05
jun
2017
Livro: De Volta Para o Futuro – Os Bastidores da Trilogia
Categorias: Livro e Filme • Postado por: Matheus Benjamin

O cineasta Robert Zemeckis (diretor de grandiosos sucessos do cinema) é um ser de muita luz e devemos agradece-lo por não desistir de seu maior sonho: seguir a sua atual profissão. Ele pensou em desistir? Ao que tudo indica sim; as dificuldades do mundo dos negócios cinematográficos são incessantemente difíceis. Se no Brasil temos dificuldades financeiras para seguir com um projeto, em Hollywood você precisa a todo momento estar conquistando empresários e estúdios para que seus filmes sejam realizados (dinheiro, sempre ele). Por pouco esse clássico dos anos 80 não foi por água abaixo e em De Volta Para o Futuro: Os Bastidores da Trilogia temos uma história que merecia ser contada da forma que foi trazida.

De Volta Para o Futuro: Os Bastidores da Trilogia, de Caseen Gaines. Darkside Books. 320 páginas. Skoob.

Caseen Gaines é um grande fã da trilogia dirigida por Bob Z (como é carinhosamente chamado) e produzida por um outro Bob, o Gale (Robert Gale). Ele é considerado um historiador da cultura pop, mas possui formação em comunicação, sendo sua monografia escrita a respeito das questões raciais presentes na série de filmes Planeta dos Macacos (Pierre Boule), livro que já resenhamos em uma outra ocasião. Além desta obra sobre De Volta para o Futuro, ele também escreveu um livro sobre As Grandes Aventuras de Pee-wee (Tim Burton, 1985) e um outro contando a história dos bastidores de Uma História de Natal (Bob Clark, 1983). Ambos projetos ainda não possuem tradução para o Brasil.

Os bastidores da trilogia De Volta Para o Futuro é repleto de curiosidades a respeito de seu elenco e produtores e suas dificuldades em levar o projeto adiante, mesmo com todas as adversidades que enfrentaram, desde a remanejamentos do elenco, acidentes com dublês e divergências criativas entre o estúdio e os criadores para a continuação do projeto. Gaines relata os fatos de forma crescente, puxando entre os capítulos diversos acontecimentos e inserindo citações de suas entrevistas (e outras também já antes feitas) com os profissionais envolvidos, tudo para atestar com a maior fidelidade possível do que havia acontecido naqueles tempos.

À esquerda, Eric Stoltz e à direita, Michael J. Fox. Ambos interpretaram Marty McFly, mas apenas um deles foi pra tela.

Marty McFly foi vivido por muito dias pelo ator Eric Stoltz para depois ser substituído por um outro espírito de atuação, o de Michael J. Fox (o Marty que conhecemos). Entre trancos e barrancos, o autor conta ao leitor como se deu essa substituição e como Fox entrou na produção, mesmo se dedicando a uma sitcom quase em tempo integral e tendo já anteriormente sido cogitado e recusado (pelas pessoas que trabalhavam com ele) o protagonista do longa. Além disso, Caseen também remonta com primazia o processo de retorno mal sucedido do ator Crispin Glover, que interpretara o pai de Marty no primeiro filme, para a segunda parte da trilogia. No fim das contas, Glover (que queria uma quantia exorbitante para atuar no longa) foi substituído por Jeffrey Weissman, que de certa forma, em seus relatos, demonstra ter sido mal tratado por parte da equipe. Nesse momento, o autor também explica sobre como a maquiagem ajudou na caracterização para que Weissman se parecesse mais com Glover na remontagem da clássica cena do baile do primeiro filme.

Steven Spielberg, um dos produtores, também é bastante citado na narrativa e mostra como estava por dentro de boa parte das produções de sucesso de Hollywood nos anos 80, sendo um grande amigo de George Lucas, que havia acabado de colher os louros por Star Wars, como já lemos em Como Star Wars Conquistou o Universo (Chris Taylor). Em De Volta Para o Futuro, Spielberg atou presentemente como produtor executivo, ajudando em quase tudo que fosse necessário, dando um suporte muito valioso para os Bobs e conseguindo diversos feitos. Gaines também explica como a ideia de passar um simples teaser da terceira parte da trilogia após o término do segundo filme nos cinemas em sua estreia não fora bem recebida pelo estúdio e sendo assim o longa recebeu uma espécie de gelo por parte do público, que criticou severamente a parte 2, como também a crítica especializada.

Contudo, o livro peca pelo excesso em alguns momentos, sobretudo quando vai explicar detalhes técnicos demais para leitores que apenas querem sobre relatos acerca das interações humanas da produção. Há duas grandiosas passagens no texto que se importam muito em comentar sobre como o De Lorean, famoso carro utilizado por Marty McFly para viajar no tempo, fora desenvolvido, mecanizado e testado para o filme; também há quase todos os detalhes de como o hover board (do segundo filme) foi concebido e trazido à frente das câmeras, além de também mostrar sobre como esse “skate voador” se tornou uma decepção para os dias atuais, afinal de contas ele ainda não voava em 2015 como no filme. Além disso, a visão de Bob Gale também está bastante impregnada pelas páginas, pois Gaines se baseou muito em suas entrevistas e concepções.

A edição da DarkSide Books traz ao leitor uma vasta gama de fotografias dos bastidores, entre os capítulos narrados e também como material extra. A maioria das fotografias não acompanha legenda, o que é uma pena, tendo em vista que embora o livro tenha como público alvo os fãs da trilogia, ele poderia atingir a mais públicos com essa inserção. A edição, em capa dura, também acompanha uma fitinha fixa vermelha para marcar as páginas durante a leitura e um marcador de páginas em formato de hover board. O papel e a fonte utilizados são bastante confortáveis para a leitura e a diagramação também ajuda nesse quesito. Há poucos erros de revisão, nada muito alarmante. Não se pode falar sobre a tradução, pois não tivemos acesso ao manuscrito original.

Sendo uma leitura necessária para qualquer fã da trilogia ou também para aqueles que gostam de ler sobre curiosidades cinematográficas interessantes, De Volta Para o Futuro: Os Bastidores da Trilogia é um livro divertido, bem escrito e com detalhes bastante precisos sobre a produção de uma trilogia clássica e marcante para a sua época, desmistificando diversas lendas do senso comum e, mesmo com alguns detalhes excessivos, torna-se cativante e memorável.

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Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.