22
jun
2017
Crítica: “O Círculo”
Categorias: Críticas • Postado por: Andressa Gomes

O Círculo (The Circle)


James Ponsoldt,  2017
Roteiro:James Ponsoldt, Dave Eggers

 

IMAGEM FILMES

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Vale a pena trocar o direito à privacidade por segurança? De que forma o nosso comportamento se altera quando estamos sendo observados? Questões como essa vem à mente ao assistir esse filme, muito pertinente para o momento em que estamos vivendo enquanto sociedade. Baseado no romance homônimo escrito por Dave Eggers e lançado em 2013, trata-se de um  techno-thriller (subgênero que vem estando em alta no cinema e na TV nos últimos anos) que retrata sem medo, e com realismo, um cenário onde a natureza fascista e autoritária da tecnologia é revelada e levada ao extremo.

A história gira em torno de Mae Holland (Emma Watson), uma jovem que graças a sua amiga Annie (Karen Gillan), consegue uma entrevista de emprego, e posteriormente um emprego em uma grande multinacional chamada O Círculo, que atua no ramo da internet e tecnologia, e é uma espécie de crossover entre Google, Facebook e Instagram, todos em uma plataforma só. O que aparenta ser uma função relativamente simples (responder  dúvidas dos usuários), em um ambiente de trabalho que em um primeiro momento parece ser perfeito e amigável, revela-se muito mais complexo e sinistro.

Parte da filosofia da empresa consiste que os funcionários experimentem o mesmo que os usuários, de forma intensa e integral. Aos poucos, através de um inteligente processo de lavagem cerebral, ela se convence que compartilhar e documentar sua vida, não só é algo saudável, como também ético, e começa a passar  90% dos seus dias (com exceção de idas ao banheiro), compartilhando absolutamente tudo o que faz com seus seguidores através de uma microcâmera conhecida como SeeChange, que também é o principal produto da empresa, apresentada por seu cofundador Eamon Baile (Tom Hanks), como uma poderosa ferramenta capaz de reduzir e  prevenir toda a criminalidade. As consequências dessa superexposição aparecem das formas menos esperadas e mais dolorosas possíveis.

De forma resumida, O Círculo é uma rede social que conta com milhões de usuários pelo mundo, e sabe absolutamente tudo que se tem para saber sobre eles, a todo instante, mas com um “bom propósito”. Um dos melhores argumentos para justificar esse monitoramento, vem de Baile, que considera que quando sabemos que estamos sendo observados, queremos dar sempre o melhor de nós, o que já foi inclusive comprovado cientificamente.  Em 2012, um estudo feito nos EUA, pela Universidade de Illinois, que contou com 292 voluntários, e revelou que quanto mais amigos uma pessoa tem no Facebook, mais narcisista ela tende a ser, além disso, alguns pesquisadores  já consideram ser possível para um usuário se viciar em likes e outros tipos de feedback virtual.

A necessidade de conquistar cada vez mais likes/seguidores/fãs levaria as pessoas a se portarem o tempo todo como uma versão idealizada de si,  mais feliz e amigavel, por outro lado, a  invasão de privacidade, e seu possível fim, também estariam na linha. É impossível não lembrar de Black Mirror ou mesmo 1984, de George Orwell enquanto se assiste a esse filme, mas infelizmente, o roteiro e a direção não souberam explorar todo o seu potencial, talvez por uma adaptação feita as pressas. No geral, faltou conflito e complexidade nos personagens, do começo ao fim, existe apenas 1 incidente que realmente provoca tensão,  move o enredo, e aproxima o publico da personagem principal, antes disso, por mais que fosse essa a intenção, fica muito difícil  se conectar com ela, por mais que Emma Watson se esforce com o material limitado que lhe é dado, o mesmo vale para Tom Hanks, nas poucas cenas em que aparece. Outro ponto negativo é a edição de algumas sequencias, que parecem amadoras e feitas as pressas.

No entanto,  uma  das grandes questões do livro que o filme conseguiu transmitir muito bem é a forma como estamos condicionados e aprisionados a internet/tecnologia, de tal modo que para encontrar soluções para problemas provocados por elas, também  é necessário fazer uso de seus recursos. O Círculo possui uma premissa interessante que com certeza daria uma ótima série/mini-serie da Netflix, com mais fidelidade a obra original e tempo maior de desenvolvimento dos personagens. Como filme, não funcionou tão bem.



Não lembro de uma época em que os filmes ou a TV não fossem parte da minha vida. Considero o Cinema mais do que entretenimento, uma das mais completas formas de arte e de registro da humanidade. Estudante de Cinema e Audiovisual. Dentre os diretores/roteiristas favoritos estão: François Ozon, Lars Von Trier, Michael Haneke, Satoshi Kon e Vincent Minneli. Sem vergonha de gostar de consumir/discutir cultura pop, viciada em "The Big Bang Theory", alguns reality shows (Master Chef, The Bachelor) e séries coreanas.