12
jul
2017
5 motivos para amar “Trainspotting – Sem Limites”!
Categorias: Listas Radioativas • Postado por: Marcelo Silva

O que torna Trainspotting – Sem Limites tão especial?

Essa é uma pergunta que eu tenho tentado responder desde que assisti ao filme pela primeira vez. Estaria mentindo se dissesse que há um dia da minha vida em que eu não pense em Renton (Ewan McGregor), Spud (Ewen Bremner), Sick Boy (Johnny Lee Miller) e Begbie (Robert Carlyle), o quarteto que encontra nas drogas, nos porres e em qualquer oportunidade de ganhar dinheiro fácil um meio de escapar da realidade de uma Escócia cinzenta.

Dois anos depois de ter assistido a Trainspotting pela primeira vez e alguns meses após ter visto a sequência e lido o livro que deu origem a tudo, parei para pensar sobre os 5 motivos que me fazem amar o longa do diretor Danny Boyle:

A rebeldia dos personagens

Algo no modo como Renton e seu grupo lidam com o mundo é, no mínimo, fascinante. Nas décadas de 80 e 90, a Escócia passou por uma forte onda de desemprego (isso nos lembra alguma coisa?), que acabou sendo determinante na explosão da cultura das drogas. Foi nesse contexto – e a partir de experiências pessoais – que Irvine Welsh, um ex-viciado, escreveu o livro Trainspotting.

Por sorte, praticamente todo o espírito de rebeldia do romance está presente na versão do cinema: não é difícil perceber que os protagonistas estão de costas para o mundo consumista e para convenções sociais como ter um emprego, escolher uma carreira, comprar eletrodomésticos e todas as outras coisas que somos incentivados a fazer ou a ter desde pequenos. E o monólogo Choose Life, cujo final é “Eu escolhi não escolher a vida. Eu escolhi algo a mais. E as razões? Não há razões. Quem precisa de alguma razão quando você tem heroína?”, é a síntese perfeita de tudo isso.

Se a Escócia não era nada atraente para os personagens do filme, o Brasil de hoje não se encontra muito diferente. Com tanta incerteza sobre o nosso próprio futuro, quem não gostaria de se desligar um pouco da realidade e viver como Renton?

A trilha sonora

A primeira música que ouvimos em Trainspotting é a sensacional Lust for Life, do americano Iggy Pop. E a qualidade da seleção musical não para por aí: Atomic (do grupo Sleeper), Perfect Day (Lou Reed), For What You Dream Of (Bedrock feat Kyo), Born Slippy (Underworld) e Think About The Way (Ice MC) estão na trilha do filme (que pode ser escutada completa aqui). Trilha, aliás, que quase chega a ser um personagem, sendo impossível falar do longa sem falar das músicas.

No entanto, de nada adianta ter uma grande faixa se o diretor não soubesse como usá-la – felizmente,  Danny Boyle consegue encaixar cada uma das músicas perfeitamente. O resultado é que nada poderia ser melhor do que a narração inicial ao som de Lust for Life, a cena de Renton procurando uma garota na balada enquanto toca Atomic e, especialmente, a sequência final, regada a Born Splippy. Depois de ver Trainspotting, é irresistível ir ao Youtube para escutar a trilha sonora de novo.

O elenco

Ewan McGregor pode hoje ser um nome familiar – é difícil quem não o reconheça como o Obi-Wan da segunda trilogia de Star Wars ou como o protagonista do musical Moulin Rouge: Amor em Vermelho. No entanto, em 1996 (ano de lançamento de Trainspotting), ele ainda era um rosto desconhecido do grande público, assim como seus colegas de elenco na adaptação do livro de Irvine Welsh.

Se, na época, o filme foi um sucesso de crítica e é reverenciado como um ícone dos anos 90 até hoje, uma parte desse mérito é de McGregor, Ewen Bremner, Johnny Lee Miller, Robert Carlyle e Kelly Macdonald (em sua estreia no cinema), que transformam os seus personagens em tipos extremamente verossímeis, com quem, talvez, poderíamos trombar na noite de Edimburgo.

McGregor, inclusive, estava levando a preparação para o papel tão a sério que chegou a pensar em experimentar heroína para entrar ainda mais fundo no personagem, mas acabou desistindo da ideia.

Danny Boyle

Danny Boyle filming Trainspotting in 1996

Danny Boyle é um diretor que dificilmente erra: ter no currículo obras como Trainspotting, A Praia, Quem Quer Ser um Milionário? (filme pelo qual ganhou o Oscar de Melhor Diretor em 2009), 127 HorasSteve Jobs não é para qualquer um.

Em Trainspotting, segundo longa da sua carreira, Boyle soube levar à tela grande toda a linguagem, rebeldia e ousadia do livro de Irvine Welsh. Além da verborragia e do visual que chega a lembrar videoclipes, o que chama a atenção é o olhar não condenatório do cineasta sobre os seus personagens. Em momento algum, percebemos qualquer tipo de julgamento ou moralismo fácil sobre os vícios, mentiras, confusões e trapaças de Renton, Spud, Sick Boy e Begbie.

Ao contrário do que declarou o ex-senador e ex-candidato à presidência dos Estados Unidos Bob Dole na época de lançamento do filme, Trainspotting não glamouriza o mundo das drogas: se tudo parece mais divertido, fácil e energético quando entra em jogo a heroína, é porque isso simboliza o efeito que a droga causa nos personagens, sendo uma representação do ponto de vista e da experiência de cada um deles. Mesmo assim, Boyle não esconde as consequências ruins de uma vida de excessos – em especial, a infecção por HIV e a morte de Tommy (Kevin McKidd).

Trainspotting é, enfim, um ótimo começo para aqueles que não conhecem a filmografia de Danny Boyle – o homem responsável por mais um motivo para amar esse ícone dos anos 90.

O humor

Trainspotting não é um filme de comédia. Porém, o humor não deixa de aparecer dentro da narrativa. A cena mais marcante é, indiscutivelmente, o estrago causada por Spud após um porre daqueles. O desespero de Tommy atrás de uma fita pornô perdida e a reação de Begbie após uma transa frustrada são outros momentos que, se não vão fazer o espectador rir sem parar, ao menos vão arrancar um ou outro sorriso.

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Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!