22
set
2017
Crítica: “Kingsman – O Círculo Dourado”
Categorias: Críticas • Postado por: Rafael Hires

Kingsman: O Círculo Dourado (Kingsman: The Golden Circle)

Matthew Vaughn, 2017
Roteiro: Jane Goldman e Matthew Vaughn
Universal Pictures

4

Darren Aronofsky. Um diretor conhecido por fazer filmes que tirem o espectador da sua zona de conforto e o faça questionar se o que está acontecendo é sonho ou realidade. Dois de seus filmes são grandes exemplos disso: Réquiem Para um Sonho e Cisne Negro. Primeiro, ele te joga num ambiente onde não é necessário dar um bê-á-bá para o espectador se situar, e quando o espectador achar que ele está entendendo o enredo, se prepare que seu tapete está prestes a ser puxado.

E óbvio, isso não poderia ser diferente com Mãe!, sua mais recente produção. Um casal composto por uma mulher (Jennifer Lawrence) e um homem (Javier Bardem) vive numa casa num campo afastado de tudo e de todos. Ela é uma dona de casa bem compenetrada e ele, um poeta, que passa por um bloqueio mental.

Até que sua rotina é quebrada quando um médico (Ed Harris) chega na calada da noite e acaba por causar estranhamento no casal. Se não bastasse isso, a mulher do tal médico (Michelle Pfeiffer) chega no dia seguinte e acaba por deixar tudo ainda mais enigmático.

Durante o filme, irão surgindo mais e mais subtramas que, se você não prestar atenção, fatalmente, você irá flutuar. Uma das alegorias que é possível ser observada é a da religiosidade, mais precisamente quanto a Adão e Eva. Não é necessário me estender muito, mas no caso quando Javier Bardem deixar o casal Ed Harris e Michelle Pfeiffer entrar, é mais ou menos, uma versão do tal fruto proibido.

Jennifer Lawrence tem uma atuação magistral, seja nos momentos onde acaba por parecer um elemento estranho dentro de sua própria moradia, seja quando sofre por elementos alternos e externos que acabam por invadir sua realidade. Javier Bardem, num certo momento, representa a figura de messias, o mensageiro que vem trazer iluminação e clarividência, além de parecer bastante embriagado por estar numa posição de destaque, ao invés do papel de mero mortal sofrendo de um problema comum.

A tal puxada de tapete é feita quase o tempo todo. Você nunca sabe o que está acontecendo, sempre existe algum tipo de intertextualidade que o roteiro não explica, mas isso não afeta nenhum pouco a narrativa. Depois de um tempo, você percebe um elemento que parece fazer sentido, mas o diretor trata de retirá-lo a fim de não deixar lacuna preenchida, fazendo o espectador atribuir sentido com base no que se observa. Se você tinha achado Cisne Negro bastante complexo, neste filme, a complexidade é elevada ao infinito.

A fotografia é bem feita, com uma paleta de cores cores quentes e bem agradáveis, parecendo uma pintura a óleo, mas quando a realidade aparente é quebrada, tons mais sóbrios acabam penetrando e fazendo com que o lugar comum não esteja presente. A câmera é bastante fluida, alterna entre panorâmicas de longa duração, que é auxiliada por cortes invisíveis, e planos rápidos com uma montagem bastante frenética.

O desenho de som, onde ora está tudo quieto e aprazível e ora, o mundo parece estar desmoronando sobre seus pés. A trilha sonora é pontual, ela só toca nos momentos mais importantes para dar uma reforçada na tensão que o filme propõe.

O design de produção faz um trabalho excelente, onde compõe os elementos da casa de maneira orgânica, seja a casa estando numa tranquilidade aparente, seja ela se transformando numa baderna sem fim, com direito a destroços, coisas se quebrando e subvertendo essa aparente confusão, fazendo ambientes claustrofóbicos, sujos, quebrados, escuros, numa mistura de profano com sagrado.

Se muitos julgavam Aronofksy por não ter feito um trabalho de qualidade tão primorosa quanto em Noé, aqui vemos o chamado Aronofsky “raiz”, onde a subversão o domina e os questionamentos sempre estarão presentes. Acho que se existe uma frase que possa resumir o filme seria esta: “Se das cinzas, nós nascemos, das cinzas, retornaremos”.

Mark Millar. Sem dúvida, um dos maiores nomes em quadrinhos, hoje em dia. Não apenas na questão de criar obras, mas sim, em fazer uma marca própria e fazer de tudo um pouco com ela. Só nesta ultima década, Millar conseguiu ser um dos maiores expoentes em termos de licenciamento. Kick-Ass, o quadrinho ultra violento onde um bando de adolescentes e crianças vestidos de heróis quebram meio mundo na porrada, já recebeu 2 filmes pro cinema. Recentemente, a Netflix adquiriu o chamado Millarworld e passará a fazer séries dos títulos e um dos sucessos mais recentes foi Kingsman, inspirado em filmes de espionagem.

E agora a turma de Eggsy (Taron Egerton) está de volta. Eggsy ainda lida com uma de suas desavenças do passado, o agente que falhou no treinamento Charlie (Edward Holcroft) e quer a cabeça de Eggsy numa bandeja. Enquanto lida com isso, Eggsy quer mostrar aos pais da Princesa Tilde (Hanna Alström) que não é um cara qualquer, mas seus planos acabam indo por agua abaixo, pois o braço mecânico de Charlie acaba baixando os endereços de alguns dos agentes que Eggsy tem mais contato e envia uma bomba para esses locais, acabando com (quase) todos os agentes. E tudo se relaciona com um tal Círculo Dourado.

Se você viu o filme anterior, os elementos que você gostou estão novamente presentes, mas ainda estão presentes as falhas que acompanham o filme.

Primeiro, vamos aos acertos. A violência explicita, desenfreada ainda rodea o filme. As cenas de ação ainda tem um impacto visual incrível. A câmera se mantem no mesmo nível do filme anterior: é fluída, percorre toda a geografia do cenário, ou seja, é possível entender o que se passa, diferentemente do que ocorrem Velozes e Furiosos, onde o excesso de cortes prejudica o entendimento da cena e deixa tudo ainda mais confuso.

A montagem é auxiliada pelo novo momento que vivemos, onde toda cena grandiosa necessita de uma musica relativamente famosa para pontuar os momentos, algo que está caindo num lugar comum e todos parecem acertar.

As atuações mantém o destaque na atriz Julianne Moore, que faz uma vilã que alguns amarão odiar. Apesar de ela não ter cenas de ação, seus diálogos são muito bem feitos e ela é bem ambiciosa. Ela faz o publico se divertir com suas maldades.

A fotografia é bem feita, ela tem sempre tons bem saturados e exagerados, bem ao estilo de quadrinhos. A direção de arte também é incrível, os apetrechos que os personagens usam desafiam as leis da física e da compreensão lógica.

Agora, vamos aos erros. Se por um lado, a geografia é bem explorada, com poucos cortes ou cortes invisíveis nas cenas de ação, ela ainda está muito longe de Atômica ou John Wick, onde vemos os personagens cambaleando, lá nós sentimos a porrada vir e nos cambalear e fragilizar. Aqui, os personagens tomam porrada e ela parece que os fortalece. Como!?

A montagem das cenas de ação apesar de ser auxiliada por musicas famosas ou desconhecidas, mas que se encaixam, tem de melhorar e muito para estarem num nível parecido com o de Baby Driver, que sabe como usar cada música para pontuar suas cenas de ação e como cada musica sabe conversar com o filme num todo.

O roteiro aposta todas as fichas do humor com piadas relacionadas aos 60 e o seu alivio cômico é Elton John, que, apesar de parecer deslocado, ainda consegue se fazer crível. Mas, acaba uma hora chegando que todas as piadas possíveis de serem feitas com o músico soarem batidas e não mais impactantes. Além disso, há uma quantidade de personagens que só entram para que piadas sejam feitas com seus nomes e, estes mesmos, são subaproveitados e deixados de lado e só voltam quando o roteiro acha interessante voltar a abordar. E Julianne Moore, apesar de estar divertida no papel, acaba se tornando no 3º ato uma verdadeira dor nos nervos, já que ela acaba por ficar tão inútil, quanto o personagem interpretado por Samuel L Jackson, visto que sua motivação é pífia.

Enfim, não é que o filme não seja divertido (ele é), mas é que, tudo o que deu certo no primeiro filme continua e tudo o que deu errado continua. No frigir dos ovos, não é algo ruim, só é mais do mesmo, decidiu jogar no lado que estava ganhando e deu certo, não ousou arriscar. Mas se essa recém feita dupla de filmes pretende virar uma trilogia, é necessário haver uma readequação de conceitos se quiser continuar com sobrevida.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade. Faltando pouco menos de 1 ano para a formatura, espero sempre o melhor filme possível.