30
ago
2017
Crítica: “O Estranho que Nós Amamos”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

 

O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled)

Sofia Coppola, 2017
Roteiro: Sofia Coppola
Universal Pictures

4

Não é difícil imaginar porque o filme de 1971 O Estranho que Nós Amamos chamou a atenção de Sofia Coppola para realizar um remake. Apesar de dirigido por um homem, e baseado em um livro também escrito por homem, trata-se de uma obra com várias e interessantes personagens femininas, cada uma em uma fase da vida e enfrentando dilemas muito ligados à sexualidade.

Então não deixa de ser conveniente e promissor que haja uma visão exclusivamente feminina da mesma história, e o que Coppola faz aqui é um ótimo trabalho, que mesmo desperdiçando forças e, de modo geral, ficando abaixo do original, não deixa de ser um filme com discussões interessante realizado com um rigor estético difícil de não apreciar.

A trama se passa durante a guerra civil americana, no sul do país, em um internato de meninas que abriga um soldado inimigo ferido, e que aos poucos começa a despertar a sexualidade reprimida das moças da casa.

Talvez a maior fraqueza do filme seja desperdiçar o caráter mais universal, quase simbólico, do filme anterior, onde o tom mais exagerado tornava os personagens mais representações do que pessoas de fato. O que por um lado pode ser uma visão interessante, não deixa de enfraquecer o filme não apenas em retrospecto como dentro de sua própria proposta. Dessa forma, as figuras femininas deste remake surgem um pouco menos dúbias e ameaçadoras, e a figura masculina é apenas mais inexpressiva. E mesmo no terceiro ato, quando algumas decisões de roteiro (mantidas do original) parecem pedir apenas uma sugestão de simbolismo, o filme tenta puxar para o outro lado, brigando contra sua própria natureza.

Mas nada disso anula sua interessante discussão temática, e não deixa de ser curioso como, paradoxalmente, o filme desperdiça sutilezas em sua trama, mas ganha em desenvolvimento de personagens individuais. Assim, por mais que as personagens aqui percam um pouco da dubiedade do original, acaba sendo um desafio ainda maior desvendar seus verdadeiros sentimentos.

E mesmo deixando de lado o roteiro, não há como não se encantar com o rigor estético da diretora, que não apenas evoca uma reconstrução de época suntuosa e elegante, remetendo muitas vezes a pinturas impressionistas, como também aposta em uma mise-en-scène muito estudada, onde cada personagem se move com uma precisão que pode até parecer exagerada, mas não deixa de ser divertida para uma parte dos cinéfilos, até por lembrar (apenas lembrar) um pouco o estilo do aclamado diretor francês Robert Bresson.

Perdendo em um lado, mas ganhando em outros, esta nova versão de O Estranho que Nós Amamos tem um ritmo vagaroso, mas nunca totalmente parado. É um filme que se desenvolve com calma, que interessa mais por pequenos gestos de personagens do que por grandes acontecimentos de trama. E é mais um acerto na carreira bastante regular de Sofia Coppola.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael