01
jun
2017
Crítica: “Mulher Maravilha”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Mulher Maravilha (Wonder Woman)

Patty Jenkins, 2017
Roteiro: Allan Heinberg
Warner Bros.

4

Particularmente, não sou um dos “haters” dos filmes da DC. Sim, Esquadrão Suicida é bem fraco, e O Homem de Aço e Batman vs Superman poderiam ser melhores, mas jogar todos no lixo e taxá-los de inaproveitáveis me parece um pouco de preguiça. Mas apesar de eventuais virtudes, não há como negar que o principal problema dos filmes recentes deste universo seja a dificuldade em encontram um tom apropriado para suas histórias, que muitas vezes quase desabam na tentativa de se levar a sério demais, ao mesmo tempo em que querem incluir piadas desajeitadas, e acompanhar vários personagens e várias subtramas ao mesmo tempo. E nesse sentido, é impossível negar que este novo Mulher Maravilha seja o trabalho mais coeso de sua saga, já que encontra sua principal força em seu poder de estabelecer suas regras e funcionar dentro delas.

A trama basicamente acompanha a personagem título primeiramente em seu treinamento em sua terra natal e depois seu envolvimento com um piloto da primeira guerra mundial, que a leva a conhecer o mundo dos homens e sua violência.

Ao contrário dos últimos filmes deste universo expandido, onde haviam dezenas de personagens e dezenas de subtramas, aqui tudo é tratado com mais calma: todo o primeiro ato se concentra não apenas no básico de apresentar os personagens, mas, mais importante, em construir a atmosfera para aquela trama, que tem um tom bem mais fabulesco e que é mais do que apropriado, afinal, estamos acompanhando uma história com personagens de nomes como “Sra. Veneno” , e que usam armaduras coloridas e chicotes brilhantes, então por que se levar a sério demais?

Não que todo filme tenha que ser leve e fazer piadinhas, mas negar a natureza fantasiosa de seu material fonte apenas para tentar se validar como “trabalho adulto” é pura bobagem.

E é justamente por entender que está contando uma história de fantasia que o filme funciona tão bem, e justamente por não se levar a sério, mesmo os momentos mais clichês e convencionais, como um discurso megalomaníaco de um vilão, acabam não sendo um grande problema, já que encontram seu lugar na lógica estabelecida até então. E ainda que não deixe de apelar para diálogos expositivos, onde um personagem diz resumidamente tudo o que já poderia ser notado com um pouco de atenção em outros elementos, o roteiro ilustra de maneira simples, com um tom quase de fábula mesmo, a natureza destrutiva e raivosa da humanidade, mas também seu poder para a compaixão, sendo particularmente notável a cena em que um indígena comenta que teve suas terras roubadas pelo mesmo povo que agora estava lutando do “lado certo” da guerra – onde percebemos que, no fundo, não somos tão diferentes assim. Vale dizer também que a insistência em algumas fórmulas de piada às vezes cansa um pouco, principalmente ao retratar as dificuldades da protagonista em se adaptar no mundo dos homens, mas por outro lado, há algumas sacadas cômicas bastante divertidas, como na cena em que a personagem diz para um homem nu “Você deixa essa coisa pequena te dizer o que fazer?” se referindo na verdade a um relógio, mas, bem… não tem como não pensar em outra coisa também.

Em relação ao elenco, os overactings de Lucy Davis e Ewen Bremner são um pouco demais, mesmo tratando-se de personagens coadjuvantes, mas já Gal Gadot se mostra a escolha perfeita para a personagem título, já que traz um misto de inocência, perseverança e curiosidade que são fundamentais ao filme.

E se a trilha sonora durante boa parte da projeção acaba sendo apenas “mais do mesmo”, até pecando um pouco pela onipresença, pelo menos consegue contribuir para o clima fantasioso da narrativa, sem contar que o tema principal da personagem é utilizado com economia e criatividade.

Para finalizar, a direção de Patty Jenkins (do ótimo Monster – Desejo Assassino) é eficiente ainda que com irregularidades. O uso do 3D, por exemplo, é bastante problemático: além da câmera estar quase sempre se mexendo, o que somado à terceira dimensão tende a dar uma certa dor de cabeça,  repare também como ao trazer algum ator diante de uma paisagem ampla, a profundidade de campo permanece reduzida e o fundo fica totalmente fora de foco – o que basicamente anula o conceito básico da tecnologia de profundidade. Por outro lado, o uso de bullet-time (aquela câmera lenta capaz de acompanhar o trajeto de uma bala) é bem dosado e funciona para deixar a ação mais compreensível, ainda que o excesso de planos fechados durante as lutas por vezes as deixem mais confusas. E também não há como não elogiar a excelente sequência que traz a protagonista em seu primeiro momento como heroína em um campo de batalha durante a guerra, que demonstra a noção de timing de sua diretora e funciona tão bem justamente por não ser apressada e sim construída gradativamente – o que faz com que seu auge seja ainda mais empolgante.

Sendo também notável como pelo menos uma das principais sequências de ação do filme se passe durante o dia em um local muito bem iluminado (contrariando o que vem sendo cada vez mais tendência, principalmente nos filmes da DC, de filmar a ação toda no escuro), Mulher Maravilha é um filme que diverte e empolga mesmo não sendo tão original ou surpreendente. Isso porque compreende a natureza de sua trama e seus personagens, e não tem vergonha de admitir seu caráter fantasioso e fabulesco. E mais vale um filme simples que sabe contar sua história do que um filme que se leve muito a sério e não sabe o que quer dizer.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael