16
jul
2017
Crítica: “Em Ritmo de Fuga”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita

Em Ritmo de Fuga (Baby Driver)

Edgar Wright, 2017
Roteiro: Edgar Wright
Sony Pictures

4.5

Entrar no cinema e se divertir talvez seja uma das coisas mais prazerosas da vida. Tantas vezes reflexivo, o cinema é em sua essência entretenimento. Acontece que, como qualquer indústria, a quantidade de produtos ruins tende a ser muito grande. O cinema focado em entretenimento é todo ele feito em ritmo industrial, ocasionando em lançamentos cada vez mais genéricos, sem originalidade alguma, mostrando diretores em tamanha zona de conforto que faz com que a qualidade seja cada vez pior. E, é muito bom quando você consegue ir ao cinema, ver um filme de ação, que em sua essência não tem objetivo nenhum a não ser entreter o público, e esse ser um filmaço. Que te deixa com um sorriso no rosto durante e pós a sessão. Que te deixa com vontade de ter feito parte daquele projeto. As vezes o cinéfilo quer apenas se divertir. As vezes.

Em Ritmo de Fuga, novo filme do ótimo Edgar Wright, acompanha a história de Baby (Ansel Elgort), um piloto de fuga que é movido a música. Ele trabalha para Doc (Kevin Spacey), chefe de uma quadrilha especialista em roubos milionários, como por exemplo, a bancos e carros fortes. Doc nunca repete sua equipe de roubo, com exceção de Baby, o piloto de fuga que lhe deve dinheiro.

A premissa do roteiro é bem simples e seu desenvolvimento idem. Sem muitas inovações é aquela trama clássica dos filmes de ação, tudo da certo no início, a ganância aumenta, as coisas começam a dar errado dali em diante, se torna um caos e, por fim tudo se resolve, de uma maneira ou de outra. Mas essa trama, escrita também pelo diretor, lhe ajuda a criar, e é aí que Wright mostra todo seu talento. Consegue transformar um roteiro clássico, em um filme completo.

Acontece, que mesmo que o roteiro pareça simples, é interessante perceber a maneira como ele trabalha a construção do personagem protagonista. Apesar de no início o espectador acreditar apenas que Baby é um cara excêntrico por dirigir em alta velocidade ouvindo música no fone de ouvido, com o desenvolvimento da trama, começamos a entender o porque dele ser daquele jeito, afinal, passou por um trauma quando criança. E, a partir de então, sua rotina começa a ser um exercício baseado em sua memória afetiva: ouve músicas porque sua mãe adorava cantar (e cantava bem), não larga seu Ipod porque ganhou um de presente dos seus pais quando criança, e frequenta diariamente a lanchonete onde sua mãe trabalhou. E é interessante notar, que é nesse mesmo lugar em que ele conhece Deborah (Lily James) a segunda mulher da sua vida – e que formam um dos casais mais fofos do cinema nos últimos tempo -, que também gosta de cantar, ou cantarolar. Aqui, o design de produção também é muito feliz em criar esse universo de memória afetiva: perceba como a fita que consta uma gravação de sua mãe, fica centralizada em sua coleção, destacando-se ainda por ser dourada, que contrasta totalmente com o restante das fitas.

O título original “Baby Driver”, deixa claro que o filme é praticamente só sobre Baby, as outras personagens não são desenvolvidas, estão ali apenas para dar suporte à história principal. Porém, apesar de não possuírem camadas de estudo em cima dos coadjuvantes, é interessante notar como eles tem sua importância na tela: seja como o pai adotivo, o patrão, os comparsas ou sua namorada. Todos ali contribuem para o desenvolvimento da narrativa. Além de, é claro, o elenco ser sensacional. Kevin Spacey traz muito de seu Underwood para cá, principalmente na hora de mostrar que é ele quem manda na quadrilha, ao mesmo tempo em que cria um bandido mais engraçado, mais leve e totalmente sutil em uma interpretação mais minimalista. Esse minimalismo que não existe em Jamie Foxx (nunca) e principalmente em Jon Hamm, que completamente irreconhecível (para quem o acompanhou em Mad Man) dá vida a um personagem caricato, engraçado e que se torna, no último ato, o principal rival de Baby.

Ansel Elgort cria um personagem que apesar de mudo em grande parte do filme, consegue transparecer todo seu carisma. Não só pela empatia que o espectador passa a ter quando começa a conhecer todas as camadas de sua história, mas também por todo trabalho corporal executado pelo ator, já que como sempre está ouvindo música em seu Ipod, parece também sempre estar dançando, mesmo quando simplesmente anda pela cidade ou por sua casa. E, é interessante perceber como a câmera dança junto com o personagem, e não é difícil de imaginar que a câmera fica colada nele durante 90% do longa. As cenas filmadas em plano sequência são sensacionais, trazendo uma fotografia espetacular, que muito colorida na maior parte do tempo, torna-se mais sombria quando entra no espaço onde os bandidos se reúnem, ou então na garagem onde acontece alguns assassinatos.

Mas o que torna a direção de Wright realmente grandiosa aqui são três quesitos: montagem, edição/desenho de som e trilha sonora. As sequências de ação, principalmente nas perseguições de carro, possuem uma decupagem perfeita que faz com que a montagem se destaque muito, trazendo um ritmo alucinante pra tela, porém contando com raccord (e aqui não é somente nas sequências de ação. Gosto muito também do raccord em passagens simples, por exemplo, quando o girar da máquina de lavar se torna um vinil) em todos os planos, não incomoda nosso olhar e faz com que a gente imerja no filme. E a primeira sequência de fuga, que praticamente nos apresenta o filme e seu protagonista, faz dos melhores primeiros 10 minutos de projeção do cinema. Mas, nisso tudo, o mais impressionante é você notar como a trilha sonora e o desenho de som são responsáveis por tudo no longa: o roteiro é ditado pelas músicas, que representam exatamente o momento que o personagem está passando e o ritmo da montagem que segue o ritmo da música que está tocando, e é impressionante perceber como soa orgânico todas as intervenções que o “som ambiente” causa na música, ficando longe de ser uma poluição sonora.

Em Ritmo de Fuga bebe em diversas fontes, trazendo para tela referências de filmes, principalmente daqueles da década de 1990, mas que não o deixa menos original por isso. É um longa que muito provavelmente vai se tornar clássico: pelo seu conteúdo e principalmente pelo visual. Diverte o tempo inteiro, deixa nosso coração acelerado pelo ritmo dos carros e da música. É uma aula de montagem, uma aula de ação. E conta ainda, com um final épico, que muito me lembrou o final de Django Livre. Tarantino certamente vai se orgulhar. Filmaço.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.