08
out
2017
Crítica: “Aos Teus Olhos”
Categorias: Críticas, Festivais • Postado por: Pedro Bonavita

Aos Teus Olhos

Carolina Jabor, 2017
Roteiro: Lucas Paraizo e George Moura
Globo Filmes

3

*Esse texto faz parte da cobertura do Festival do Rio 2017*

É impressionante o poder que a arte, e mais especificamente o cinema tem em retratar o que acontece na atualidade, em uma espécie de “previsão” que nem mesmo os melhores videntes conseguem. Isso porque os longas levam um determinado período de tempo entre sua produção e seu lançamento, que para filmes nacionais que fogem do estilo comercial pode levar alguns bons anos, inclusive. Mas isso me leva a uma reflexão: será que a arte é realmente tão poderosa nesse sentido de prever ou será que a sociedade é que está cada vez mais previsível? Mesmo diante de toda previsibilidade do ser humano no mundo atual, é admirável ainda assim a facilidade que o cinema tem em dialogar com a atualidade, trazendo para as salas comerciais ou exibições em festivais obras cada vez mais factuais, que trazem à tona discussões que estão fervilhando naquela semana, naquele lugar, naquela sociedade. Mas pasmem(!): longa-metragens não são feitos de um dia para o outro. Eu juro.

Aos Teus Olhos, novo longa da diretora Carolina Jabor (Boa Sorte) e baseado no livro “O Princípio de Arquimedes” do escritor espanhol Josep Maria Miró, conta a história de Rubens (Daniel de Oliveira) um professor de natação infantil em um clube que é acusado por Alex (Luiz Felipe Mello), um de seus alunos, de lhe ter dado um beijo na boca no vestiário. A acusação toma proporções gigantes graças ao uso da internet pela mãe do menino (Stella Rabelo) que pode acabar com a carreira de Rubens.

É interessante perceber a maneira como o roteiro e a direção escolhem para apresentar seus protagonistas: logo no início do primeiro ato Alex nos é apresentado, já mostrando uma criança calada, introvertida, que a câmera faz questão de ficar colada em seu rosto, no seu olhar, e dar planos detalhes de sua mão, por exemplo, mostrando um certo nervosismo na criança que está indo mais um dia para o clube, dessa vez para um campeonato de natação. Ainda nessa mesma sequência o pai do menino vivido por Marco Ricca também aparece em cena, mostrando um certo distanciamento na relação que tem com o filho e se mostrando também um sujeito até certo modo irritadiço, principalmente ao bater de leve seu carro no de Rubens no estacionamento do clube e que precisa o tempo todo de uma auto-afirmação, principalmente para mostrar a Alex aqueles velhos conceitos do homem-heterossexual-machista de que não se pode perder, de que precisa ser superior aos outros, dominar o ambiente e bla bla bla. Ainda nessa sequência, a partir do pequeno incidente entre os automóveis, a personagem de Daniel de Oliveira também nos é apresentada, mostrando ser um cara mais tranquilo, extrovertido e que leva sua vida com uma leveza que acaba irritando um pouco os mais sisudos e o plano sequência dele entrando no clube e indo até o vestiário, enquanto cumprimenta a maioria das pessoas pelo caminho mostra isso.

É inevitável não fazer comparações com o filme dinamarquês A Caça, que tinha uma premissa muito parecida com a de Aos Teus Olhos, mas com um desenvolvimento narrativo e de roteiro completamente diferente, já que no longa nórdico, desde o começo da exibição sabemos que o professor é inocente e que a menina inventou aquela história pra chamar a atenção dele próprio. Carolina Jabor decide por não dar esse gostinho ao público e acaba levando essa tensão e esse suspense por 90 minutos. Dessa maneira, era necessário que o roteiro conseguisse construir as personagens com a mesma maestria que vimos na apresentação e isso acaba não ocorrendo. Com o transcorrer da película, o espectador começa a perceber que o texto vai criando uma certa barriga, para que toda aquela situação fica cada vez mais dúbia, porém, com a sensação de que saímos da página 2 em direção à 100, com o agravante de pararmos na 70. Ou seja, ao tempo em que o roteiro te faz acreditar que Rubens é culpado por conta do diálogo dele com seu colega repleto de machismo e piadas com cunho sexual usando alunas adolescentes como personagens; e por causa da primeira conversa dele com a diretora do clube (Malu Galli), onde ele parece extremamente desconfortável e nervoso com a situação, também podemos acreditar em sua inocência graças ao tempo de tela gasto para apresentar a família de Alex: uma mãe ressentida pelo divórcio com o marido, que cobra dele uma maior participação na criação do filho. Um pai que se cobra por estar em pouco contato com o filho, e que criado em uma sociedade machista acaba agindo como qual, por mais que em determinado momento nem ele acredite nas suas ações. E Alex, um filho que vivendo diante de uma disputa entre os pais, acaba sofrente pressão de todos os lados e principalmente após perder a competição de natação, acaba levando uma bronca de seu pai, o que pode ter desencadeado o fato de não querer mais voltar ao clube e ter inventado a história do assédio.

