09
set
2017
Crítica: “Como Nossos Pais”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Como Nossos Pais

Laís Bodanzky, 2017
Roteiro: Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi
Imovision

4

A carreira da diretora Laís Bodanzky é curta mas suficientemente competente para colocá-la na lista de cineastas brasileiros que merecem atenção especial. Trabalhando com temas complexos, mas que podem facilmente ser abordados de maneira apelativa ou fácil, a diretora sempre segue o caminho oposto e não se rende a respostas prontas e se mostra sempre disposta a respeitar seus complexos personagens.

Em seu novo trabalho, Como Nossos Pais, ela mais uma vez demonstra seu talento para tratar de personagens comuns, mas incrivelmente complexos, e faz um filme profundo que mesmo às vezes levemente irregular, é uma obra coesa e delicada.

A trama acompanha Rosa (Maria Ribeiro), mulher casada e com duas filhas, que tem um relacionamento frio com sua mãe mas nutre um carinho especial por seu pai. Após ser informada de que não é filha do homem que acreditava ser seu pai, ela passa por uma crise emocional e questiona seu papel como mãe, filha e mulher.

Apesar do que uma sinopse pode parecer sugerir, o filme em nenhum momento está interessado em fazer um drama novelesco com reviravoltas e momentos catárticos. Sua proposta é, por outro lado, investigar o complexo emocional de seus personagens, sem nunca enxergar alguém como um completo herói ou vilão e sim como pessoas humanas e capazes de sentimentos de bondade e sempre propensos a erros.

Tratando de temas tão universais como dificuldade de comunicação e conflito de gerações, o filme também tem sua boa dose de simbolismos, que agradam por serem, em sua maioria, sutis: em uma cena temos uma família em discussão que é surpreendida por uma chuva repentina, em outra temos a personagem principal lendo uma história para suas filhas fazendo “tradução simultânea”, unindo de forma elegante dois dos principais temas do filme – gerações e comunicação.

Não deixa de ser uma pena, portanto, que o roteiro tenha pequenas falhas que dão a impressão de que poderiam ter sido corrigidas em um simples tratamento. Há um humor desajeitado e gratuito, por exemplo, no diálogo que diz “- Que história horrível, que livro é esse? – É a bíblia”, ou então em algumas composições de personagens: por que o verdadeiro pai da protagonista tem que ser um ministro do governo sendo que política não é um dos temas do filme? Além disso, os primeiros minutos de projeção dão uma impressão de pressa que não faz sentido e não condiz com o restante do filme: basicamente todos os temas discutidos pelo roteiro são expostos logo nas duas primeiras cenas de forma que às vezes soam um pouco artificiais e dão a impressão de que os roteiristas precisam apresentar muita coisa de uma só vez.

Já a direção de Laís Bodanzky tem decisões que demonstram delicadeza e carinho com seus personagens, como ao manter a câmera afastada em um momento de embaraço no trabalho da protagonista, ou então ao criar imagens visualmente significativas, como quando o casal principal conversa separados por uma parede da casa, ou então quando discutem enquanto um está por detrás de um box embaçado. Há também outro momento em que a personagem de Maria Ribeiro está pesquisando sobre seu pai biológico no computador e seu “outro pai” chega em casa e o enquadramento faz com que os dois fiquem em posições similares, e outro que acompanha um diálogo entre mãe e filha onde a mãe é filmada sempre ao lado de uma cadeira vazia (o que possibilita interpretações diversas tanto por sua ausência emocional no passado quanto por sua ausência física no futuro).

E como direção de atores é um grande acerto que Bodanzky permita que seus intérpretes tropecem em algumas falas e se atropelem uns aos outros pois condiz com a situação dos personagens, que experimentam emoções fortes e repentinas, sendo difíceis de serem expressadas em palavras. E o fato de ela contar com atores tão competentes também contribui e muito para a criação de figuras tão interessantes.

Enquanto Maria Ribeiro vive a protagonista com uma intensidade absurda (sendo particularmente memorável o equilíbrio entre calma e desespero que ela expressa em uma conversa com o irmão), Paulo Vilhena vive seu marido com segurança e evitando que seu personagem seja apenas uma figura negativa, já que é capaz de demonstrar vulnerabilidade e ressentimento mesmo que seja pela imaturidade. Já Felipe Rocha convence pela amabilidade e Jorge Mautner se mostra a maior surpresa do elenco por viver um personagem quase absurdo demais de uma forma tão convincente e humana, mas sempre muito irreverente.

Impressionando e comovendo por seus personagens ao mesmo tempo tão complexos e tão comuns, Como Nossos Pais pode até ter um ou outro deslize que o impede de ser chamado de obra-prima, mas é um filme tão delicado que é quase impossível não se afeiçoar.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael