17
jun
2017
Crítica: “O Jardim das Aflições”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

O Jardim das Aflições

Josias Teófilo
Roteiro: Josias Teófilo

2.5

É difícil de fazer uma crítica cinematográfica sobre um filme como O Jardim das Aflições. Trata-se de um trabalho correto, ainda que pouco ambicioso com Cinema, que ao mesmo tempo venera seu personagem-título mas evita tocar em assuntos polêmicos que pudessem torná-lo interessante para qualquer um dos lados.

O propósito deste documentário é basicamente deixar o filósofo (autodeclarado, embora isso não seja essencialmente um problema) Olavo de Carvalho falar por uma hora e vinte sobre algumas de suas crenças e modo de pensamento, mostrando também um pouco de seu cotidiano.

Não é um filme biográfico (há apenas brevíssimos – e dispensáveis – vídeos de entrevistas um pouco mais antigas) nem tampouco um grande manifesto sobre seus ideais.

Quem está afim de se divertir com alguns absurdos como suas defesas de geocentrismo ou acusações sobre fetos abortados em refrigerante deve se frustrar. Porém, quem já o encara como um grande mestre provavelmente irá se deliciar com a abordagem do filme que o trata com uma reverência absoluta, onde até seu caminho para os fundos da casa para dar um tiro é retrato com grande solenidade.

Não que não haja nada de cinematográfico aqui, pois há: a fotografia aproveita o verde da bela locação para criar um visual interessante e solene, a trilha sonora, mesmo que às vezes repetitiva, é bastante bonita, e há alguns momentos onde o ponto de vista de Olavo pode interessar mesmo a quem não se identifique com suas ideias – como quando ele defende que nenhum posicionamento é 100% “original”, ou quando fala sobre o gênero western. Também não há como não admirar o excelente e impressionante plano aéreo que percorre Brasília em meio a um nevoeiro de amanhecer, ou então a delicada sequência que acompanha Olavo em um almoço com a família – onde apesar de ficar claro o desconforto óbvio das pessoas em ter uma equipe de filmagem em sua casa, é possível entender o carinho entre eles.

Por outro lado, há também momentos onde a necessidade de criar algo que seja esteticamente interessante para dar dinamismo ao filme acaba sendo apenas óbvio demais: como quando o protagonista fala algo sobre “cuidado para não se perder” e a câmera gira em um contra-plongée no meio de árvores, ou então quando um monólogo poético é acompanhado por longos e repetitivos travellings mostrando fileiras e mais fileiras de livros como se isso tornasse tudo mais “intelectual” sendo que é apenas visualmente cansativo, ou até mesmo na assustadoramente amadora quebra no eixo no meio de uma entrevista que muda a direção do olhar do entrevistado apenas para mostrar o entrevistador desnecessariamente por alguns segundos, voltando ao eixo inicial logo depois, em um primário erro de montagem.

Como ideologia, é difícil debater com argumentos que parecem tirados direto da Guerra Fria, onde toda objeção pode ser descartada como “doutrinação comunista” – o que fica claro com o cartaz que Olavo tem em uma de suas portas e que traz o ex-presidente Ronald Reagan convocando para uma “luta contra o comunismo”.

É uma pena também que o filme não explore o lado cinéfilo de seu homenageado, já que são utilizados vários trechos de filmes clássicos (tais como Ivan: o Terrível, Limite, Aurora, No Tempo das Diligências…), mas só o vemos falar sobre isso em dois breves momentos.

Não creio ser função de um crítico dizer “veja” ou “não veja” o filme que for, mas como claramente este é um filme feito para um público bastante específico não tem muito como evitar. Posso dizer então que O Jardim das Aflições tem seus fortes e fracos como obra cinematográfica e deve agradar quem já tem uma admiração por Olavo de Carvalho. Quem não o suporta só vai se incomodar e quem apenas estiver afim de assistir um bom filme não vai ter muito com o que se empolgar.

E para terminar, mais uma vez quebrando as regras, vou explicar rapidinho a nota que se encontra ali do lado, pois sei que muita gente da uma importância enorme para isso e pode ser mal interpretada. A nota em uma crítica é sempre subjetiva e não tem muita importância além de servir como um breve “resumo”. Neste caso específico, decidi fazer uma média: daria 3 pelo equilíbrio entre as qualidades e defeitos cinematográficos e 2 pelas ideias apresentadas, então: 2.5.



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.