14
ago
2017
Dunkirk: Porque o cinema não precisa do 3D
Categorias: Especiais • Postado por: João Vitor Moreno

Polêmicas e exageros à parte, Christopher Nolan é sim um dos cineastas mais interessantes em atividade nos Estados Unidos. Mesmo que deixe a desejar em algumas tentativas de criar dramas humanos e incomode um pouco pelo excesso de exposição dos roteiros (em parte necessária, já que ele constantemente trata de tramas de alguma forma complexas), é difícil não admirar pelo menos sua criatividade narrativa em A Origem, a discussão temática de O Grande Truque, o jogo cronológico de Amnésia, ou então a abordagem nova (e agora muito imitada) da trilogia Batman. E mesmo que Dunkirk não seja seu melhor trabalho, e conte com sua parcela de deslizes, é mais uma vez um filme admirável do ponto de vista técnico, e que atesta a eficiência da concepção estética de seu diretor.

O que Nolan entende aqui é o que Jean Renoir havia sacado em 1939 com A Regra do Jogo, e que Orson Welles deu continuidade em 1941 com a obra-prima Cidadão Kane: a tela de cinema é, por natureza, tridimensional.

A tecnologia 3D, que apesar de antiga ganhou popularidade apenas nos últimos 10 anos, permite que realmente vejamos uma terceira dimensão, mas também traz sua dose de limitações: as sequências de ação tendem a ficarem mais confusas, os próprios óculos são incômodos, e o espectador fica mais suscetível a dores de cabeça se houver muito corte ou movimentos de câmera muito rápidos. Sem contar que ao ter que pensar o filme sabendo que ele também será projetado em 2D (em salas sem equipamento adequado, ou, posteriormente, em DVD) o diretor fica incapacitado de utilizar truques que só funcionariam adequadamente em terceira dimensão, como ao não usar desfoque para sugerir profundidade (uma técnica fascinante no 3D, mas que perde a função em uma projeção convencional).

Mas o fato é que não são necessários óculos 3D para que um filme tenha terceira dimensão, já que a tela de cinema já é de certa forma tridimensional, e há diversos recursos de linguagem cinematográfica que podem sugerir a profundidade sem que seja necessário esbarar nas limitações do 3D de fato.

E é o que Christopher Nolan faz aqui. Ao sempre trazer seus personagens enquadrados em uma grande profundidade de campo, que se perde no horizonte, ele faz com que a tela engula o espectador sem precisar se preocupar em não mexer muito a câmera para não dar dor de cabeça. E este é um filme que depende em vários momentos de câmera na mão, correndo ao lado dos soldados, ou então oscilando levemente para sugerir inquietação, ou seja, um 3D “real” seria fatal, deixaria o filme chato e incompreensível.

Mas mesmo deixando de lado a imagem, Dunkirk ainda é impressionante em seu trabalho de som. Com uma trilha que muitas vezes aposta mais no melancólico do que no grandioso, o filme ganha um tom trágico que até compensa um pouco a falha do roteiro nesse quesito.

Porque é justamente no roteiro que o filme tem seu ponto mais fraco. A ideia de acompanhar núcleos diferentes, sendo que cada tem uma duração distinta (um se passa ao longo de uma semana, outro um dia e outro uma hora), é bastante interessante, não somente por demostrar personalidade do diretor (brincar com cronologia e a relatividade do tempo já foi tema em Amnésia, O Grande Truque, A Origem, e Interestelar), mas também por jogar com um dos elementos mais característicos do cinema: a própria manipulação do tempo – afinal, praticamente todo filme tem um tamanho que não corresponde à duração dos acontecimentos para os personagens. Mas o fato é que esse “floreio narrativo”, se é que pode chamar assim, não se justifica muito, já que do ponto de vista dramático não acrescenta em nada. É apenas uma sofisticação narrativa interessante de executar e assistir, mas que acaba chamando mais a atenção para si do que realmente ajudando a contar a história.

Além disso, os diálogos, mesmo poucos, não têm nada de novo, e se limitam a repetir coisas que já foram feitas em inúmeros outros filmes de guerra, como quando um personagem diz “Ele nunca mais será o mesmo”, ou então no cafona monólogo final, que apela para um ufanismo americano que alcança seu ápice no trecho “… ficamos na espera que o Novo Mundo venha salvar o Velho”.

Já o elenco contribui quando pode para inserir humanidade aos personagens. Enquanto Tom Hardy traz intensidade mesmo utilizando apenas o olhar durante boa parte do filme, Cillian Murphy faz bem a distinção dos dois momentos de seu personagem, um durante o combate, com um idealismo militar, e outro depois de um acidente, quando fica quase paralisado devido ao trauma.

Pecando um pouco também pela ausência quase total de sangue, que acaba por banalizar um pouco toda a violência, e não faz jus à eficiência com que o horror e desolação de toda a guerra são evocados pelo filme, Dunkirk até poderia ser um filme melhor se tivesse um roteiro um pouco mais bem estruturado e com personagens mais humanos. Mas não deixa de ser um feito técnico impressionante e que comprova que a terceira dimensão pode ser evocada mesmo sem os desconfortáveis óculos 3D.



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.