06
jun
2017
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “Loucos Pela Fama”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Raphael Cancellier

Loucos Pela Fama (The Commitments)

Alan Parker, 1991
Roteiro: ick Clement, Ian La Frenais, Roddy Doyle
Irlanda
20th Century Fox

4

A nossa Volta ao Mundo em 80 Filmes desta semana desembarca no subúrbio de Dublin, Irlanda, para conhecer a trajetória da banda The Commitments, do filme Loucos Pela Fama.

Jimmy Rabbitte é um jovem que mora em uma região pobre da cidade e deseja formar uma banda de soul, com o objetivo de se tornar um grande empresário e também de levar o ritmo para a região. Ele se junta com outras pessoas que possuem pouca experiência e lançam a banda-título do filme. A partir de então a narrativa nos conduz através da história do grupo, desde a sua formação, até o seu momento de glória e sua dissolução, como toda banda que possui muitos integrantes com egos inflados.

Loucos Pela Fama é uma produção sincera, que não se perde dentro de seu arco narrativo. Sua direção é simples e direta, sem muitas firulas. O mais interessante da obra é apreciarmos a transformação que os personagens sofrem durante a trajetória da banda.

Por se tratar de um musical que transita pelo drama e pela comédia, seus personagens são exagerados em suas características. É uma produção que possui uma grande quantidade de personagens. Desta forma, cada um deles representa um único arquétipo (o safado, o superior que acha que entende mais do que os outros, a mocinha virginal, a mocinha lasciva, o empresário que deseja ficar famoso a qualquer custo, entre outros). Este arquétipo, por sua vez, é exacerbado, elevando cada personagem ao extremo de sua característica, não possuindo muitas camadas.

Uma sacada legal foi a de serem retratados personagens que fogem do padrão. Eles são uma espécie de “desajustados”, desprovidos da beleza considerada padrão, e também não são pessoas que possuem grandes feitos na vida. Temos uma personagem que mora num local pobre e precisa cuidar dos irmãos, um pianista da igreja, um cantor careca e gordo, um senhor mais velho e desajeitado, que vive caindo de cima da moto, entre outros.

A imagem do subúrbio também ficou em bastante evidência, com ruas esburacadas, bagunça típica de regiões periféricas, lixo e tumulto. Esse foi um ponto que me fez questionar a visão que tinha quando pensava na região, já que a Irlanda povoa o nosso imaginário com o misticismo e lugares mágicos. Já em Loucos Pela Fama, somos apresentados à uma localidade urbana, suja e pobre. A fotografia e a direção de arte foi bastante certeira neste ponto.

Algumas discussões são inseridas no recheio da narrativa, como a crítica ao modelo musical e massiva predominante da época, às questões raciais e machistas. Em algum momento, o filme tende a errar a mão nestes trechos, como no momento em que o protagonista diz que eles são os novos negros do soul (sendo que a banda é formada somente por brancos). Como se trata de uma produção de 1991, este questionamento da parte de quem assiste é bastante pertinente. Em alguns momentos, parecia que havia um sarcasmo e um humor negro travestido nestas falas.

O filme possui uma trilha sonora única, com muitos trechos musicais e um desfecho interessante, nos mostrando a transformação dos personagens, junto com a transformação da banda como uma unidade. Loucos Pela Fama é uma produção focada mais na narrativa e desenvolvimento de trama do que em uma direção apurada e original. Sem grandes feitos, a obra consegue contar uma história interessante e honesta, que nos prende e nos faz rir em alguns momentos.

E apertem os cintos! Semana que vem vamos direto para a Islândia, terra da Björk, com a produção 101 Reykjavik (Baltasár Kormákur, 2000).



Futuro roteirista de TV e cinema, assisto de tudo, sem preconceitos, e procuro prestar atenção na forma como a história é contada. Sou apaixonado pelo cinema brasileiro contemporâneo, mas também sou Disneymaníaco. Meus diretores preferidos são Almodóvar, Gabriel Mascaro, Tarantino, Aïnouz, Von Trier e Sofia Copolla.