18
set
2017
Crítica: “Mãe!”
Categorias: Críticas • Postado por: Rafael Hires

Mãe! (Mother!)

Darren Aronofsky, 2017
Roteiro: Darren Aronofsky
Universal Pictures

4

Darren Aronofsky. Um diretor conhecido por fazer filmes que tirem o espectador da sua zona de conforto e o faça questionar se o que está acontecendo é sonho ou realidade. Dois de seus filmes são grandes exemplos disso: Réquiem Para um Sonho e Cisne Negro. Primeiro, ele te joga num ambiente onde não é necessário dar um bê-á-bá para o espectador se situar, e quando o espectador achar que ele está entendendo o enredo, se prepare que seu tapete está prestes a ser puxado.

E óbvio, isso não poderia ser diferente com Mãe!, sua mais recente produção. Um casal composto por uma mulher (Jennifer Lawrence) e um homem (Javier Bardem) vive numa casa num campo afastado de tudo e de todos. Ela é uma dona de casa bem compenetrada e ele, um poeta, que passa por um bloqueio mental.

Até que sua rotina é quebrada quando um médico (Ed Harris) chega na calada da noite e acaba por causar estranhamento no casal. Se não bastasse isso, a mulher do tal médico (Michelle Pfeiffer) chega no dia seguinte e acaba por deixar tudo ainda mais enigmático.

Durante o filme, irão surgindo mais e mais subtramas que, se você não prestar atenção, fatalmente, você irá flutuar. Uma das alegorias que é possível ser observada é a da religiosidade, mais precisamente quanto a Adão e Eva. Não é necessário me estender muito, mas no caso quando Javier Bardem deixar o casal Ed Harris e Michelle Pfeiffer entrar, é mais ou menos, uma versão do tal fruto proibido.

Jennifer Lawrence tem uma atuação magistral, seja nos momentos onde acaba por parecer um elemento estranho dentro de sua própria moradia, seja quando sofre por elementos alternos e externos que acabam por invadir sua realidade. Javier Bardem, num certo momento, representa a figura de messias, o mensageiro que vem trazer iluminação e clarividência, além de parecer bastante embriagado por estar numa posição de destaque, ao invés do papel de mero mortal sofrendo de um problema comum.

A tal puxada de tapete é feita quase o tempo todo. Você nunca sabe o que está acontecendo, sempre existe algum tipo de intertextualidade que o roteiro não explica, mas isso não afeta nenhum pouco a narrativa. Depois de um tempo, você percebe um elemento que parece fazer sentido, mas o diretor trata de retirá-lo a fim de não deixar lacuna preenchida, fazendo o espectador atribuir sentido com base no que se observa. Se você tinha achado Cisne Negro bastante complexo, neste filme, a complexidade é elevada ao infinito.

A fotografia é bem feita, com uma paleta de cores cores quentes e bem agradáveis, parecendo uma pintura a óleo, mas quando a realidade aparente é quebrada, tons mais sóbrios acabam penetrando e fazendo com que o lugar comum não esteja presente. A câmera é bastante fluida, alterna entre panorâmicas de longa duração, que é auxiliada por cortes invisíveis, e planos rápidos com uma montagem bastante frenética.

O desenho de som, onde ora está tudo quieto e aprazível e ora, o mundo parece estar desmoronando sobre seus pés. A trilha sonora é pontual, ela só toca nos momentos mais importantes para dar uma reforçada na tensão que o filme propõe.

O design de produção faz um trabalho excelente, onde compõe os elementos da casa de maneira orgânica, seja a casa estando numa tranquilidade aparente, seja ela se transformando numa baderna sem fim, com direito a destroços, coisas se quebrando e subvertendo essa aparente confusão, fazendo ambientes claustrofóbicos, sujos, quebrados, escuros, numa mistura de profano com sagrado.

Se muitos julgavam Aronofksy por não ter feito um trabalho de qualidade tão primorosa quanto em Noé, aqui vemos o chamado Aronofsky “raiz”, onde a subversão o domina e os questionamentos sempre estarão presentes. Acho que se existe uma frase que possa resumir o filme seria esta: “Se das cinzas, nós nascemos, das cinzas, retornaremos”.

 



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade. Faltando pouco menos de 1 ano para a formatura, espero sempre o melhor filme possível.