01
maio
2017
Entrevista com o crítico de cinema Pablo Villaça!
Categorias: Entrevistas • Postado por: João Vitor Moreno

Pablo Villaça é crítico de cinema e diretor do site Cinema em Cena, o portal de cinema mais antigo da internet brasileira (no ar desde outubro de 1997). Além do site, Pablo também ministra cursos de cinema pelo Brasil inteiro e no último mês de abril eu tive a oportunidade de cursar dois deles (o “Teoria, Linguagem e Crítica” e “A Arte do Filme: Forma e Estilo”), e durante um intervalo entre as aulas, ele generosamente me concedeu um espaço para realizarmos um breve bate-papo sobre cinema, que, coincidentemente, acabou por ser meu post número 100 aqui no Pipoca Radioativa.

Segue a transcrição da nossa conversa, e no fim está disponibilizado também o áudio para quem quiser ouvir:

Pipoca Radioativa: Primeiramente, muito obrigado, Pablo, pela atenção. Alguns anos atrás a gente teve uma sugestão de uma nova tecnologia que talvez pudesse mudar o cinema que eram os 48 quadros por segundo (para entender o que é essa tecnologia e suas implicações, clique aqui). Isso foi em 2012, com o Hobbit, né?…

Pablo Villaça: Na verdade essa é uma tecnologia mais antiga. O Roger Ebert escrevia sobre isso desde a década de 90. Ele viu um experimento feito na década de 90 em que era rodado com, se não me engano, 120 quadros por segundo. Eu esqueci o nome no negócio… começa com “R”, é o máximo que eu posso dizer. E ele escreveu várias vezes sobre isso, que ele tinha visto esse experimento com esse High Frame Rate, com uma quantidade muito grande de frames, e que ele tinha ficado impressionado porque parecia que ele estava vendo uma janela aberta mesmo. Era muito realista a imagem, era palpável. Mas não foi pra frente. Não foi pra frente até pela época, porque era caro. Tem que lembrar que na época não era digital, então significa o seguinte: se você fosse filmar com um Frame Rate alto significa que você ia ter que gastar muito mais película. Você teria que gastar muito mais película para filmar e depois quando fosse fazer as cópias você ia gastar uma fortuna.  Película é um troço caro. E não valia a pena. O que o estúdio ganharia em troca? Depois, quando vem o digital, aí começa a fazer mais sentido, porque não aumenta o preço. E aí que começam os experimentos com o Peter Jackson, mas isso é uma coisa que precede o Peter Jackson. O Douglas Trumbull, por exemplo, que é o supervisor de efeitos visuais do 2001, faz uns 20 e tantos anos que ele está filmando aos pouquinhos um filme em 120 tantos frames por segundo. É um projeto antigaço dele, precede muito o Peter Jackson.

PR: Mas você acha que tem futuro? Tanto do ponto de vista prático, comercial, quanto do ponto de vista artístico?

PV: Depende de como for desenvolvido…

PR: Você acha que pode mudar a linguagem do cinema de alguma forma?

PV: Mudar radicalmente não, mas acho que ele pode acrescentar. Pode trazer inovações. Modificar completamente não, porque boa parte dos recursos vão ser os mesmos sempre. Porque você está contando história usando câmeras, então boa parte da linguagem, de luz, de corte, de posição de câmera se mantém. Só que você tá acrescentando um elemento novo. Assim como no 3D você acrescenta profundidade, que ainda é muito mal explorado em termos de linguagem. O 48 frames por segundo você pode explorar de maneiras novas que eu não sei quais são. E com certeza o Peter Jackson também não sabe. Porque você vê claramente que no Hobbit não só ele utiliza sem qualquer propósito de linguagem próprio, como ele usa errado. Como eu sei que ele usa errado? Eu escrevi sobre isso quando eu falei sobre o filme, eu vi o Hobbit, o primeiro, nas duas versões: 24 frames e 48 frames por segundo. E aí, logo no início, quando o Bilbo vai começar a escrever a história tem um plano que ele pega uma pena, aí ele vai começar a escrever e ele hesita, tipo assim “será que eu escrevo?”, e aí ele começa a escrever. Na versão 24 frames ele pega a pena, pensa bem e escreve. Na versão 48 frames ele pega a pena e começa escrever. Por quê? Pela diferença de velocidade de captura de imagem e exibição. O que isso me prova? Que o Peter Jackson não filmou duas versões diferentes, ele filmou a mesma versão pros dois lados, sem levar em consideração que a percepção de tempo muda. Então isso comprova que ele não pensou em termos de linguagem, só pensou em termos de tecnologia.

PR: Você acha que na mão de um bom diretor poderia funcionar?

PV: Sem dúvida, eu tenho curiosidade, por exemplo, um Scorsese, o que o Scorsese faria com isso? Certamente ele tentaria fazer alguma coisa diferente, ele pensaria em termos de linguagem, não iria pensar só em termos de tecnologia. Enfim, eu considero O Hobbit um experimento fracassado, mas não quer dizer que não tem futuro.

PR: Recentemente você linkou um artigo (que pode ser lido aqui) no twitter que falava que a Netflix estava “matando” o cinema do ponto de vista de exibição. Porque quando eles compram algum filme que ainda não foi lançado, eles exibem direto em streaming e não no cinema. Isso, obviamente, prejudica muito a experiência do espectador, né? Como você enxerga esse equilíbrio, se por um lado você quebra essa experiência do cinema, mas você aumenta a disponibilidade? Você acha que há mais vantagens ou desvantagens?

PV: É difícil porque as vantagens são muito grandes e as desvantagens também são muito grandes, então acho que é uma daquelas situações que você tem que assumir o seguinte: vamos ganhar coisas e vamos perder coisas, e é isso, não tem solução. Não tem como a Netflix corrigir os problemas que o próprio fato de ele distribuir filmes traz, como por exemplo, o fato de você estar vendo em tela pequena. Não tem como a Netflix corrigir isso. E ao mesmo tempo não tem como só a distribuição de cinema popularizar tanto os filmes e oferecer tantas oportunidades. Não tem como eles corrigirem isso. Então você vai perder de um lado ganhar do outro. Você tem que aceitar as derrotas e as vitórias. O que me incomoda muito na Netflix, uma coisa que eu acho que aquele artigo é bacana, tem uma frase que eu achei sensacional que ele fala: “A Netflix é o lugar onde os filmes vão para ser enterrados”. Porque é isso. A Netflix pega filmes que são muitas vezes interessantes e lança. E vai lançando um monte, vai lançando um monte… E o excesso de escolha paralisa. Quando um espectador tem um monte de filmes pra escolher entre eles, a tendência é ele ficar paralisado. Você vê o tanto de gente falando: “eu fico mais tempo escolhendo o filme que eu vou ver do que vendo o filme”. E isso é ruim porque tem um monte de filme bacana que nunca vai ser descoberto e fica escondido mesmo. Eu já descobri filme na Netflix, por exemplo, que eu não fazia ideia. Que são filmes, inclusive, que estão mal catalogados, que se você procurar o nome do ator, tem certos filmes que estão lá, mas se você procurar pelo nome do ator você não acha. Isso é uma coisa que eles podem corrigir. Mas, enfim… você perde de um lado e ganha do outro. O que é fato é: não tem volta. Acabou, essas coisas você não bota o gênio dentro da lâmpada de novo. Saiu, saiu.

PR: O cinema sempre foi e obviamente sempre vai ser muito influenciado pelo momento político e histórico em que ele está inserido. Como você acha que o cinema americano tende a reagir e responder ao atual momento político deles, e como o cinema brasileiro tende a reagir ao nosso momento político?

PV: Aí é uma pergunta interessante porque ela diz respeito não só à reação do cinema ao momento político de cada país, mas à forma de produção. Porque lá primeiro tem os estúdios e os produtores hollywoodianos que eles são de viés liberal. Eles são de esquerda… De esquerda pra lá, né? Pra gente eles não seriam considerados de esquerda, mas nos Estados Unidos eles são comunistas. Então eles têm os meios e o interesse em criticar, por exemplo, o fascismo do Trump. Então eu acho que a tendência nos próximos 2, 3, 4 anos é que comecem a surgir filmes cada vez mais sobre xenofobia, sobre intolerância… Talvez não vindo dos grandes estúdios, mas vindo de produtores independentes que são distribuídos pelos grandes estúdios. Ou não, às vezes vão direto pra Netflix. No Brasil é complicado porque… “vamos fazer filmes sobre o golpe, vamos fazer filmes também sobre essa onda direitista neo-fascistoide nacionalista perigosíssima que está acontecendo no Brasil, vamos? Vamos” Mas pera aí, quem é que aprova numa lei de incentivo? Esse mesmo governo neo-fascistoide… Então a independência aqui é complicada de se conseguir. Então sinceramente, eu não sei até que ponto. Acho o seguinte: por exemplo, filmes sobre a ditadura brasileira, é impressionante o tão pouco a gente produz filmes sobre a ditadura. Se você for pegar, por exemplo, o Vietnã, a quantidade de filmes que o Estados Unidos produziu sobre o Vietnã, a quantidade de filmes que o Estados Unidos produziu sobre a Guerra no Golfo, a quantidade de filmes que o Estados Unidos produziu sobre a Guerra no Iraque, no Afeganistão… A quantidade de filmes que nós produzimos sobre a ditadura depois desse tempo todo? Nós começamos a produzir, mas depois de 20 anos. Por quê? Porque teve que primeiro os caras saírem do poder, e as condições surgirem pra isso. Então eu acho que eventualmente vamos fazer filmes sobre o momento que nós vivemos agora, mas possivelmente vai demorar bem mais do que os americanos vão falar sobre seus problemas.

PR: Falando mais especificamente sobre o papel da crítica, hoje com o acesso maior à internet qualquer um pode publicar um texto e chamar de crítica, né? Mas por outro lado você pode aprender muito escrevendo e tendo onde publicar. Você acha que essa expansão, essa liberdade que a gente tem hoje causa mais benefícios por todo mundo poder falar sobre cinema ou mais malefícios por você ter acesso às vezes a uma coisa que se diz crítica, se diz de qualidade, sendo que você está consumindo algo que não é o que se diz ser?    

PV: De novo, as duas coisas, acho que a democratização do discurso é ótima, é bacana que todo mundo tenha a oportunidade de falar sobre tudo. Você tira o monopólio da comunicação, você tira o monopólio da narrativa da mão das grandes corporações de mídia. Não é só mais a Globo, não é só mais o SBT, não é só a VEJA que pode publicar crítica de cinema. Você tem pessoas de temperamentos diferentes, origens diferentes, falando sobre todo tipo de filme, e isso é bom, acho isso ótimo. Agora, o problema é que o que acontece muito hoje é que a figura do expert, do cara que tem um conhecimento de causa, é cada vez menos valorizada. Porque o fato de muita gente estar escrevendo sobre cinema não quer dizer que todo mundo sabe o que está escrevendo. Eu tenho interesse, por exemplo, em ver pontos de vista diferentes… Se você pega, por exemplo, uma negra lésbica escrevendo sobre qualquer filme, é uma coisa que me interessa por natureza porque é uma visão muito diferente da minha. É uma mulher, negra, homossexual. É claro que a visão de mundo dela é diferente da minha, e eu, como uma pessoa curiosa por pontos de vista diferentes, vou ter interesse em ler. Não quer dizer que ela vai saber escrever, que ela vai ter como escrever de uma maneira embasada sobre linguagem cinematográfica. Ela pode falar sobre os aspectos subjetivos dela, o que me interessa. Como crítica, não necessariamente. Às vezes não, às vezes é uma puta crítica. Mas às vezes está só falando da percepção, então depende. Aí o que você tem é: você desloca do veículo para o consumidor. Antes era o veículo que selecionava, “esse cara sabe o que está falando, então vamos espalhar”, hoje é o consumidor que escolhe, é o leitor que tem que fazer esse julgamento: “pera aí, eu tô lendo esse cara, mas esse cara não sabe o que está falando”, “esse aqui não, esse cara tem estudo, esse cara tem bagagem, esse cara conhece linguagem, conhece história, viu muito filme, escreve bem, vou lê-lo”. Só que aí é foda porque você tem possibilidades infinitas… de novo, o mesmo problema da Netflix: quando você tem um excesso de escolhas, você paralisa. Espero que os leitores saibam escolher bem, mas assim… Tem pontos positivos e negativos, eu não posso dizer que eu sou contra, eu nunca vou ser contra a democratização de comunicação, mas eu acho problemático porque tem muita gente se passando por expert quando não tem a menor ideia do que está falando.

PR: Só pra finalizar, todo mundo que te conhece sabe que seu filme preferido é O Poderoso Chefão, a trilogia. Eu queria saber se a primeira vez que você viu O Poderoso Chefão você já soube que era o melhor filme que você já tinha visto? E quando você viu o terceiro… porque tem um certo preconceito com o terceiro filme, tem gente que diz que ele não é tão bom quanto os outros dois… mas quando você viu o terceiro filme, você já achou de cara tão bom quanto os outros?

PV: Achei. A primeira vez que eu vi O Poderoso Chefão foi em VHS. Eu devia ter uns 15, 16 anos, talvez, não sei, não lembro exatamente a idade, mas eu era adolescente ou saindo da adolescência. Vi em VHS e me apaixonei, foi imediato. E inclusive o terceiro filme, eu vi e fiquei encantadíssimo com o terceiro filme também. É até engraçado isso, porque quando eu vejo alguém que nunca viu O Poderoso Chefão ou qualquer outro filme que eu gosto muito e a pessoa não viu e vai ver pela primeira vez me dá uma certa inveja. Quem dera pudesse ver esse filme de novo pela primeira vez. A descoberta de filmes que você gosta é muito gostosa. Mas eu lembro só isso: eu lembro que eu estava mais ou menos nessa idade, eu não sei dizer se imediatamente eu falei “porra, é o meu filme favorito!”, provavelmente não, mas eu lembro que achei o filme sensacional, os três.

PR: Obrigado, Pablo.

PV: Beleza.

O áudio da conversa pode ser ouvido abaixo:

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Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.