29
maio
2017
Crítica: “T2 Trainspotting”
Categorias: Críticas • Postado por: Paulo Vitor Betiati

T2 Trainspotting

Danny Boyle, 2017
Roteiro: John Hodge
TriStar Pictures

4

Dando continuidade à história narrada por Renton (Ewan McGregor) em Trainspotting – Sem Limites, o novo filme de Danny Boyle não é uma sequência desnecessária – pelo contrário, é importantíssimo pela evolução dos personagens, e não decepciona os fãs, principalmente porque traz os mesmos elementos que marcaram o primeiro: montagem ágil, humor, uso de drogas e uma trilha sonora impossível de esquecer.

Após 21 anos, Mark Renton retorna à sua cidade e reencontra Spud (Ewen Bremner), ainda viciado em heroína, Simon “Sick Boy” (Jonny Lee Miller), que é dono de um bar e planeja abrir um bordel com sua parceira Veronika (Anjela Nedyalkova), e mais tarde, Begbie (Robert Carlyle), que passou um tempo na prisão e reaparece ainda mais perigoso. O roteiro é inspirado na obra Porno, de Irvine Welsh, mas segue um rumo bem diferente, já que o livro dá mais destaque a Sick Boy e seu projeto ligado à indústria pornográfica.

Em uma cena, os três amigos visitam o túmulo do colega Tommy e, relembrando os erros do passado, Sick Boy diz que Renton está ali por um único motivo: nostalgia. Essa palavra resume bem o filme, o foco da trama está sempre no reencontro entre os quatro e na tentativa de Renton fazer as pazes com o passado, embora haja subtramas que dão mais profundidade aos personagens, como o relacionamento de Begbie com sua família. O primeiro ato é a parte mais interessante, na qual os personagens são reapresentados. Depois disso, o roteiro é um tanto preguiçoso ao dar ênfase ao plano vingativo de Begbie, mas não a ponto de estragar o desfecho da história.

Ainda comparando os dois filmes, é interessante notar que T2 é mais melancólico e pode até ser visto com uma mensagem anti-drogas implícita. Enquanto o longa de 1996 retratava o vício em heroína do ponto de vista do viciado, ou seja, daquele que acredita estar fazendo a melhor escolha – exemplo disso são as sequências que extrapolam a realidade para representar o efeito da droga, como aquela da overdose na qual Renton cai em uma cova e tem seu corpo levado até o hospital ao som de Lou Reed -, aqui o protagonista abandonou o vício e o que vemos são as consequências de suas escolhas tomadas em Trainspotting – Sem Limites. No final das contas, os dois filmes são sobre isso: escolhas. O famoso monólogo de “Choose Life” (“Escolha a vida”), que iniciava o primeiro filme, já deixava claro a opção de Mark Renton por viver distante do estilo de vida fútil e monótono da sociedade, tendo a heroína como sua única motivação. Agora, o personagem está adaptado a esse estilo de vida, mas o retorno a Edimburgo traz de volta seus problemas do tempo de viciado.

Em alguns momentos há uma tentativa de dialogar com a atualidade, inclusive quando Renton explica a Veronika o significado da frase “Choose Life” e retoma esse discurso com novas referências de consumo: “Escolha a vida. Escolha o Facebook, Twitter, Instagram  na esperança de que alguém, em algum lugar, se importe”. Infelizmente, essa crítica já não possui a força de quando foi feita em 1996, em um contexto muito diferente, mas seria impossível não retomá-la.

Veronika é a única personagem feminina importante para o roteiro, diferente de Diane (Kelly Macdonald) que reaparece aqui apenas para matar a saudade e aumentar o sentimento de nostalgia que enxergamos através de Renton. É interessante também que Spud, que é o narrador no livro, começa a escrever as histórias do grupo enquanto tenta se libertar do vício e do seu passado, ganhando o papel de Irvine Welsh que escreveu Trainspotting e Porno a partir de suas próprias experiências.

Apesar de todo aspecto melancólico do filme – intensificado em muitos momentos por flashbacks da infância dos personagens e de acontecimentos do primeiro filme -, o humor continua presente. Há cenas divertidíssimas e memoráveis, talvez não tão icônicas quanto aquela do vaso sanitário de 1996, mas é impossível não rir com o reencontro entre Mark Renton e Begbie ou quando Mark e Sick Boy se metem em um clube protestante. Em algumas cenas, o diretor até brinca fazendo referências a clássicos como Touro Indomável e O Iluminado. Outra característica marcante de Trainspotting – Sem Limites que não poderia ser menos importante aqui é a trilha sonora: em meio a ótimas músicas, a nova versão de “Lust for Life”, mais eletrônica, ainda traz a atmosfera frenética do primeiro filme.

Dessa forma, Danny Boyle consegue criar uma obra que carrega muita nostalgia, mas que ainda assim se diferencia positivamente da original e possui poucos deslizes. É por esse motivo que, se atualmente são produzidas inúmeras sequências desnecessárias, T2 Trainspotting é uma exceção.



Sou fascinado por cinema desde que vi uma exibição de “Taxi Driver” sem ter ideia do que o filme tratava, ou seja, a curiosidade me move. Logo depois descobri filmes do Kubrick que até hoje são meus favoritos, e mais tarde, Ingmar Bergman. Pretendo cursar Cinema e Filosofia, enquanto não chego lá, tento ocupar o tempo livre com tanta coisa que comecei a escrever sobre cinema.