08
ago
2017
Trash: A esperança vem do lixo?
Categorias: Livro e Filme • Postado por: Matheus Benjamin

De vez em quando a gente se surpreende com certas coisas. Há alguns anos atrás, me surpreendi com um filme que literalmente brotou no cinema. Tratava-se de Trash – A Esperança vem do Lixo, do mesmo diretor de As Horas, Stephen Daldry, filme que já tratamos nessa coluna e escrito por Richard Curtis (de About Time) junto de Felipe Braga. O mais curioso é que o elenco principal trazia nomes como Selton Melo, Wagner Moura, Rooney Mara e novos talentos brasileiros. E, depois de conferir o filme no cinema, descobri que tratava-se de uma adaptação literária publicada em nossas terras pela falecida editora Cosac Naify. Precisei ler, pois apesar do filme ser bastante irregular, a história era bem interessante.

Livro: Trash, de Andy Mulligan. Cosac Naify. 221 páginas. Skoob.

Filme: Trash – A Esperança vem do Lixo, de Stephen Daldry (2014). Roteiro de Richard Curtis e Felipe Braga, Universal Pictures.

Andy Mulligan é inglês e Trash é seu segundo romance. O autor já publicou a trilogia Ribblestrop (Ribolópolis, em português), The Boy With Two Heads e Liquidator. Ele se interessou em escrever o romance ambientado em um país do chamado terceiro mundo, após sua experiência de morada em Manila, capital das Filipinas. O autor atuou como professor de teatro e inglês para crianças durante muitos anos em diversos lugares como Brasil, Vietnã e Índia, onde encontrou um menino de rua que o inspirou mais tarde a compor um dos personagens de Trash, seu livro com maior repercussão e traduzido para 25 idiomas.

O livro de Mulligan conta a história de três garotos do lixão de Behala, um lugar fictício em um país subdesenvolvido, que têm suas vidas completamente mudadas por conta de uma mala misteriosa de dinheiro que é encontrada por eles. Logo, a polícia quer saber quem a encontrou e os meninos Rato, Raphael e Gardo sabem que o mistério por trás dos enigmas deixados por quem jogou a mala no lixo são maiores do que podem imaginar. Eles então resolvem, por conta própria, burlando tudo o que precisam burlar, investigar o que pode ser um caso de vida e de morte; é se envolvendo com o mais variado tipo de gente que os meninos vão avançando em suas investigações.

Trash segue com uma narrativa que quebra a quarta parede e, de certa forma, interage com seu leitor. No filme, isso é ilustrado como se isso fosse um documentário filmado pelos meninos enquanto as suas ações aconteciam (ou como um reality show em que durante os cortes de imagens há os depoimentos dos participantes). É algo que também aproxima muito os personagens de quem esteja lendo o livro, por diversos motivos, entre eles a fácil linguagem narrativa empregada. O texto de Mulligan, aliás, tem nuances muito inventivas, quando descreve seus personagens em primeira pessoa, na visão deles próprios. Inclusive, as reflexões dos meninos quando olham para a sociedade são comoventes, principalmente quando eles mesmos percebem que nada podem mudar em suas realidades, assim como na de seus semelhantes. O sistema é falho e difícil, a política é suja, corrupta e enoja mais do que o lixo que os meninos precisam lidar todos os dias.

“Quando caminho pelos barracos, vejo os bebês, e sempre pedem para que eu os segure. E, enquanto sorrimos, penso: Essa criancinha, assim que souber engatinhar, estará remexendo no lixo.”

Padre Julliard. Página 57.

Alguns dos furos que incomodam bastante no filme, são quase todos muito bem esclarecidos no livro. E as diferenças não param por aí, sobretudo por certos personagens que aparecem bem pouco e/ou apenas para ilustrar algumas situações; mesmo que narrem determinados capítulos, os meninos são o foco da narrativa na maior parte do tempo. Caso esteja interessado em se aprofundar mais no filme, sugiro que leia minha crítica sobre a obra cinematográfica, clicando aqui.

A edição da Cosac Naify dispensa apresentações e comentários. A obra, dividida em cinco partes, possui uma página de abertura toda decorada com, adivinha só: lixo. E não somente, as folhas de guarda, a segunda e a terceira capa também carregam esse detalhe. Cada personagem possui um determinado tipo de fonte, o que não deixa o leitor cansado e tampouco incomodado. Isso tudo ajuda a contar a história e a diferenciar os narradores (mesmo que a escrita de Mulligan ajude muito nesse quesito). A capa, ainda, traz consigo uma textura diferenciada, um pouco áspera, que pode (ou não) remeter ao enredo. Os textos de apoio ao final da obra em si são bastante explicativos para quem ficou boiando na questão dos enigmas e outros. A tradução de Antônio Xerxenesky é muito boa e não tem grandes problemas.

Embora as obras sejam bastante distintas, não pude deixar de me lembrar do filme japonês Tekkon Kinkreet, dirigido pelo norte-americano Michael Arias e baseado no mangá homônimo de Taiyou Matsumoto. As histórias se mesclam bastante, pois tratam de crianças inocentes, pobres e sem nenhum suporte exterior lidando com assuntos pesados como mortes, crimes e etc. No caso do filme japonês, a Yakuza, máfia japonesa é quem os assola. Recomendo que assistam e também leiam este livro que tem muito a nos passar, não somente pela aventura impressa nas páginas escritas por Mulligan, mas pelas reflexões que ela nos presenteia.

Este livro ainda está disponível em lojas virtuais. Uma dica para quem queira economizar é comprar online, pois os preços são mais competitivos que nas lojas físicas. Além disso, é possível usar os cupons de desconto, como o do site Cupom Válido para economizar ainda mais!



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba”, ambos pela Pessoas na Van Preta.