21
maio
2017
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “A Canção da Estrada”
Categorias: Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Marcelo Silva

A Canção da Estrada (Pather Panchali)

Satyajit Ray, 1955
Roteiro: Satyajit Ray
Índia
Governo de Bengala Ocidental

3

Sede de Bollywood, a maior indústria cinematográfica do mundo, a Índia é um país que desperta enorme curiosidade do lado ocidental. A novela da Globo Caminho das Índias, por exemplo, foi um sucesso de público, ganhou o Emmy Internacional na categoria de Melhor Telenovela e foi exibida em mais de 90 países. Apesar de todo esse interesse (ou talvez justamente por causa dele), a Índia ainda sofre de estereótipos: na mentalidade de muitos, o país se resume às danças e roupas exóticas, ao Taj Mahal, ao sistema de castas e a Mahatma Gandhi, que surge sempre ao lado de Nelson Mandela quando o assunto são os líderes pacifistas da História. Com a intenção de descobrir mais sobre a Índia e seu povo, a nossa Volta ao Mundo em 80 Filmes faz uma parada para ver A Canção da Estrada (1955), primeiro longa da aclamada Trilogia de Apu, do diretor Satyajit Ray.

O filme é baseado no livro de Bibhutibhushan Bandyopadhyay – um prêmio para quem acertar a pronúncia ou a grafia do nome sem pedir ajuda ao Google – e acompanha o dia a dia do pequeno Apu (Subir Banerjee) e sua família, que moram em uma casa humilde no interior da Índia. A mãe (Karuna Bannerjee) faz o possível para tomar conta dos filhos com o pouco que tem, ao passo que o seu marido (Kanu Bannerjee) sonha com uma vida de riquezas e se ausenta a fim de conseguir dinheiro para melhorar a vida de todos. Ainda moram com Apu sua bisavó (Chunibala Devi), uma idosa corcunda que, após anos encarando uma realidade difícil, se alegra com pequenas coisas, como quando ganha uma manta para se cobrir, e a sua irmã Durga (Uma Das Gupta) – e é na companhia dela que o garoto explora e descobre a magia do cotidiano.

Indicado à Palma de Ouro e vencedor do prêmio Best Human Document no Festival de Cannes, o longa de Satyajit Ray é reconhecido, até hoje, como uma pérola do cinema mundial. A capacidade do diretor em captar a simplicidade e a pureza da realidade de um vilarejo perdido na Índia é o que mais chama a atenção nesse filme, que carrega nítidas influências do Neorrealismo italiano. Não há um conflito que sustente ou conduza a história: o mais próximo disso seria a pobreza e o isolamento que afetam os personagens.

Pelos olhos de Apu e Durga, vamos descobrindo os encantos dos pequenos momentos da vida. As brincadeiras, as travessuras, os passeios, tudo isso constitui uma forma de bolha que os protege do mundo real. E, em um filme em preto e branco, o diretor Ray sabe como mostrar essas situações: a cena em que, pelo reflexo na água, vemos os dois correndo atrás do vendedor de doces é a prova genuína da beleza da infância. O momento em que brincam na chuva também é inspirador – se não fosse o talentoso trabalho do diretor de fotografia Subrata Mitra, a cena certamente não teria o mesmo efeito.

As canções do filme nada têm a ver com as estereotipadas músicas de coreografia ensaiada que frequentemente relacionamos ao país – na verdade, elas se assemelham mais a cantigas populares e surgem com extrema naturalidade na boca dos personagens, em especial na da bisavó de Apu. A qualidade técnica do som, talvez pela época e pela limitação de recursos, deixa a desejar. Além disso, a inexistência de um conflito, de um fio condutor da trama acaba atrapalhando o ritmo do longa – as 2 horas de projeção são arrastadas.

Curiosamente, A Canção da Estrada foi o primeiro longa indiano independente a alcançar circuito mundial. Contando com poucos recursos, Ray (que nunca tinha dirigido nada antes) quase não conseguiu terminá-lo: a produção toda levou três anos e o cineasta teve que pedir dinheiro para o governo do estado de Bengala Ocidental. No ano seguinte, ele deu continuidade à saga de Apu com O Invencível e, em 1959, fechou a trilogia com O Mundo de Apu.

Na próxima semana, continuamos nossa viagem pela Ásia: vamos visitar o Irã, representado por O Balão Branco, do diretor Jafar Panahi. Não deixe de acompanhar!



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!