24
set
2017
Mãe! – A Bíblia como literatura
Categorias: Especiais • Postado por: João Vitor Moreno

(Este texto contém spoilers do filme Mãe!)

Quando Noé foi lançado nos cinemas em 2014, uma das críticas mais recorrentes ao filme foi que ele não era fiel ao texto bíblico original e que trazia uma visão de Deus que não correspondia à mensagem principal da obra. Mas o fato é que mesmo sendo possivelmente o trabalho mais fraco da carreira do excelente diretor Darren Aronofsky, Noé era não apenas um filme eficiente como drama e estudo de personagem, como também instigava por trazer uma visão muito mais direta e objetiva de uma história que por mexer com a fé costumava ser encara com certa irracionalidade por boa parte das pessoas. Dessa forma, ao invés de fazer um filme sobre o amor divino e a importância da virtude humana, Aronofsky olhou de forma mais fria o material fonte e explorou o lado sombrio inevitável da história, que afinal trata-se de um assassinato em massa de basicamente toda a população humana e animal.

E aqui em seu novo trabalho, Mãe!, agora um filme bem mais ousado como linguagem e narrativa, ele mais uma vez fascina por (dentre outras coisas) tratar a Bíblia como literatura, e faz um paralelo interessantíssimo entre a criação divina e o processo criativo da escrita. Ou seja, é como se Deus fosse um escritor.

E são inegáveis as conotações religiosas que o filme apresenta e, por consequência, instiga a interpretação do espectador. E mesmo que este seja levado a leituras que se diferem do objetivo original do diretor, parte da graça está justamente em ter uma liberdade para encaixar suas próprias visões dentro da subjetividade do filme.

Não que essa subjetividade seja tão vaga assim: como não lembrar da história de Adão e Eva ao conhecermos um casal com dois filhos homens onde um, movido por ciúmes, mata o próprio irmão? O que fica ainda mais claro se notarmos que o Homem é o primeiro a aparecer e a Mulher aparece depois que vemos o Homem com um ferimento no tronco (sua costela arrancada?). Ficando ainda mais claro quando este mesmo casal é também responsável por desobedecer  uma ordem e cometer algo proibido (no caso, a quebra de um cristal, mas poderia ser também um fruto), o que leva o criador (no filme, o escritor) a expulsá-los do local onde estavam e “fechá-lo” para ninguém mais ter acesso – não à toa, é neste mesmo lugar antes isolado, que representa a pureza, que seu filho irá nascer, refletindo sua própria pureza.

Já a casa onde se passa toda a trama é igualmente alegórica, já que além de abrigar toda a ação, fica claramente isolada de todo possível exterior, algo que a fotografia ressalta ao trazer as janelas iluminadas com luzes estouradas. Sendo assim, pode ser vista tanto como uma representação da própria Terra, quanto também um reflexo dos dois personagens principais.

Também é interessante notar que à medida que o personagem vivido por Javier Bardem (leia-se: o criador) vai vencendo o bloqueio criativo e escrevendo, mais e mais personagens vão aparecendo na casa – mais uma vez criando um paralelo entre o processo criativo e a própria criação divina, algo que Aronofsky ressalta ao criar subtextos bíblicos como no momento em que os personagens estão agindo descontroladamente até que um acidente com encanamento joga água pra todo lado e faz com que todos sumam por algum tempo (ecos de Noé?).

E como o próprio título do filme sugere, também não há como deixar de fazer uma relação entre a personagem vivida por Jennifer Lawrence e a “mãe natureza”, já que é ela quem cuida daquele ambiente e tenta desesperadamente impedir que os convidados/invasores destruam sua casa: em certo momento um personagem está quebrando uma parede e ao ser questionado ele diz que precisa “deixar uma marca de sua passagem”.

Mas além de “mãe natureza” ela também leva esse “título” por ser a mãe do filho do criador, e aqui Aronofsky deixa sua visão bem clara ao trazer o filho nascendo no local onde o casal do início havia sido “banido”, logo depois sendo entregue às outras criações, que o adoram, mas acabam matando-o, para depois ter seu corpo comido por fiéis, e sua morte é encarada por seu pai como algo que deve ser perdoado. Aqui as referências são claras, não há dúvidas, e o filme ainda aproveita para denunciar o machismo das religiões através das ações dos fiéis diante do protesto da mãe.

Mas mesmo que o espectador do filme não queira embarcar nas inevitáveis interpretações religiosas, não tem como, no mínimo, se impressionar com a intensidade com que Aronofsky filma sua história, criando uma atmosfera que incomoda do início ao fim, usando sempre planos muito fechados e que se movimentam junto com a personagem-título, impedindo muitas vezes que possamos ver tudo o que está acontecendo e acaba com isso acentuando ainda mais o desespero experimentado por ela.

No fim acaba que as ideias desta obra são ao mesmo tempo claras e subjetivas, além de fascinantes pela ousadia tanto narrativa quanto temática. Aqui, Deus é um escritor, sua esposa é a natureza, suas criações destroem sua casa e seu filho, mas no fim começa tudo de novo. É a Bíblia como literatura.



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.