04
jul
2017
Crítica: “Homem-Aranha: De Volta ao Lar”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita

Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming)

Jon Watts, 2017
Roteiro: Jon Watts
Sony/Marvel

4

A Marvel precisava trazer para seus estúdios aquele que é um dos seus principais personagens nos quadrinhos. A popularidade do herói aracnídeo é tanta, que não a toa já teve série de televisão, séries animadas e filmes produzidos por outros estúdios. Antes desse lançado pela Marvel, já haviam duas sagas em menos de 20 anos, com dois atores diferentes vivendo o herói, totalizando 5 filmes. Todos sucessos de bilheteria. Nem todos bons. Mas fato é que Spider-Man é sucesso garantido. Desde seus bonecos, até sua música tema, tudo que gira em torno do herói faz parte da mente de crianças, jovens e adultos do mundo todo. Percebe-se que é meu herói favorito, e devo dizer, estou muito feliz com o resultado do filme em que finalmente ele volta para o seu lar: a Marvel.

A trama se inicia logo após os eventos que vistos em Capitão América: Guerra Civil, então, finalmente somos apresentados de vez ao adolescente Peter Parker (Tom Holland), que com seus 15 anos de idade sonha em fazer parte dos Vingadores, mas que espera essa chance sendo o herói da vizinhança, combatendo pequenos delitos como roubos de bicicletas. Até que em seu caminho aparece Adrian Toomes (Michael Keaton), o vilão Abutre, um traficante de armas nucleares (feitas com materiais alienígenas) e vê na possibilidade de derrotar Abutre sua chance de ingressar ao famoso grupo de heróis.

É interessante perceber como o roteiro faz questão de inserir o herói no universo estendido da Marvel desde os primeiros instantes de exibição, isso porque logo de cara somos apresentados ao vilão vivido por Michael Keaton liderando uma equipe que realiza a limpeza dos destroços deixados no antigo prédio dos Vingadores em Nova York. Não bastasse isso, fica ainda mais evidente por conta de um desenho feito com uma criança, onde são retratados Homem de Ferro, Capitão América, Thor e Hulk. E, se ainda não ficou claro pro espectador essa intenção dos produtores, a apresentação de Peter Parker deixa tudo ainda mais evidente, já que em uma sacada genial e muito bem executada, somos apresentados ao personagem em um tom totalmente documental, como se ele estivesse filmando (e se filmando em uma espécie de selfie animada) os acontecimentos que vimos em Guerra Civil. Além de dar um dinamismo ao longa logo em seu início, esse recurso é uma ótima alternativa pra fazer com que o público não se esqueça da história que permeia o universo estendido e, óbvio, pra deixar bem claro na nossa mente que Homem-Aranha agora é um herói da Marvel também em seu universo audiovisual. Mas apesar de nos fazer lembrar disso o tempo todo, é importante frisar que em momento algum o estúdio se esquece de que o filme é sobre Homem-Aranha, e mesmo contando com a participação de Tony Stark, por exemplo, esse não rouba o filme pra si ou chega a ofuscar o protagonista, pelo contrário, ele está muito bem inserido na trame e na narrativa, tendo papel fundamental na construção de Peter Parker.

Ainda falando sobre o roteiro e a construção das personagens, é notável perceber o trabalho feito principalmente em cima do protagonista e do antagonista. Tom Holland é um ator extremamente carismático e muito talentoso (quem não se lembra dele dançando e cantando a música Umbrella da Rihanna em um programa de televisão norte-americano?) e consegue dar vida a um Parker completamente adolescente, como deve ser: mostra nas cenas de humor um time perfeito, fazendo com que o espectador ria não somente por conta do texto, mas também pelo seu trabalho corporal. Mas é na hora em que se “desmonta” e age como um adolescente comum, não um herói, é que o trabalho do ator se torna ainda mais destacado. Através de seu olhar, percebemos todos os anseios pelos quais os jovens passam: seja nos momentos mais comuns a vida adolescente no colégio, na insegurança de conversar com a menina que é apaixonado ou então nos momentos em que sente medo. E a coragem de mostrar um herói com medo torna o longa um tanto quanto mais humano, aproximando ainda mais o Homem-Aranha do Peter Parker, e consequentemente, do espectador.

Deixando o filme ainda mais “humanizado”, temos o vilão Abutre. Apesar de sua armadura metálica, feita com sucatas dos destroços encontrados na destruição do prédio dos Vingadores, Adrian Toomes é um personagem humano, que tem aquele mesmo pensamento comum a praticamente todos os vilões de filmes, onde está cometendo o mal, querendo fazer o bem (ao menos na cabeça dele), mas a diferença é que aqui suas convicções soam completamente orgânicas à trama. Em seu monólogo, quando está frente a frente com Homem-Aranha e fala o porque de cometer os crimes que comete, percebe-se que ele realmente está fazendo tudo aquilo pensando no melhor pra sua família. Já que, logo no início do longa, ele mesmo fala que os pobres estão ali pra limpar as sujeiras deixadas pelos ricos. A escalação de Michael Keaton para o papel me pareceu um pouco preguiçosa, isso porque a composição de seu personagem remete um pouco a dois de seus principais trabalhos: Batman e Birdman, mas no final, Keaton nos entrega mais uma boa atuação.

As sequências de ação não são muito bem coreografadas, mas acabam funcionando da mesma maneira, mesmo que pra isso Jon Watts apele um pouco para um lado “Michael Bay” de ser, apostando em explosões. Mas o que de fato faz com que essas sequências funcionem é o trabalho de montagem e desenho de som, que trazem todo o dinamismo esperado. E, não só de momentos de ação que vive a montagem, já que ela é uma aliada importantíssima do diretor na missão de mesclar no espectador a tensão com a comédia. Nesse sentido, nota-se a sequência rodada no Monumento a Washington, quando através de uma montagem paralela, o diretor brinca com a situação, ao mesmo tempo em que deixa no ar a expectativa de que tudo aquilo termine bem. Ainda sobre essa mescla de sensações, temos na cena em que Peter está indo ao baile do colégio com Liz (Laura Harrier) – e é uma pena que ela não seja boa atriz – com o pai da menina dirigindo o carro, como a mise-en-scène criada pelo diretor causa o mesmo misto de tensão e humor: o humor pela situação (e é incrível o time que o diretor tem para esse tipo de comédia, como acontece por exemplo, na sequência em que Happy pede pra conversar com Peter no banheiro do colégio e eles precisam esperar, pacientemente, um aluno lavar as mãos) e a tensão pelo contexto que envolve a cena e pelo uso da câmera colada no rosto dos atores, sendo muito feliz em apostar em closes.

Repleto de referências, não só ao universo estendido da Marvel (que são óbvias), mas também a outros filmes – e destaco aqui a referência ao filme Ela, quando Homem-Aranha conversa com o sistema operacional que comanda seus trajes -, Homem Aranha: De Volta ao Lar, é um filme poderoso, divertido e dinâmico, que consegue mesclar uma ótima comédia romântica adolescente, com um ótimo filme de super-herói. A Marvel mais uma vez acerta. Ela recicla suas próprias fórmulas sem perder sua essência. E isso é de tirar o chapéu.

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OBS: A última cena pós-crédito é sensacional.

 



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.