16
jun
2017
Crítica: “Z: A Cidade Perdida”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Z: A Cidade Perdida (The Lost City of Z)

James Gray, 2017
Roteiro: James Gray
Imagem Filmes

4

 

O cinema do americano James Gray está entre os mais ricos não apenas de seu país como de todo o mundo. Desde sua estreia em 1994 com o ótimo thriller/drama Little Odessa dirigiu apenas mais 4 filmes, mas com sua pegada autoral, alto rigor estético, e preferência para personagens ricos e complexos, conseguiu se estabelecer como um nome que sempre merece atenção dobrada dos cinéfilos.

E se por um lado este seu novo trabalho Z: A Cidade Perdida não se compara a uma obra-prima como seu Amantes (2008), por outro é suficientemente ambicioso e bem sucedido para fazer jus a sua carreira e mais uma vez comprovar sua voz autoral que sempre se destaca das convencionais produções americanas.

O roteiro é baseado em história real e acompanha o explorador britânico Percy Fawcett (vivido por Charlie Hunnam) em sua expedição à Amazônia no início do século XX, onde descobre possíveis vestígios de uma civilização avançada e desconhecida que pode ter habitado a região. Contrariando seus superiores, que encaravam os indígenas como selvagens, e tendo que lidar com o casamento e o nascimento de seus filhos, o explorador fica cada vez mais obcecado em encontrar a cidade perdida.

Fotografado pelo experiente cinematógrafo iraniano Darius Khondji (que tem em sua carreira títulos como Seven, Meia Noite em Paris, Amor, e Era Uma Vez em Nova York, do próprio James Gray) o filme impressiona desde o início pelas belíssimas imagens, que constantemente remetem a quadros impressionistas em suas composições (a cena que traz o protagonista com sua família em um morro ensolarado é particularmente linda), mas também trazem vivacidade e ajudam a criar o ambiente de selva que se passa boa parte da trama com suas cores foscas e esfumaçadas.

E James Gray mais uma vez mostra porque é um nome tão interessante na direção. Este mesmo roteiro (ótimo, como comentarei daqui a pouco) na mão de um diretor menor, sem dúvida resultaria em um filme muito mais convencional e esquecível. Mas com Gray ganha um tom épico, clássico. Reparem, por exemplo, como ele cria um raccord gráfico sutil ao filmar um líquido escorrendo em uma mesa e cortar para uma locomotiva de trem soltando fumaça, onde a fumaça ocupa o lugar da tela em que estava o líquido anteriormente. Ou então ao cortar de um plano dentro de um trem em movimento para outro onde a câmera se move da mesma forma só que no meio da floresta, criando uma continuidade de movimento interessante. Aliás, a montagem constantemente cria esses “floreios”, que de certo modo remetem até ao clássico Hiroshima, Meu Amor (Alain Resnais, 1959), ao encaixar flashbacks que conversam com a ação presente através de alguma rima, como quando um personagem está em certa posição e lembra-se de outro momento em que estava em posição semelhante. E do ponto de vista puramente estético, não há como não se admirar com momentos como aquele que envolve um ataque de piranhas, e que é um verdadeiro espetáculo visual.

Já o roteiro, escrito pelo próprio James Gray, também não deixa a desejar, mesmo que não seja a maior virtude do longa. A princípio, pode parecer um texto convencional, onde um personagem tem um problema de família, traça um objetivo, precisa de dinheiro para sustentar os filhos… mas esse conflito mais “genérico” é logo quase que totalmente resolvido, e o filme passa a dedicar mais atenção em seu protagonista. Assim, acima de tudo, o que importa não é a existência ou não da cidade perdida, ou então os perigos enfrentados na selva, pois o filme é sobre sua obsessão em encontrar algo que o prove correto, e também sobre o que ele perde em sua busca. Não que não haja comentários políticos relevantes, pois há – além da óbvia crítica contra a exploração internacional sobre “culturas inferiores”, o filme também acerta ao retratar os indígenas com respeito, fugindo da selvageria caricatural, mas evitando também uma romantização cafona –, mas o que realmente importa e o que o filme se propõe a ser é um intimista estudo de personagem, e isso mostra o cuidado de seu realizador.

E por mais que a longa duração possa parecer um pouco desnecessária, não há como não se impressionar com o excelente plano final (que de certa forma até remete um pouco à fantástica imagem final de Era Uma Vez em Nova York), em sua riqueza estética e temática, dando um toque quase que de realismo fantástico por um segundo e que demonstra a ambição e sofisticação de James Gray – que mais uma vez mostra que é um dos melhores diretores em atividade e faz um dos melhores filmes do ano.



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.