, além de primário em seus aspectos cinematográficos, Real: o Plano por Trás da História é um filme que irrita profundamente qualquer um com um pouco de bom senso, embora não deixe de divertir pelo absurdo de sua baixa qualidade.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael