20
ago
2017
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “101 Reykjavik”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Matheus Benjamin

101 Reykjavik

Baltasar Kormákur, 2000
Roteiro: Baltasar Kormákur
Islândia
101 Limited

3.5

A Islândia é um dos países mais interessantes do globo e não só por suas excentricidades, mas pela sua história e geografia. Localizado em uma zona extremamente fria e cercado pelo oceano Atlântico, o país possui pouco mais de 315 mil habitantes e sua cidade mais populosa e capital, Reykjavik é conhecida também pelos seus típicos telhados coloridos, algo que tem a ver diretamente com a história do povo islandês. Nessa volta ao mundo, desembarcamos nessa capital fria e bela, onde a história de uma pequena família se desenvolve.

Baseado no livro homônimo de Hallgrímur Helgason, o filme segue Hlynur (Hilmir Snær Guðnason) um homem que aparenta estar na casa dos 30 anos, com vários amores platônicos, esquemas com diferentes moças da região e ainda mora com a mãe (Hanna María Karlsdóttir). E então quando ela resolve abrigar uma amiga espanhola que só fala inglês, a Lola (Victoria Abril), as coisas começam a mudar na vida do rapaz que tem um interesse forte pela moça que se apresenta como lésbica, mesmo jogando um certo charme no ar. No começo, o filme parece tratar de uma narrativa em primeira pessoa carregada do fluxo de consciência, tal qual o empregado em um outro filme da maratona, O Homem que Dorme. Isso é evidenciado logo em uma das primeiras cenas na qual o personagem tem uma divagação sobre sua infância e uma memória possivelmente inventada (e engraçada) surge à tela. Mas conforme as cenas vão avançando percebe-se que o protagonista só tem esse monólogo interior em determinados momentos, com suas reflexões exageradas e imaginação fértil.

É notável perceber que o diretor desenvolve a partir de Lola uma personagem cheia de duplas faces; seja por sua bissexualidade colocada em cheque em determinadas cenas com Hylnur, seja com sua visão de mundo ou sobre como ela se comporta em diferentes grupos com diversos tipos de pessoas. A linguagem visual do filme também adquire essa dupla face por meio da direção de arte que tem fortes contrastes nas cores das vestimentas da mesma, que ora aparece despida, ora aparece com casacos nem um pouco discretos. A composição de Hylnur é cercada de melancolia e a faceta de cachorro que caiu do caminhão da mudança na expressão de Hilmir Snær Guðnason (que algum dia conseguirei pronunciar) é algo que mostra sua escolha perfeita para o papel. Inclusive, o personagem também tem seus momentos de dupla face, quando também se despe e sem vergonha alguma vive sua mais natural fase.

No cenário islandês, a paisagem fria e cheia de neve que se espera é trazida para a tela, mas o espectador também pode conferir um pouco da personalidade de seus personagens por meio da ambientação interna. O apartamento de Hlynur e sua mãe tem uma ergonomia um tanto quanto confusa e cheia de detalhes, mas ao mesmo tempo compacta, que reforça essa sensação de bagunça. As portas dos quartos estão interligadas e parece que a qualquer momento um pode invadir a privacidade do outro. O ambiente de Hlynur é completamente frio, com cores mais tristes, verde escuro, cinza e preto que refletem sua apatia com relação à vida que leva (e que nada faz para mudar). Já o de sua mãe é alegre, com tons de rosa e branco e que demonstram uma sensação de libertação e com sede pela sua vida.

A fotografia limpa traz pequenos planos sequências durante as andanças de Hylnur e a perspectiva do personagem durante suas divagações, algo bastante preciso e um recurso utilizado a favor da narrativa. A trilha sonora traz uma mescla de música eletrônica durante as festas que os personagens se encontram a clássicos de música islandesa e espanhola. A propósito, os cenários das festas refletem muito aos já apresentados anteriormente, pois evocam essa sensação de aperto que os personagens se encontram, não só fisicamente, mas também com suas emoções. Parece que embora os três: mãe, filho e amiga estejam cada vez mais interligados com suas relações, também parecem estar com suas emoções bagunçadas e sem espaços para pensamentos que os ajudem na mudança.

E a apatia de Hylnur é a mais notável de todas. O protagonista em determinado momento, parafraseando, diz que ninguém ali naquela região mora porque quer e sim porque haviam nascido ali; incluindo ele próprio, que parece não pertencer a nenhum dos lugares que conhece; parece não gostar nenhum pouco da vida que leva e está cada vez mais reclamando de tudo e irritando as pessoas a seu redor, mesmo nos melhores momentos. Sua vida parece ser uma ladeira em que as coisas rolam a todo instante, pois quando ele mesmo acredita estar superando as armadilhas do destino lhe mostram que a ladeira ainda existe e vai bem.

Embora não possa ser considerada uma obra prima e muito menos um filme ruim, 101 Reykjavik é um longa capaz de apresentar muito bem a um telespectador menos exigente o cinema islandês; mesmo com pequenas falhas, o longa de Baltasar Kormákur é bastante divertido e traz muito do que se refletir sobre como lidamos com nossos problemas. Embora não tenha uma grandiosa fotografia que evoque as paisagens do país, o roteiro com suas boas atuações faz dele um filme especial e que merece ser apreciado.

Não perca na próxima semana, nossa volta ao mundo chega a Israel com o longa Preenchendo o Vazio!



Fã de Miyazaki, Villeneuve, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens “A-Ma-La” e “Senhor Linux e sua Incrível Barba” e produzi outros tantos, entre eles “Alice.”, pela Pessoas na Van Preta.