29
out
2017
10 filmes para conhecer o cinema uruguaio!
Categorias: Listas Radioativas • Postado por: Marcelo Silva

Sempre que falamos do cinema dos nossos vizinhos, a maioria do público tende a lembrar somente da produção argentina, que, tendo no ator Ricardo Darín o seu grande nome, se destaca ano após ano com filmes como O Segredo dos Seus OlhosMedianeras: Buenos Aires na Era do Amor VirtualRelatos Selvagens.

No entanto, bem pertinho da gente, há outro país produzindo um cinema que merece ser visto e reconhecido. O principal mérito dos filmes do Uruguai talvez seja a capacidade de transformar orçamentos modestos e histórias bastante simples (a maioria estruturada em cima de situações e personagens do cotidiano) em produções tocantes e difíceis de esquecer tão cedo. Em uma lista que vai de documentário a animação, separamos dez longas que vão te fazer amar o cinema uruguaio!

O Banheiro do Papa (César Charlone e Énrique Fernández, 2007)

Co-produção entre Uruguai, Brasil e França, O Banheiro do Papa parte de um acontecimento real para criar toda uma fábula que beira, ao mesmo tempo, o cômico e o dramático. A história se passa em 1988, quando Melo, uma pequena cidade uruguaia localizada na fronteira com o Rio Grande do Sul, se prepara para receber a visita do papa João Paulo II. Convencidos de que a presença ilustre no local vai atrair uma multidão de fiéis, os moradores passam a sonhar em enriquecer vendendo comida, produtos e serviços para os turistas. É aí que Beto (interpretado por César Troncoso, que atuou na novela da Globo Flor do Caribe e nos filmes nacionais Faroeste CabocloElis) surge com a ideia inusitada de construir um banheiro em frente à sua casa e oferecê-lo aos visitantes, cobrando pelo uso.

Quem está acostumado com a ideia do Uruguai como um país próspero e de elevada qualidade de vida vai estranhar o cenário em que o filme se passa. Melo é mostrada como um lugarejo bastante humilde, no qual os sonhos e a expectativa de dias melhores convivem lado a lado com a pobreza e a frustração – a paixão de Silvia (Virginia Ruiz) pelo rádio e o desejo de se tornar jornalista são comoventes, ainda mais se levarmos em conta a resistência do pai e as limitações financeiras de sua família. Exibido na mostra Um Certo Olhar (Un Certain Regard) do Festival de Cannes e vencedor de Gramado em 2007, O Banheiro do Papa ainda transformou a vida dos moradores de Melo – em especial de Virginia Ruiz e Mário Silva, que não tinham nenhuma experiência em atuação e acabaram vendo novas portas se abrirem após o lançamento do filme.

Mau Dia Para Pescar (Álvaro Brechner, 2009)

Elenco de qualidade, direção segura, trilha coesa e roteiro sensível são os pontos fortes de Mau Dia Para Pescar, filme de Álvaro Brechner que teve sua estreia na Semana da Crítica do Festival de Cannes de 2009. O protagonista da obra (Gary Piquer) se autodenomina “Príncipe Orsini” e viaja pela América do Sul lucrando com combates de luta livre. Em disputas combinadas, o farsante promete dar mil dólares para quem aguentar mais de três minutos no ringue com Jacob Van Oppen (Jouko Ahola), um ex-campeão mundial e seu fiel colega de viagem. Na cidadezinha de Santa Maria, Orsini consegue, com a ajuda do dono de um jornal local (César Troncoso, de novo), transformar o brutamontes em um sucesso de popularidade. Porém, quando um lutador mais jovem e forte que Jacob se candidata para a disputa, as coisas saem do controle e o protagonista – que não tem nem o dinheiro prometido como prêmio – precisa encontrar uma maneira de escapar dessa.

