20
out
2017
Crítica: “A Ghost Story”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

A Ghost Story

David Lowery, 2017
Roteiro: David Lowery

4

Em sua primeira meia hora, A Ghost Story pode parecer simplesmente um filme vazio e autoindulgente, que esconde sua própria fragilidade embaixo de uma camada de subjetividade. Mas basta ter um pouco de paciência para encontrar uma história profundamente original e sensível, que fica com o espectador mesmo depois de seu fim.

A trama começa seguindo um jovem casal (Rooney Mara e Casey Aflleck) que são separados depois que um acidente de carro mata o rapaz. A partir daí, passamos a seguir seu fantasma, que retorna para a casa sem poder ser notado, passando a observar o cotidiano de sua esposa.

O terror é um gênero que por natureza implica em metáforas, e abre espaço para interpretações. Os zumbis podem ser encarados como seguidores de qualquer ideologia, o vampirismo pode assumir conotações sexuais, e os fantasmas constantemente são representações do subconsciente de algum personagem.

O que o diretor e roteirista David Lowery faz aqui é um exercício de gênero que busca subverter a visão “tradicional” de fantasma (ainda que utilize – talvez com uma dose de ironia – o visual mais “clássico” possível, literalmente um lençol com olhos), que o encara com uma visão dramática, usando o sobrenatural como metáfora sobre lembranças e nossas preocupações sobre nosso legado.

Embora encaixe muito bem convenções do gênero, como luzes piscando ameaçadoramente ou então livros sendo jogados da prateleira, o filme opta por uma visão bem mais melancólica do que seria esperado de um terror convencional. Assim, a fotografia utiliza uma razão de aspecto reduzida em 4:3 (ou 1,33:1), utilizando bordas arredondadas, além de dar a impressão de usar durante boa parte do tempo um “filtro vintage”, que não apenas reflete a melancolia dos personagens como também comenta tematicamente a discussão do filme sobre lembranças e passado.

Utilizando elipses temporais de forma elegante (gosto particularmente de um momento que traz a personagem de Rooney Mara saindo diversas vezes de casa para mostrar uma passagem de tempo grande), que também são coerentes com a percepção de tempo subjetiva do fantasma, o diretor também acerta na escalação de seus atores principais. Tanto Rooney Mara quanto Casey Affleck são atores interessantes e carismáticos, e que sempre demostraram muito talento para viverem personagens introspectivos, e é exatamente disso que o filme precisa.

Tendo pouquíssimos diálogos, longas sequências silenciosas, e planos que constantemente dão a impressão de se estenderem mais do que o esperado, A Ghost Story é um filme que exige paciência, principalmente em sua primeira metade. Mas para os que mantiverem o interesse e a esperança de encontrar algo novo, o filme oferece um exercício de gênero melancólico que funciona em vários níveis e propõe várias perguntas sem respostas fáceis.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael