07
maio
2017
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “As Harmonias de Werckmeister”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Marcelo Silva

As Harmonias de Werckmeister (Werckmeister harmóniák)

Béla Tarr e Ágnes Hranitzky, 2000
Roteiro: Béla Tarr, László Krasznahorkai, Péter Dobai, György Fehér e Gyuri Dósa Kiss
Hungria
13 Productions, Arte, Fondazione Montecinemaverita

4

Deslumbrante, complexo, poético, hermético, único, lento, cansativo. Um grande filme e, ao mesmo tempo, um exercício de paciência. Esse é As Harmonias de Werckmeister, representante da Hungria na Volta ao Mundo em 80 Filmes e a primeira parceria na direção entre Béla Tarr (a mente por trás do aclamado Sátántangó) e sua atual esposa, Ágnes Hranitzky – os dois viriam a realizar juntos, em 2011, o também elogiado O Cavalo de Turim.

No enredo, a rotina de uma pacata e gélida cidade se altera com a chegada de um circo que traz como atração uma enorme baleia morta e uma figura misteriosa conhecida como Príncipe. Subitamente, começam a surgir relatos de quedas de energia, saques e ações violentas no local. É então que o jovem e curioso entregador de jornais János Valuska (Lars Rudolph) fica responsável por investigar o que está acontecendo e recolher assinaturas para a formação do grupo “Cidade Limpa”, que teria como objetivo restabelecer a ordem. Ele acaba descobrindo que o Príncipe está transformando os cidadãos em seus seguidores e levando-os a uma rebelião.

Desde a primeira cena, já se percebe que As Harmonias de Werckmeister (o título é uma referência ao músico alemão Andreas Werckmeister, que viveu de 1645 a 1706) não é um longa convencional. Sob a tocante e poderosa trilha de Mihály Vig, vemos o protagonista usar homens bêbados em um bar para explicar o movimento da Terra, do Sol, da Lua e a formação de um eclipse. Quando ele é expulso do estabelecimento, uma câmera acompanha sua caminhada em meio à escuridão e ao frio. Aos poucos, ela vai se afastando até que János se torna uma silhueta distante – se vista na tela grande do cinema, essa imagem deve ser ainda mais impressionante e memorável.

Há, pelo menos, mais duas cenas que merecem destaque. A primeira é o encontro entre o personagem e a baleia: com um olhar que revela, ao mesmo tempo, fascínio e estranhamento, János vê o seu destino de homem comum se encontrar com o de uma criatura gigantesca e diferente de tudo o que já vira antes. Um momento em que percebemos a nossa pequenez diante das criações do universo. “Esta misteriosa criatura veio de oceanos remotos. O melhor é que a veja você mesmo. Vá e veja o animal grandioso que o Senhor criou”, é o que diz János ao encontrar um conhecido na rua.

A outra cena é aquela em que os moradores da cidade invadem o hospital e se paralisam ao encontrar um idoso nu, cabisbaixo e cadavérico. Na mesma hora, abandonam a ideia de fazer qualquer mal ao sujeito – afinal, não havia muito a ser destruído nele. Novamente com a presença da trilha de Vig (que não é onipresente, surgindo em momentos-chave), a sensação que impera ali é de pura tristeza, melancolia, desamparo. O ser humano em seu ponto mais frágil.

Carregado de simbolismos, o roteiro é, certamente, o que mais rende discussão em As Harmonias de Werckmeister. Uma rápida pesquisa na Internet demonstra a pluralidade de interpretações (e dúvidas, claro) sobre o filme: para alguns, a baleia, o Príncipe e as pessoas da cidade representariam, respectivamente, o Sol, a Lua e a Terra do monólogo de János. Há ainda quem busque na filosofia de Friedrich Nietzsche referências para se explicar a trama. O fato é que, dificilmente, será possível compreender a obra em sua plenitude antes de vê-la duas, três, quatro, cinco vezes.

A história – escrita a dez mãos e baseada no livro A Melancolia da Resistência, de László Krasznahorkai – lança o espectador em um mar de perguntas. Primeiramente, ficamos em dúvida se realmente está ocorrendo algo de errado na cidade. Os atos de violência de que os moradores tanto falam só são mostrados em tela quando o longa se aproxima do terceiro ato. Por muito tempo, só temos relatos e a vista de um ambiente quase deserto, em que as pessoas se concentram na praça em busca do calor das fogueiras.

Entre os personagens, János é uma espécie de ovelha negra. Se os habitantes da cidade parecem, em sua maioria, frios e distantes, desprovidos de qualquer vínculo de afeto, o protagonista é movido por enorme curiosidade e sensibilidade. Repare no fato de que, em todo o filme, ele é o único a visitar a baleia – e duas vezes ainda. Assim que é aberto o portão, ele corre para comprar o ingresso e ver o animal. As outras pessoas na praça, por outro lado, sequer se movem. Tampouco o homem do bar (da cena inicial) enxerga algo mais do que uma brincadeira com bêbados em sua analogia do Sol, da Lua e da Terra. János é uma personalidade única dentro do universo do enredo.

Na parte técnica, Tarr e Hranitzky demonstram sua capacidade de conceber um trabalho de pura poesia visual. A fotografia em preto e branco, a neblina e o céu sempre escuro compõem a identidade do espaço, uma cidadezinha de época e localização desconhecidas. Tudo isso funciona tão bem que imaginar o mesmo filme de outro modo se torna impossível.

O que certamente vai afastar muitos espectadores é o ritmo vagaroso de toda a narrativa. Longe, muito longe de qualquer modelo hollywoodiano, Tarr não é um diretor que se preocupa em fazer uma obra ágil, fácil de digerir. A lentidão faz parte do seu trabalho. E aqui isso surge por meio dos planos longos, que acompanham, do início ao fim, as caminhadas dos personagens e outras atividades que seriam cortadas ou reduzidas se estivéssemos diante da obra de algum outro cineasta (com aproximadamente duas horas e vinte de duração, As Harmonias de Werckmeister foi feita com apenas 39 planos). O estilo de direção ainda inclui um grande uso de travellings, em que a câmera se desloca no cenário.

Nessa visita à Hungria, fomos presenteados com uma grata surpresa. Semana que vem, a nossa Volta ao Mundo vai para a Índia, representada por A Canção da Estrada (1955), de Satyajit Ray. Acompanhe e faça parte da nossa viagem!



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!