13
jul
2017
Crítica: “Fome de Poder”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita

Fome de Poder (The Founder)

John Lee Hancock, 2016
Roteiro: Robert D. Siegel
Diamond Filmes

3

McDonald’s é muito provavelmente um dos maiores cânceres da sociedade atual. Um dos, se não, o maior símbolo da globalização. Antes que entendam errado: não sou contra existir um mundo globalizado, tampouco contra o capitalismo. Ambos têm prós e contras. Tudo tem. Quando digo que o fast-food mais famoso do globo terrestre é um câncer, me refiro pelo mal que faz a saúde. Não só ele. Mas, assim como o M mais popular que tem é um símbolo econômico, é óbvio que também é o representante dos fast-food’s por aí. Pro bem e pro mal. A fama tem dessas coisas. Com eles não é diferente. Talvez, só talvez, toda essa minha indignação com o restaurante tenha a ver com o fato dele não custar mais somente $0,15 o hambúrguer e ter caído tanto na sua qualidade. T-A-L-V-E-Z.

Fome de Poder, novo filme de John Lee Hancock, conta a história de Raymond Kroc (Michael Keaton), um gerente de vendas de produtos para restaurantes (por exemplo, mixer de milkshake), que ao conhecer o drive-in californiano McDonald’s, se encanta com o sistema criado pelos irmãos Dik (Nick Offerman) e Mac (John Carrol Lynch), onde o pedido do cliente era entregue em apenas 30 segundos e não havia garçons/garçonetes servindo mesas. Vendo nessa ideia uma grande possibilidade de ganhar dinheiro, Kroc vira sócio dos irmãos e, tempos depois, acaba por “roubar” não só todo o sistema, como a empresa dos californianos (não é spoiler, é história e está no cartaz do filme).

A trama é interessante, nem que seja pela curiosidade de conhecer a história daquele lugar que, segundo o próprio filme, alimenta 1% da população da Terra diariamente. O problema é a maneira como Hancock escolhe em contá-la. Não pelo roteiro, que escrito por Robert D. Siegel não é excelente, mas é bom e cumpre perfeitamente seu papel. Se romantiza vez ou outra, essa romantização soa completamente crível ao longa, já que este não está a serviço de denegrir a imagem do restaurante. Então quando os irmãos contam para Ray como começaram a vida nos negócios e de onde surgiu a ideia do sistema que revolucionou as hamburguerias norte-americanas na década de 1950, é extremamente compreensível que essa narração seja um tanto quanto exagerada, afinal, os criadores estão narrando como criaram a criatura (rs) e ninguém – normalmente – conta seus feitos mais impressionantes sem deixá-los impressionantes.

É interessante também a maneira como o roteiro constrói a personagem principal, já que desde o primeiro take já mostra ao espectador que trata-se de um homem ganancioso, com lábia de vendedor e que consegue convencer as pessoas daquilo que pensa (ou vende), nem que seja pela insistência. E, se no início do roteiro ele já nos apresenta o personagem com todas essas características, a medida que a trama avança conseguimos enfim compreender toda a psique de Kroc. Que ele se torna alguém sem escrúpulos algum ninguém tem dúvidas. Mas por quê? É a clássica história do homem de classe média, sócio de um clube rico da cidade, com amigos que viajam para o exterior e ele, um sonhador que apostou errado a vida toda (sempre vendendo coisas inovadoras que na verdade soam obsoletas) não consegue viajar pra fora dos EUA, mesmo que, ao lado da sua atual esposa, tenha muita vontade em conhecer a Espanha. E, se tudo isso não serve de justificativa pra tornar uma pessoa escrota (e realmente não serve), é por outro lado completamente compreensível para a construção da personagem. Vejo, portanto, nesse sentido o roteiro irretocável.

É impressionante, portanto, como Keaton nos entrega mais uma grande atuação. Vive uma fase espetacular desde Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância), e a forma como suas expressões faciais e corporais vão mudando com o passar da trama é invejável. Se temos no início do longa uma empatia por sua personagem, muito por conta da garra e determinação em crescer, é graças ao seu trabalho que terminamos o longa com total antipatia à Raymond Kroc. É uma pena, porém, que o trabalho do ator seja prejudicado pela montagem e pela direção desastrosa de Hancock.

Assistindo ao filme me pergunto: alguma coisa pode me irritar e me indignar mais do que o preço dos sanduíches serem tão caros e a qualidade ter caído tanto? Claro que sim. O que? As escolhas do diretor. Principalmente no que diz respeito à montagem. E é louco perceber como não existe uma linguagem de montagem e como, muito menos, existe uma lógica narrativa para tal. Parecendo completamente inseguro na decupagem das cenas, pelo menos nas do primeiro ato, Hancock parece filmar as sequências de todos os ângulos possíveis, usando todos os planos existentes nas cartilhas das universidades e o montador se sente na obrigação de tal. Me incomoda, principalmente, a sequência em que o personagem de Michael Keaton chega ao McDonald’s pela primeira vez, onde a montagem é tão frenética que consegue quebrar no meio uma piada visual, mostrando exatamente quão confuso é aquilo. E o mais impressionante disso tudo é perceber como, a partir do segundo ato, a montagem se acalma e toma pra si uma linguagem totalmente diferente. Ambas não tem interferência nenhuma na narrativa. A diferença é que a primeira cansa nosso olhar, fazendo com que um espectador um pouco mais disperso se esqueça facilmente de tudo que foi dito nos primeiros 30 minutos de projeção. Mas, justo que sou, devo elogiar um momento também da montagem, quando os irmãos estão contando para Raymond como o restaurante foi fundado e intercala takes da conversa, com alguns em preto e branco que soam um tanto quanto documental, como imagens de arquivo, mesmo que tenham sido filmados agora, junto com o longa.

O design de produção e a fotografia se não se destacam, também não comprometem. São corretos. Utilizando uma paleta de cores flertando com o amarelo e o marrom do deserto californiano, elas fazem referência não só ao lugar onde se passa a maior parte da trama, mas também – é claro – às cores que tornam o McDonald’s tão característico: amarelo e vermelho. O amarelo está presente em tudo, praticamente, não somente na luz onde os raios solares invadem todo e qualquer ambiente interno, mas também da cozinha da casa de Raymond até o banheiro do escritório de advocacia onde assinam o contrato no final do filme. Já o vermelho, aparece em pequenos detalhes (normalmente junto do amarelo), como por exemplo, no táxi em que Ray chega a uma das novas franquias. O design de produção ajuda também, vez ou outra, na composição das personagens, como por exemplo, no simples escritório dos irmãos McDonald’s, que não sonham tanto em crescer, quando no livro de “cabeceira” de Kroc, com os dizeres “O Poder da Positividade”.

Fome de Poder é curioso: tem um roteiro quadrado, mas funcional. Uma atuação interessante do protagonista. Uma direção confusa. Uma trilha sonora horrível e uma montagem desastrosa. E é uma pena que existam esses porém, afinal, tinha potencial para ser um grande filme.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.