Mau Dia Para Pescar é mais um filme que mostra que a força do cinema uruguaio está em seus personagens. Gary Piquer consegue fugir do clichê na construção de Orsini, concebendo um tipo totalmente humano cuja relação com Jacob não se resume à de um homem tentando ganhar dinheiro em cima do talento de outra pessoa. Falando no campeão de luta livre, o ator finlandês Jouko Ahola encarna toda a sensibilidade e inocência do seu personagem. Impressiona o fato de que, apesar do seu tamanho, ele nunca transmite um ar ameaçador. E é justamente por conta do talento da dupla que a química entre Orsini e Jacob funciona tão bem – o espectador é levado a ficar do lado de um mentiroso e de um grandalhão que transborda ingenuidade.

O longa é dramático na medida certa e consegue criar toda uma atmosfera de suspense e aflição nos momentos nos dias e nas horas que antecedem a luta – como espectador, cheguei a torcer para que o combate não viesse a acontecer. Guardando ainda uma surpresa no terceiro ato, o filme de Álvaro Brechner é mais uma pérola dentro do rico cinema uruguaio.

O Quarto de Leo (Enrique Buchichio, 2009)

Incapaz de satisfazer a namorada na cama, o jovem Leo (Martín Rodríguez) acaba levando um pé na bunda e se vê confuso sobre a sua sexualidade. Marcando encontros com homens pela Internet, ele tem duas experiências frustradas até conhecer Seba (Gerardo Begérez), com quem passa a ter um caso às escondidas. Nesse mesmo tempo, reencontra Caro (Cecilia Cósero), uma antiga colega de classe que também passa por conflitos pessoais.

O Quarto de Leo é uma obra perfeita em sua abordagem simples, delicada e bastante realista sobre o amadurecimento de um jovem. Longe de idealizar as relações amorosas – esqueça o romantismo a que nos acostumamos nesses mais de 100 anos de cinema – , o filme dialoga diretamente com todo espectador que alguma vez já se sentiu inseguro sobre sua identidade, futuro, relacionamentos e, claro, sobre sua orientação sexual. Martín Rodríguez, ator que dá vida ao protagonista da história, consegue em sua atuação minimalista expressar todos os conflitos de Leo: os olhos, por exemplo, carregam toda a dúvida e angústia que o atormentam. Destaque ainda para a trilha sonora, que aparece nos momentos certos e enriquece ainda mais esse singelo filme que marca a estreia de Enrique Buchichio na direção de um longa.

A Vida Útil – Um Conto de Cinema (Federico Veiroj, 2010)

Uma ode ao cinema e aos cinéfilos. Essa é a melhor maneira de definir o filme de Federico Veiroj – por mais que o diretor tenha negado em entrevista, é evidente que A Vida Útil – Um Conto de Cinema foi feito especialmente para os apaixonados pela sétima arte.

No enredo, Jorge Jellinek – que, na verdade, era crítico de cinema, não ator – dá vida ao programador e projecionista de uma cinemateca de Montevidéu voltada a filmes e diretores que não encontram espaço no circuito comercial. Além de trabalhar no local há 25 anos, ele apresenta um programa de rádio no qual fala das sessões do mês e recebe entrevistados. Porém, quando a cinemateca perde o seu financiador e fecha as portas, o personagem de nome Jorge (o mesmo do ator que lhe interpreta) se vê desempregado e precisa se adaptar a uma nova realidade.

Filmado em preto e branco e com um ritmo lento, o longa, além de mostrar a difícil situação de alguém que vê a obra de toda a sua vida ruir em um passe de mágica, levanta questões relevantes, como a formação do público de cinema e o definhamento dos espaços culturais. Afinal, por que é tão difícil atrair a atenção das pessoas para certas obras ao mesmo tempo em que sessões de blockbusters lotam salas e mais salas?

Mas o que há de mais marcante mesmo é a canção Los Caballos Perdidos (que surge no exato momento em que o mundo de Jorge desaba) e o monólogo sobre a mentira, inspirado em um texto do escritor Mark Twain:

La mentira es universal. Todos mentimos. Todos debemos mentir. La prudencia consiste en saber mentir con fines laudables. Hay que mentir para hacerle bien al prójimo. En una palabra: hay que mentir sanamente, por humanidad.

A Culpa do Cordeiro (Gabriel Drak, 2012)

Jorge (Ricardo Couto) e Elena (Susana Groisman) são casados há mais de 30 anos e decidem reunir a família para um almoço em sua casa no campo para anunciar uma novidade. Quando os seus filhos, todos já adultos, chegam ao local, a tranquilidade não demora para ser abalada. De pouco em pouco, antigos e constrangedores segredos vêm à tona: mentiras, traições, decepções, intrigas e ressentimentos saem do esconderijo. O monótono almoço em família dá lugar a uma queda de máscaras em que ninguém é menos culpado do que o outro.

Apesar do ritmo lento, que pode ser um obstáculo para muitos espectadores, A Culpa do Cordeiro é um verdadeiro exercício de roteiro, cuja principal força está nos diálogos e na situação do almoço em família – que  serve de cenário para a crise de “sincericídio” do patriarca Jorge, na qual ele coloca na mesa toda a mesquinharia da esposa e dos filhos que se acostumaram a uma vida às suas custas. Com altas doses de ironia, é um daqueles filmes em que é difícil segurar o sorriso e disfarçar a satisfação à medida que os personagens vão se dando mal.

A Demora (Rodrigo Plá, 2012)

Um idoso tenta acompanhar os passos da filha. Impaciente, ela caminha em um ritmo incompatível com o seu pai, que, apesar do enorme esforço, não consegue alcançá-la. Trata-se de uma cena emblemática de A Demora, que trata de um grave problema familiar: o distanciamento emocional entre pais e filhos, principalmente quando aqueles encontram-se na terceira idade.

Por meio de um planos longos, o cineasta Rodrigo Plá mostra aos poucos o cotidiano da família de Maria (Roxana Blanco), uma mulher que, além de enfrentar apuros financeiros para criar sozinha os três filhos, ainda precisa lidar com o pai, Augustín (Carlos Vallarino, excepcional no papel), um senhor que padece de um grave problema de esquecimento. O desinteresse de Maria com a figura do seu próprio pai é visível logo nos primeiros minutos de longa. Eles mal conversam, e quando o pai reaparece após um breve sumiço, ela sequer olha para o seu rosto. Tudo isso serve como uma espécie de prelúdio para o ato desesperado e irracional de Maria: abandoná-lo em uma praça da fria Montevidéu. Uma obra que transcende a ficção para mostrar o quão difícil é envelhecer.

Anina (Alfredo Soderguit, 2013)

Anina é um daqueles filmes escondidos na Netflix – se você não digitar o nome dele na barra de pesquisas, dificilmente ele vai aparecer no seu menu. Baseada no livro de Sergio López Suárez, essa animação do diretor Alfredo Soderguit é uma deliciosa história sobre a descoberta do mundo e de si mesmo pela óptica de Anina Yatay Salas (voz de Federica Lacaño), uma menina de dez anos que odeia o próprio nome e sobrenome (isso porque eles são palíndromos, ou seja, a mesma coisa lidos de trás para frente).

Certo dia, ao brigar no pátio da escola com uma colega, ela recebe uma punição inusitada: um envelope que ficará com ela, sem poder ser aberto até a próxima semana. Ansiosa para saber o que está ali dentro, Anina passa a ter as piores fantasias sobre o castigo que a espera. Nos próximos dias, ela passa por situações e sentimentos que acabam servindo como uma jornada de autodescoberta.

Representante do Uruguai na disputa por uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2014, Anina é de uma doçura única, despertando a nostalgia da infância, tempo de uma inocência que não volta mais. Com cenas tão belas como a do dia em que os pais da personagem se conhecem no cinema, essa animação tem potencial para agradar tanto adultos quanto crianças.

Rincón de Darwin (Diego Fernández Pujol, 2013)

Um dos mais fracos da lista, Rincón de Darwin é um road-movie sobre três pessoas completamente diferentes que se unem em uma viagem: Gastón (Jorge Temponi) é um jovem viciado em tecnologia que acaba abandonado pela namorada, a quem ainda ama; Américo (Carlos Frasca) é um escrivão ranzinza e impaciente cuja maior preocupação no momento é o casamento da filha; por último, temos o motorista Beto (Jorge Esmoris), que carrega um passado complicado. O motivo da viagem do grupo é acertar os detalhes burocráticos de um casa herdada por Gastón na região de Punta Gorda, que foi visitada por Charles Darwin em 1833, como parte de sua pesquisa para formular a famosa Teoria da Evolução. Devido a problemas mecânicos e conflitos entre os três, a ida ao local acaba sendo mais demorada do que o previsto.

À primeira vista, Rincón de Darwin pode parecer um filme vazio, quando, na verdade, ele mostra a necessidade de seguir em frente, de superar o passado, ou seja, de evoluir – não à toa, o diretor Diego Fernández Pujol traçou o paralelo com Darwin. Entretanto, o que mais fica na memória são as belas paisagens que servem de cenário para o longa.

Maracanã (Sebastián Bednarik e Andrés Varela, 2014)

O futebol é o esporte mais popular no Uruguai, sendo considerado uma paixão nacional. E um fato em especial é lembrado até hoje pelos uruguaios: a inesperada vitória sobre a seleção do Brasil, em pleno Maracanã, na final da Copa do Mundo de 1950, episódio conhecido como Maracanazo. Recuperando imagens e locuções da época, os diretores Sebastián Bednarik (o mesmo de Mundialito, que também aborda o mundo do futebol) e Andrés Varela recontam esse pedaço da História.

A variedade de depoimentos torna a obra rica: jogadores, técnicos, historiadores, sociológicos e jornalistas esportivos dos dois lados foram ouvidos. É por meio dessas declarações que se torna possível ter uma ideia da dimensão que o resultado da partida alcançou. Vindo de uma crise, a seleção uruguaia chegou desacreditada à Copa do Mundo frente a um Brasil que vinha de excelente campanha, jogava em casa e tinha a conquista do título considerada como certa pela população e pela imprensa. No entanto, no dia 16 de julho, diante de quase 200 mil torcedores, a euforia brasileira deu lugar à tristeza quando o jogo acabou em 2×1 para os uruguaios. Os jogadores da nossa seleção passaram de heróis a motivo de vergonha nacional – e alguns, como o goleiro Barbosa, carregaram o fardo da derrota até o túmulo.

Uma Noite Sem Lua (Germán Tejeira, 2014)

Solidão e melancolia se cruzam em três histórias ambientadas no interior do Uruguai, na véspera do Ano Novo. César (Marcel Keoroglian), um pai ausente, viaja para passar a virada com a filha e a família da ex-mulher. Acompanhado de seu coelho, o mágico Antonio (Roberto Suárez) é contratado para uma apresentação, mas fica preso na estrada após o pneu do carro furar. Esperando em vão pela chegada do guincho, conhece Laura (Elisa Gagliano), a funcionária do pedágio com quem terá uma noite de Ano Novo difícil de esquecer. Por fim, o músico Miguel Ángel (Daniel Melingo) sai temporariamente da cadeia e consegue uma oportunidade de voltar ao palco e recordar os tempos nos quais fazia sucesso.

Uma Noite Sem Lua é mais uma pérola escondida na Netflix que certamente vai encantar quem conhece a solidão e a tristeza de perto. Essa co-produção do Uruguai e da Argentina acerta em cheio ao abordar três histórias genuinamente humanas e mostrar, tendo como plano de fundo o Ano Novo, que o recomeço e a mudança são possíveis. Se o segmento do pai taxista e do músico presidiário não trazem grandes surpresas em seu andamento, o do mágico e da moça do pedágio certamente vai deixar o espectador com um gostinho de “quero mais” – a sensação de que a história dos dois personagens não acaba ali prova que um longa-metragem só para eles não seria má ideia.



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!