07
ago
2017
Crítica: “O Filme da Minha Vida”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita

O Filme da Minha Vida

Selton Mello, 2017
Roteiro: Selton Mello e Marcelo Vindicato
Vitrine Filmes

5

Selton Mello é um dos meus ídolos. Ator potente e versátil, conquistou minha idolatria lá atrás, quando protagonizou O Auto da Compadecida ao lado do não menos talentoso Matheus Nachtergaele. Sua versatilidade como ator pode-se notar através de toda sua carreira, basta colocar em um dos lados da balança personagens como André de Lavoura Arcaica, do outro coloca-se João Estrella de Meu Nome Não é Johnny, ao tempo em que não podemos nos esquecer de Chicó ou Leléu Antônio de Lisbela e o Prisioneiro. Selton é um dos ícones do nosso cinema na fase pós-retomada. É complicado falar de cinema brasileiro desse século e não colocar seu nome no meio. Não bastasse isso, Selton ainda mostra um diretor tão talentoso quanto sua veia interpretativa, também potente e versátil. É impressionante perceber sua maturidade ao analisar os três longas dirigidos pelo ator/diretor. São todos ótimos. Mas um melhor que o outro. Um é totalmente denso. Outro mais leve. O terceiro? Um misto. E é sobre esse terceiro que vou escrever agora.

O Filme da Minha Vida acompanha Tony Terranova (Johnny Massaro), um jovem morador do interior do sul do país, que vai pra cidade grande estudar e volta formado professor. Ao voltar pra casa, descobre que seu pai Nicolas Terranova (Vicent Cassel) abandonara sua mãe pra voltar pra França. Enquanto tenta entender o motivo de seu pai ter abandonado a família, Tony aproxima-se de Paco (Selton Mello) e fica dividido entre duas mulheres, as irmãs Luna (Bruna Linzmeyer) e Petra (Bia Arantes), que, cada uma ao seu modo chamam a atenção do rapaz.

É interessante notar como o roteiro (inspirado no livro Um Pai de Cinema) acompanha essa jornada, já que foca ela através do ponto de vista de Tony, um rapaz dos anos 1960, que ao mesmo tempo em que sofre pelo abandono do pai e fica revivendo – como em um sonho – as lembranças de sua infância ao lado de Nicolas, tem ainda tempo pra flertes, romances, sexo e sua vida profissional. O roteiro tenta não ser didático em momento algum, apesar do pequeno resumo da história que acontece no último ato, mas que acaba sendo crível e até orgânico ao roteiro,  já que a narrativa que vemos na tela, é o filme da vida de Tony, ou de parte de sua vida. Dessa maneira, o roteiro foca mais no resultado das ações do que propriamente no desenvolvimento delas e acaba funcionando muito bem dentro da narrativa proposta por Selton. Não é preciso dizer, por exemplo, como pai e filho se acertaram, basta mostrar que se acertaram. Assim como não é necessário dar mais tempo de tela para o rompimento das relações de Paco e Tony, uma simples ação diz tudo. Dessa maneira, ao mesmo tempo em que o diretor aposta em planos mais longos contemplando a paisagem das locações (todas muito bonitas) ou então ao simples ato de cortar tomates, evita-se diálogos expositivos. As imagens, muitas vezes, falam mais que as palavras.

Mas, se o diretor/roteirista tem êxito na narrativa, muito se deve à atuação dos atores e a fotografia (que fica para um próximo parágrafo). As palavras não são necessárias quando se diz com o olhar. O elenco escalado consegue dizer através dos seus olhos. Aquele ditado de que os olhos são as janelas da alma, faz total sentido depois de se assistir ao longa. Johnny Massaro dá vida a um típico jovem tímido da década de 1960, percebe-se romântico logo de cara através do seu olhar e é impressionante notar a mudança em suas feições na sequência em que encontra seu pai na saída do cinema (e é interessante perceber que ele acabara de assistir, pela 2ª vez, ao filme Rio Vermelho, que tem em seu roteiro problemas entre pai e filho), primeiro um sorriso, depois a cara fechada, posteriormente a dúvida em seu olhar, que tenta entender o que se passou com aquele homem que ele tanto ama. Percebe-se o poder do olhar também em Bia Arantes, que dá vida a menina mais bonita (e desejada) da cidade, vencedora de concursos de beleza e que com um simples olhar parece conseguir o homem que quiser. Mas duas atuações me chamaram bastante atenção: Selton Mello, com um sotaque sulista muito interessante, e com uma sensacional generosidade em cena, já que acaba não ganhando pra si nenhuma das sequências que aparece ao lado do protagonista, pelo contrário, consegue fazer com que suba ainda mais o nível de atuação de Johnny. E Bruna Linzmeyer, que estamos acostumados a atuações mais explosivas (já que é notoriamente uma atriz que se entrega totalmente aos papéis), tem uma jornada mais minimalista, dando vida à uma personagem com um olhar inocente (também característico da época e do local), sem que essa inocência parecesse infantilizada em momento algum.

A fotografia de Walter Carvalho é, mais uma vez, perfeita. Contando com uma paleta de cor em tom sépia do início ao fim, a fotografia remete não só ao interior do sul do país, com suas paisagens amarronzadas, mas também às lembranças de Tony: não só pelos flashbacks, mas por percebemos que ele é o narrador do longa. O Filme da Minha Vida é um longa sobre lembranças boas e ruins, sobre nossa memória, o que demonstra ainda mais o poder narrativo da fotografia. Podemos perceber o poder das lembranças não só através dos momentos em que Tony aparece criança, mas também em momentos de outros personagens, como por exemplo, Petra olhando os troféus que ganhou nos concursos de beleza e que decoram seu quarto. Além do tom sépia, você percebe também o tom sombrio do cinza no dia da tempestade e do vermelho, pontual em dois momentos: na iluminação do prostíbulo e na festa de aniversário do último ato, em ambos os casos ele representa o amor, já que o puteiro é um local completamente acolhedor para Tony, onde ele perde a virgindade, e é na festa de aniversário de seu cunhado que ele tem sua primeira vez com Luna.

E, por falar nas cenas de sexo, é impressionante perceber a delicadeza com que Selton as dirige. Encantador o fato do diretor não explorar o corpo dos atores, trazendo nada (ou muito pouco) de nudez pra tela, ao tempo em que deixa as sequências completamente poéticas, demonstrando ainda mais o tom leve que ele dá ao filme, apesar da densidade das histórias e do íntimo de cada personagem.

O Filme da Minha Vida conta ainda com uma direção de arte belíssima, que remete à década, ao tempo que explora mais os espaços, tirando qualquer impressão de “cenário”. É um filme fofo, no que de melhor pode representar essa palavra. Sua fotografia acolhedora, os olhares dos personagens e a leveza com que passagens dramáticas são retratadas deixa o espectador feliz ao final do filme. E é como um dos personagens diz durante o filme: Filmes tem finais felizes. Que bom.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.