03
jul
2017
Crítica: “Okja”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita

Okja

Bong Joon-ho, 2017
Roteiro: Bong Joon-ho e Jon Honson
Netflix

4

Filmes que tem distribuição principal através de serviços de streaming, como a Netflix, disputando o prêmio principal do Festival de Cannes, o mais tradicional do mundo, com toda certeza daria polêmica. E deu. Logo na abertura do festival houve uma pequena desavença entre dois membros do júri oficial (Pedro Almodóvar e Will Smith). O espanhol defendeu que um filme não visto nos cinemas, não deveria ganhar a Palma de Ouro, enquanto Smith é defensor da tese de que salas de cinema e serviços on demand podem andar lado a lado, e que uma coisa não atrapalha a outra. Enquanto houver lançamentos originais e com distribuição exclusiva das plataformas digitais, haverá discussão do tipo. Os cinéfilos saudosistas e conservadores nunca vão aceitar que tamanho avanço ocorra com a sétima arte. Como qualquer discussão, nessa também há prós e contras: nada supera a experiência de você entrar em uma sala de cinema e desfrutar do filme, porém, sabemos que em países como o nosso, por exemplo, essa experiência é um tanto quando elitizada, já que os valores dos ingressos são absurdos e não possui salas de cinema em todas as cidades, muito pelo contrário, a maioria não tem. Enquanto isso, uma assinatura da Netflix, sai entre R$20,00 e R$40,00 por mês a depender do plano escolhido. É uma ótima alternativa para fugir da pirataria.

Fato é que Okja, novo filme do sul-coreano Bong Joon-ho e distribuído pela Netflix, foi lançado no Festival de Cannes de 2017, e apesar de não ter levado nenhum prêmio, é um grande filme e teve uma boa recepção de público e crítica.

A trama começa em 2007, quando somos apresentados à mega coorporação do setor alimentício Mirando, através de sua CEO Lucy Mirando (Tilda Swinton), que anuncia que uma nova espécie animal (super porcos) foi encontrada no Chile, e que 23 desses animais seriam enviados a 23 países diferentes para que fazendeiros locais cuidassem deles por 10 anos. Após esse período, um deles seria premiado como o melhor super porco e apareceria em um programa animal de televisão muito popular apresentado por Dr. Johnny Wilcox (Jake Gyllenhaal). Passada uma década, somos transportados até uma região montanhosa da Coréia do Sul, onde conhecemos a fofa (e enorme!) Okja e sua dona, Mija (Ahn Seo-Hyun), uma adolescente de 14 anos, que faz de tudo para evitar que o pior aconteça com sua companheira quando essa é levada aos Estados Unidos como vencedora do prêmio de melhor super porco do mundo.

É interessante perceber a maneira como o diretor apresenta as personagens do longa, principalmente as duas protagonistas, trazendo logo de cara uma cumplicidade entre elas (e quem tem animais de estimação sabe como funciona e logo se coloca na pele de Mija). As brincadeiras entre as duas e toda a aventura vivida pelas florestas sul-coreanas servem não somente para que sejamos apresentados a elas, mas também pra demonstrar todo o cuidado que a equipe de efeitos visuais teve ao criar Okja, já que muitos dos planos servem apenas para nosso deleite, já que por muitas vezes ele usa de planos mais fechados para que o espectador consiga ver a riqueza de detalhes que o bichinho (rs) criado virtualmente possui. E, apesar de nessas sequências a montagem vacilar um pouco, é impressionante o trabalho de toda a pós-produção, e agora incluo também o montador Yang Jin-mo, principalmente pela sequência inicial, que com cortes rápidos e precisos consegue trazer para tela um tom completamente pop ao evento da empresa.

Notável, também, é a maneira como Joon-ho decidiu conceituar suas personagens, deixando somente Mija com um aspecto mais realista. As outras personagens, assim como todo o design de produção remetem a um ambiente mais lúdico, e isso facilita para os atores na hora de defenderem as personagens, já que todos eles beiram a caricatura, mas que aqui, soam completamente crível ao roteiro. Esse “ar” um pouco mais caricatual fica nítido não somente pelas atuações exageradas – ou muito contidas como no caso de Paul Dano -, mas também pelo trabalho de figurino e caracterização. Destaco, nesse sentido, Lucy Mirando: reparem nas roupas coloridas, no corte do cabelo e no detalhe dos aparelhos nos dentes, dando uma aparência exagerada, vaidosa e por vezes egocêntrica e o trabalho executado por Tilda Swinton ajuda a transparecer todas essas questões, já que a atriz acerta no tom espalhafatoso de sua personagem. Destaco ainda o trabalho da jovem Ahn Seo-Hyun que em uma atuação mais realista consegue transpor, através de seu olhar e expressões, todo o drama e emoção que Mija passa durante sua trajetória.

O sul-coreano acerta ao escolher contar essa história e tratar o assunto da indústria da carne de maneira lúdica, sem que deixar de lado toda a gravidade existente no tema. Nesse aspecto, o roteiro é impecável, já que logo no primeiro ato da narrativa ele já nos apresenta de maneira clara cada um dos personagens e dos conflitos que viriam, conseguindo assim, de maneira clara a qualquer público, passar sua mensagem durante todo o longa de maneira orgânica, sem tirar os momentos de tensão do espectador, como por exemplo, o momento em que Okja está na fila do abatedouro. E é impressionante como o diretor, nesse momento, consegue trazer o realismo ao lado do lúdico naquela que é a grande denúncia do longa. Mas, não tenho dúvidas, de que não termos a denúncia de maneira gráfica, acaba chocando muito mais o espectador do que se fosse completamente real.

Completamente fabulesco, Okja nos remete às obras de Luiz Fernando Carvalho, como por exemplo, Meu Pedacinho de Chão, já que assim como o diretor brasileiro, Bong Joon-Ho decide dar um tom lúdico a uma história sem deixar de lado a questão sócio-política-ambiental, fazendo com que a mensagem que quer passar chegue, não somente nos adultos, mas também naquela que é a geração responsável pelo futuro do planeta.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.