E, diante de uma construção de personagem que falha em determinado momento do roteiro, é elogiável a atuação dos protagonistas: Daniel de Oliveira se mostra cada vez mais um ator maduro e versátil, é o que mais se beneficia do roteiro, conseguindo trazer um olhar malicioso nos diálogos com seu colega, um olhar carinhoso e fraternal com seus alunos e um olhar revoltado diante da acusação, uma revolta que não explode e tampouco vira histérica, quase minimalista e que tem seu momento de desabado em choro comovente ao lado de sua namorada, com a câmera afastada em uma decisão acertada da diretora, isolando o casal da sociedade que o acusa. Marco Ricca não tem um personagem muito bem construído no sentido do texto, mas grande ator que é, consegue dar conta do recado, dando vida a um homem machista, mas que até certo ponto tem um censo de justiça que faz com que ele fique sem resposta para algumas questões e se pergunta, mesmo que internamente (e isso é notável graças ao grande trabalho de olhar do ator) se o filho é ou não culpado e é impressionante os tempos de reações de Ricca, que consegue ir da acusação pra dúvida em questão de segundos. Stella Rabelo interpreta uma mulher perdida, que quer chamar a atenção do ex-marido que a deixou e que acaba usando o filho para isso. Uma mãe extremamente preocupada com seu filho, com um zelo excessivo, uma superproteção que com certeza não fez bem para Alex. Mas, assim como acontece com Marco, seus tempos são perfeitos também, trazendo até um certo tom de humor, principalmente nas sequências em que ela conversa com pai e filho ao mesmo tempo, mostrando um carinho pelo filho e um desprezo pelo pai, mudando a expressão em um piscar de olhos. Já Luiz Felipe Mello não decepciona também, apesar de não entregar uma atuação excepcional e nem é instigado a isso, consegue trazer no olhar de seu personagem toda a pressão e insegurança que meninos passam aos 8 anos de idade.

Tecnicamente o filme não decepciona, contendo algumas escolhas bem interessantes: a fotografia de Azul Serra aposta em bons enquadramentos, principalmente aqueles planos mais abertos em que conseguem isolar Rubens nos seus momentos de desespero e o uso da câmera subaquática, não só pra ambientar o local, mas também pra causar certo desconforto no flashback que mostra o momento em que o professor leva o aluno para o vestiário onde teria ocorrido o assédio. Também causa desconforto a locação do clube e a direção de arte ali imposta, já que contando com paredes desgastadas, armários caindo aos pedaços nos vestiários e uma iluminação falha em determinado momento, não é de se espantar que a criança não queira mais voltar naquele local. E, sabendo utilizar muito bem de seus elementos técnicos, é interessante perceber como a diretora consegue usar o ambiente como elemento narrativo, como naquele momento em que temos em primeiro plano a cafeteira borbulhando com a água fervente, bem no momento que antecede a chegada da polícia no clube, e que a diretora do local decide se deitar um pouco, pra tentar esfriar a cabeça que ferve diante de tantas informações.

Dessa forma, o grande pecado de Aos Teus Olhos está realmente no roteiro, que é ambicioso ao tentar abranger um grande número de assuntos: homofobia; machismo; uso errado das redes sociais e os perigos que julgamentos precipitados podem causar com a velocidade da internet; divórcio e a disputa pelo filho; a não presença do pai em casa; pedofilia, etc., mas que acaba não conseguindo desenvolver muito bem seu plot central, não concluindo ele e tendo seu final tão abrupto que chegou a ser violento, ao menos pro espectador.

É uma pena. Aos Teus Olhos tinha potencial pra ser um filmaço. É bem dirigido, conta com atuações poderosas do elenco, é factual, consegue trazer para tela discussões pertinentes da nossa sociedade, mas que com seu final totalmente aberto peca, e muito, por não sair de cima do muro. Brochante.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.