21
jul
2017
Pipoca Clássicos: “Oito e Meio”
Categorias: Críticas, Pipoca Clássicos • Postado por: João Vitor Moreno
  • “Não tenho nada para dizer, mas quero dizer mesmo assim”. Esta frase, dita pelo personagem de Marcello Mastroianni em um dos momentos chaves de 8 e ½, é perfeita para definir a essência desta obra fascinante, que acompanha os esforços de um cineasta em um bloqueio criativo, tendo sido feita por um cineasta que também estava com bloqueio criativo ao tentar escrever o filme. E da mesma forma com que Fellini não sabia o que dizer, mas precisava dizer mesmo assim, preciso admitir que não faço a mínima ideia de como escrever sobre um filme tão complexo e particular como este, mas o fascínio que ele exerceu sobre mim tendo o visto agora pela terceira vez é tão grande que preciso dizer algo mesmo assim.

É muito comum nos referirmos a um filme como uma “obra-prima” quando queremos dizer que ele é o que muitos outros tentam ser. 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) tem o equilíbrio entre espetáculo visual e discussão filosófica que quase todas as ficções científicas tentam encontrar; Cantando na Chuva (1952) tem a doçura e a alegria que qualquer musical de Hollywood procura; Psicose (1960) é o que todo filme de suspense sobre serial killer gostaria de ser; e por aí vai…

Mas quando falamos de 8 e ½, a obra-prima máxima do diretor italiano Federico Fellini, esta regra não vale de nada, já que trata-se de um filme tão único e impossível de ser imitado que nenhum outro filme de destaque sequer chegou a tentar a proeza. Assim, não é um filme modelo com outras cópias “inferiores”, e sim uma obra perfeita em si mesma, que por ser tão diferente e difícil de comparar com qualquer outra coisa, não é de espantar que tantos cinéfilos o considerem como o melhor filme de todos os tempos.

Se fosse necessário fazer uma sinopse sobre a trama, daria para dizer que o filme acompanha o cineasta Guido (Marcello Mastroianni), que se encontra em um profundo bloqueio criativo durante a pré-produção de seu novo filme e decide passar um tempo em uma estação de águas enquanto pensa em sua próxima obra e tenta equilibrar suas reflexões existenciais e seu relacionamento com amigos e família.

Não é difícil enxergar na história um grande traço autobiográfico do próprio diretor: enquanto o próprio título faz referência ao número de filmes realizados por Fellini até então, e até a idade dos dois é a mesma, há também momentos que ligam diretamente o protagonista com seu criador, como quando um personagem, se referindo a um de seus filmes, critica a “aparição de uma moça jovem como oferta de pureza”, o que nos remete à cena final de A Doce Vida (1960), até então seu maior sucesso.

Mas o que faz de 8 e ½ um filme tão único é que ele não está interessado em seguir o caminho de um filme convencional ao contar sua história: ao invés de uma linha narrativa comum, ele investe em uma jornada interior em seu protagonista, com flashbacks de sua infância e seus medos, alucinações com seus pais, desejos escondidos, etc.

E a genialidade está justamente aí: ao se encontrar em um bloqueio criativo, Fellini decidiu então fazer um filme sobre o bloqueio em si, e usou de sua já muito bem desenvolvida sofisticação narrativa para fazer isso de maneira brilhante.

Mesmo deixando de lado o fascinante estudo sobre criatividade e a construção de personagem impecável, é impossível não se admirar com o rigor estético com que Fellini conduz sua história.

Utilizando, como em vários outros filmes seus, uma estética que remete muito à lógica de uma apresentação circense, a câmera de Fellini flutua, criando um verdadeiro espetáculo, em coreografias e feitos técnicos que seriam difíceis de realizar até mesmo com a tecnologia atual.

Além disso, as pistas visuais utilizadas para indicar alguma alucinação ou simplesmente uma representação visual de algum sentimento também são fascinantes: repare como, por exemplo, ao se encontrar com um líder religioso, o personagem tem uma visão de uma mulher que nos leva a um flashback de sua infância que o lembra quando um desejo infantil o levou a uma forte humilhação devido à seu ambiente religioso – e a subjetividade desse momento, como observou o crítico Roger Ebert, é realçada pelo formato desproporcionalmente grande de um quadro de Dominic Savio na parede, como que frisando na memória do personagem o exemplo de inocência a ser seguido.

Da mesma forma, é curioso como a “falta de visão” do personagem se reflete em seus óculos escuros; seu “vazio criativo” é representado em sua imagem em grandes locais vazios; seu medo da incapacidade de “sair do lugar” é refletido em seu pesadelo com engarrafamento; e seu isolamento é, com muito bom humor, representado por um voo pelos céus, e não à toa, quem o literalmente puxa para terra é seu advogado.

    

Funcionando como estudo de personagem ao mesmo tempo em que é um retrato complexo sobre criatividade e expressão artística, 8 e ½ é um filme para ser visto muitas vezes e ser redescoberto a cada nova visita. É uma das obras que demostram o poder que o Cinema pode ter quando feito pelas mãos de quem sabe.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael