06
ago
2017
Em Ritmo de Fuga – O audiovisual em sua mais pura essência
Categorias: Especiais • Postado por: João Vitor Moreno

 

Poucos diretores sabem criar comédia visual tão bem quanto o britânico Edgar Wright. Sempre brincando com gêneros e demonstrando um humor peculiar que se caracteriza por elementos puramente cinematográficos, como um ângulo de câmera preciso ou uma brincadeira com a música, sua carreira mesmo curta é bastante rica e interessante principalmente para quem aprecia jogos ousados de linguagem cinematográfica.

E aqui neste Em Ritmo de Fuga ele realiza um de seus trabalhos mais bem elaborados, que se diferencia pela forma inventiva com que conta sua história.

A trama pode até não ter muita coisa nova: temos um protagonista que passou por um trauma na infância, que trabalha na ilegalidade por necessidade e não iniciativa própria, desejando deixar de lado a vida de criminoso para viver um romance, etc…

Porém o que faz de Em Ritmo de Fuga um filme interessante não é isso, e sim as brincadeiras de linguagem feitas por seu diretor que entende o poder que o cinema tem de proporcionar coisas que são impossíveis em outras formas de arte.

Aqui, as principais armas de Edgar Wright para contar sua história não são diálogos que poderiam estar em uma peça ou em um livro, ou então uma trilha sonora instrumental que poderia ser ouvida em um concerto. O que ele usa são elementos que apenas o cinema pode oferecer: canções que conversam diretamente com a imagem, cortes ritmados, enquadramentos precisos… Em outras palavras: é o audiovisual na mais pura essência da palavra.

Dessa forma, o diretor se diverte ao espalhar pelo cenário a letra da canção que está tocando na trilha sonora, ou ao trazer a futura namorada do protagonista pela primeira vez em tela passando em frente a um coração desenhado na parede, ou então ao sincronizar o movimento do limpador de para-brisas de um carro com uma música, ou até mesmo ao trazer tiros disparados seguindo o ritmo da trilha sonora.

E se por um lado o diretor mais uma vez, assim como já havia acontecido em Chumbo Grosso, peca no excesso de planos fechados nas sequências de ação, o que deixa a coreografia um pouco mais confusa, ao menos compensa essa falha com uma alta criatividade tanto na montagem quanto na música. E por mais que o roteiro possa até não estar entre as melhores coisas do filme, a fragilidade adicionada ao protagonista através de seu envolvimento amoroso é admirável mesmo que convencional.

Se divertindo também em suas referências a outros filmes, outra marca registrada do diretor, como no logo inicial que remete diretamente ao seu quase xará Taxi Driver (lembrando que no original em inglês Ritmo de Fuga se chama Baby Driver) ou então na pizzaria Goodfellas (Os Bons Companheiros) que remete ao clássico de Scorsese não apenas pelo nome como também pela sua associação com uma forte luz vermelha, Em Ritmo de Fuga é um filme que mesmo com uma história simples se destaca muito pela sua criatividade e por saber que tem coisas que apenas o cinema pode oferecer.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael