16
ago
2017
Crítica: “Bingo – O Rei das Manhãs”
Categorias: Críticas • Postado por: Rafael Hires

Bingo – O Rei das Manhãs

Daniel Rezende, 2017
Roteiro: Luiz Bolognesi
Warner Bros. Pictures

5

Que os shows matinais no Brasil sempre foram discutíveis, isso não resta a menor duvida. Afinal de contas, tivemos de Xuxa usando roupas nada discretas e não podendo esquecer de José Abelardo Barbosa de Medeiros, o incomparável Chacrinha jogando bacalhau para as pessoas se esmurrarem para ficar com o peixe. Uma destas atrações era o amado e icônico Bozo Bozoca Nariz de Pipoca. Esse personagem foi adorado nas manhãs da TVS (hoje, SBT). Enganam-se aqueles que acham que Bozo foi um palhaço inventado por Silvio Santos; ele fora criado em 1946 por Alan Livingston. O show trazia variedades e apresentava desenhos animados.

O personagem teve diversos intérpretes em sua passagem. O primeiro foi Wandeko Pipoka, que ficou por 2 anos interpretando o palhaço. Depois disso, vieram mais 11 atores a fazê-lo. Um desses foi Arlindo Barreto, sobre o qual essa história retrata.

No filme, vários nomes foram trocados para não haver qualquer tipo de conflito. Augusto Mendes (Vladimir Brichta) é um ator de pornochanchadas, gênero que foi muito forte nos anos 70 por apresentar nudez explicita em algumas produções. Mesmo assim, ele deseja atuar em grandes atrações. Para isso, ele procura a TV Mundial onde o presidente (Pedro Bial) lhe arruma uma ponta. Em busca de algo melhor, Augusto vai à TVP e acaba se deparando com uma fila de testes para ser Bingo, uma atração de sucesso nos EUA há 10 anos.

A atuação de Brichta é algo incrível, já que ele acaba sendo o responsável por dar ao palhaço o ar de inocência, mas com um pequeno toque de malicia, fazendo expressões de duplo sentido. As cenas mais impactantes do filme, sem sombra de dúvidas, são os momentos onde Brichta acaba por fazer um homem dividido entre a atenção ao filho, comandar um programa e o abuso de drogas e sexo. São cenas que podem fazer muitos se decepcionarem com o antigo ídolo infantil, já que sua aparência é idêntica. Não esperem por ouvir bordões icônicos, já que Bozo é uma marca e os direitos das frases estão atrelados a ela. Algo surpreendente é ver Gretchen (interpretada por Emmanuelle Araújo), a eterna Rainha do Bumbum fazendo uma “aparição”, devido a ideia de Augusto de fazer sua audiência alavancar.

Outra grande personagem é Lucia (Leandra Leal) que interpreta a chefe linha dura, tentando fazer Augusto seguir o roteiro. Crente, sendo totalmente contra a vida de excessos de Augusto, acaba sendo uma personagem que, mesmo parecendo ranzinza, se importa com ele.

O roteiro é bem pontual, fazendo o apogeu de Bingo como um grande sucesso até sua decadência e, consequentemente, um ostracismo que perdura até hoje. Um subtexto não tão explorado é o da convivência familiar saudável. Ele é apresentado de forma sutil, mas acaba sendo deixado em 2º plano, para dar mais importância as traquinagens orquestradas por Bingo. A fotografia tenta fazer uma espécie de volta a década de 80, na qual o programa foi produzido, utilizando-se principalmente de cores primárias. A montagem é feita para também remeter a época em que o programa estava no ar, com imagens distorcidas em chiados, chuviscos e alterando o formato da tela a todo momento. A direção de arte é compentente, já que o cenário do programa é recriado, quase que em sua totalidade. Temos a roleta icônica, painéis com várias lâmpadas, típico da década de 80, as letras do programas com a fonte toda espalhafatosa, gigante, cheia de cerifas. O figurino de Bingo também é fiel, com a peruca enorme com pontas arrebitadas, além da maquiagem fazer o contorno da boca igual ao ídolo oitentista.

Polêmico, abusivo e completamente deturpado, ainda assim, é um filme que vale a pena a ser assistido, visto que sempre dizem que cinema nacional é ruim e só traz pornografia, comédia sem sal e violência. Aqui, mesmo havendo um conteúdo pornográfico relativamente explicito, não é algo que faça o filme ficar pejorativo. Nós vemos algo que não é muito mostrado: os reais acontecimentos por trás das câmeras da vida de celebridades que, muitos sequer, poderiam imaginar. Vez ou outra, é apresentada a questão do ostracismo, já que a mãe de Augusto é ex-atriz de novela e agora faz parte de um show de calouros chinfrim, fazendo questões do tipo: “Será que tal artista era realmente bom ou só era bom porque a TV dava status e agora que ele está fora da TV, ele piorou?”, algo que acontece até hoje e que é frequentemente debatido nas rodas de conversas entre amigos.

Mesmo tendo sido concebido especificamente para os que vivenciaram essa década, o já famigerado “lado b” de muitos artistas que não querem que você conheça, é de deixar qualquer um sem chão, já que cresceram com esse ídolo e veem cair por terra, ao perceber que este ícone faz coisas um tanto inapropriadas. Mas vale a pena fazer um revival, por mais controverso que possa parecer.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade. Faltando pouco menos de 1 ano para a formatura, espero sempre o melhor filme possível.