31
jul
2017
Estaria a Netflix matando o cinema? – Uma análise de Okja
Categorias: Especiais • Postado por: João Vitor Moreno

Uma das principais discussões recentes no meio cinéfilo é sobre a Netflix e se sobre sua produção pode ou não ser considerada como cinema, já que é lançada diretamente para ser vista em telas pequenas, desperdiçando assim uma das principais forças da arte cinematográfica.

Desde que a TV surgiu sempre foi encarada como uma espécie de inimiga do Cinema, o que inclusive levou os grandes estúdios hollywoodianos a procurarem novos artifícios para atrair o público, dentre eles o aumento do tamanho da tela de cinema e da razão de aspecto dos filmes – enquanto até então o formato padrão era algo próximo a 1,33:1 (quase um quadrado), com o surgimento da TV, que possuía um formato parecido, os filmes aos poucos ficaram mais “largos” (o CinemaScope, popular nas décadas de 50 e 60 oferecia uma razão de aspecto de 2,35:1, quase duas vezes maior do que o formato anterior), justamente para se diferenciar e para oferecer algo que era impossível para a televisão.

Como amante de cinema, é natural que eu tente defende-lo em qualquer discussão, porém, mesmo deixando a paixão de lado, não há como negar que o cinema, de um ponto de vista puramente objetivo, sempre foi e muito provavelmente sempre será superior (sim, esta é a palavra) à televisão. Essa afirmação é possível por uma série de fatores: primeiramente, e mais óbvio, o fato de a tela de cinema ser tão maior e seu som tão mais alto do que a TV já é algo a ser considerado, mas indo além, os cineastas contam com uma vantagem que é inerente ao cinema e com a qual a TV jamais poderá contar que é a atenção completa do espectador.

Quando você está em uma sala de cinema a tela é muito maior do que você, o som é mais alto do que sua própria voz, a imagem é projetada por detrás de seu assento na tela à sua frente, te encurralando completamente, e o blecaute quase total da sala te dá a possibilidade de olhar apenas para a tela. Já na TV, não apenas a tela é pequena, sendo projetada diretamente à sua frente, ou seja, você encara a projeção de igual para igual, não de maneira vulnerável como no cinema, o som é mais baixo, sem contar as inúmeras distrações possíveis em um ambiente doméstico descontraído.

Dessa forma, ao pensar um filme para o cinema, um cineasta sabe que conta com a atenção plena (ou quase isso) do espectador, tendo mais espaço para sutilezas e não tendo a necessidade de fazer algo muito expositivo, sem contar as inúmeras possibilidades estéticas que a tela grande possibilita (pegue como exemplo a famosa cena que traz um homem a cavalo surgindo no horizonte no clássico Lawrence da Arábia e verá que isso é o tipo de sofisticação que apenas uma tela gigante pode oferecer).

A TV, por outro lado, é limitada do ponto de vista estético tanto pelo tamanho reduzido de sua tela, quanto por não poder distrair muito o espectador, tendo que trazer muitos diálogos, frequentemente expositivos, e não podendo apostar em sequências visuais muito longas.

Não que não seja possível criar coisas interessantes para a TV. Dentro de suas limitações é sim possível trabalhar de forma interessante e criar material de alta qualidade. Não tem como negar também as vantagens que um seriado, por exemplo, tem sobre o cinema: ao ter vários episódios para desenvolver seus personagens, é possível criar figuras muito mais complexas do que tradicionalmente se vê em filmes (pelo menos em filmes mais comerciais). Mas do ponto de vista de linguagem audiovisual, o cinema sempre será superior não importa sua fase, pois conta com vantagens que estão intrínsecas à sua concepção.

Então não é de se espantar que haja por parte de alguns cinéfilos certo receio quando uma plataforma como a Netflix, especializada em oferecer conteúdo para ser exibido não apenas em televisores como também nas minúsculas telas de celulares e laptops, comece a produzir seus próprios filmes.

Há, é claro, alguns casos de “filmes originais Netflix” que não são pensados diretamente para a plataforma. Filmes que são exibidos em festivais em busca de distribuição e que são vendidos para serem exibidos direto em streaming (um caso recente é o ótimo A Mala e os Errantes). Nesses casos cabe outra discussão: valeria a pena um cineasta privar seu filme da exibição nos cinemas em troca da distribuição de uma plataforma tão popular como a Netflix? É uma discussão interessante que pode render muitas opiniões distintas. Eu, particularmente, não sou purista a ponto de dizer que a venda de um filme para streaming seja um grande sacrifício, já que em um local como a Netflix ele provavelmente será mais visto do que se fosse lançado nos cinemas, mas também entendo que muitos cineastas possam se sentir um pouco frustrados por não poderem exibir sua obra no local mais adequado. Mas enfim, essa é outra discussão que envolve também muito a parte comercial do cinema, e o foco aqui são as produções pensadas diretamente para serem exibidas na TV ou computador, e sua linguagem.

O que nos leva à Okja, uma das mais recentes produções da Netflix, essa sim feita diretamente para streaming, sendo exibida no cinema apenas no Festival de Cannes.

Não deixa de ser uma pena que um filme como esse não possa ser exibido no cinema, já que um de seus diferenciais é justamente sua estética: tanto nos efeitos visuais que criam a criatura geneticamente modificada que dá título ao filme, mas também no ótimo design de produção, que cria cenários que mereciam ser apreciados em uma tela grande, como as fábricas e os abatedouros sujos, além das belíssimas paisagens naturais.

Mas o objetivo deste texto não é lamentar o óbvio e sim questionar se como linguagem o filme representa um retrocesso para o cinema. E a boa notícia é que não.

O que o excelente diretor Joon-Ho Bong (do fantástico Memórias de Um Assassino e dos ótimos Mother, O Hospedeiro, e Expresso do Amanhã) faz aqui não é criar um “filme de TV”, com uma estética desinteressante e de pouca ambição temática. Ele pensa o filme como cinema. Sim, este talvez seja o trabalho mais fraco de sua carreira, mas considerando seu padrão de qualidade, não é um grande demérito.

O que diferencia seu trabalho e o qualifica como cinema independente de onde esteja sendo exibido, pode ser observado em vários momentos, como na sua constante opção de trazer imagens com grande profundidade de campo (ao contrário da linguagem tradicional da TV, que costuma apostar em profundidade de campo reduzida devido ao tamanho pequeno da tela). Sua preferência por planos abertos nas sequências de ação, como aquela que acompanha a protagonista perseguindo um ônibus, também é benvinda tanto por deixar clara a coreografia das cenas quanto pelo puro valor estético – e que, mais uma vez, prova que Joon-Ho Bong não está usando uma linguagem “atrasada”.

Outra coisa que diferencia o filme é que ele não nega seu caráter de fábula, como ao apostar em uma trilha completamente cômica para algumas sequências de ação. Aliás, um dos maiores diferenciais do filme é justamente seu equilíbrio interessante entre violência, humor e exagero.

Há também alguns artifícios mais “automáticos” aqui, é verdade, mas nada que diminua muito o filme, até porque são truques que funcionam, mesmo sendo convencionais, como o roteiro pensar a protagonista como a única figura “normal” da trama, para que possa servir de reflexo do próprio espectador, cercada por personagens mais exagerados.

Mas também é notável como o filme comenta seu atual momento histórico (com direito até a “pau de selfie”), e traz um divertido humor político, além da clara crítica à lógica corporativista que enxerga o lucro como mais importante do que o elemento humano, e as tentativas de grandes empresas de passar uma imagem progressista para esconder seus próprios interesses retrógrados.

Mesmo relativamente simples em sua estrutura, Okja é um filme que tem uma mensagem e a passa de uma forma divertida e em alguns momentos apropriadamente chocante. Não pode ser classificado como inovador, mas é competente e mostra que, ao menos por enquanto, não precisamos nos preocupar com a produção exclusiva para a Netflix. Sem contar que pela praticidade e alcance da plataforma o filme atingiu uma popularidade que se tivesse sido lançado nos cinemas dificilmente alcançaria. Mas que é uma pena que ele não possa ser apreciado em uma tela de cinema, isso não dá para negar…



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.