11
out
2017
Crítica: “Doentes de Amor”
Categorias: Críticas, Festivais • Postado por: Pedro Bonavita

Doentes de Amor (The Big Sick)

Michael Showalter, 2017
Roteiro: Kumail Najiani e Emily Gordon
Califórnia Filmes

4

*Esse texto faz parte da cobertura do Festival do Rio 2017*

Filmes de gênero normalmente sofre com críticas negativas. Muitas das vezes as avaliações são feitas previamente em uma espécie de pré-conceito já estabelecido, que faz com que os críticos e também o público entre na sala de cinema ou ligue sua televisão/notebook, esperando o pior de um filme. Mais do que isso, muitas vezes o espectador espera, tendo certeza de sua convicção, algo do filme e ele acaba não entregando. O que pode gerar um certo desconforto, seja ele positiva ou negativamente. Fato é, que independente do gênero, do diretor (até Michael Bay), do elenco, etc., é interessante que sempre estejamos de mente e coração abertos para receber aquela obra. Contemplá-la com algum tipo de conceito pré-estabelecido destrói a experiência cinematográfica.

Doentes de Amor narra a história real de como o stand-up Kumail Najiani (Kumail) e a estudante de psicologia Emily Gordon (Zoe Kazan) entre o momento em que se conhecem em uma apresentação do comediante, passando pelo início do relacionamento, os problemas causados pela diferença cultural entre ambos, a doença de Emily, até finalmente o momento em que ficam juntos.

É interessante o fato do roteiro ter sido escrito justamente pelo casal que tem sua vida contada em tela. O fato de ser baseado em uma história real, aproxima o espectador da trama, tornando crível até os maiores clichês existentes no gênero. Porém, é importante salientar que nem só de clichês o roteiro é composto, pelo contrário. Apesar de existir ali e acolá, o que o espectador vê é um roteiro original, que traz não somente um humor afiado (e isso eu vou deixar para um próximo parágrafo), mas também uma história com camadas de drama muito bem definidas e com uma construção de personagens e narrativa de encher os olhos. Dessa maneira, gosto particularmente do fato do roteiro não cair na armadilha de se tornar um melodrama barato como costuma acontecer em longas baseados em histórias reais (como em Lion, por exemplo), principalmente porque mais da metade do filme temos a situação de Emily com uma grave doença. E durante esse período o roteiro consegue se equilibrar muito bem em uma corda bamba entre a comédia e o drama, sem despencar de vez para nenhum dos lados.

Comédia Romântica. C O M É D I A. Nessa palavra contém a maior qualidade de Doentes de Amor e a falta dela é o que normalmente prejudica tantos dos outros exemplares do gênero. O roteiro escrito por um comediante e baseado na sua própria história auxilia no bom tom de comédia presente em tela, isso porque Kumail consegue trazer um tom muito mais de stand-up, como se ele tivesse contando em um show coisas de seu cotidiano, do que aquele tom de esquetes pré-determinadas com piadas previsíveis. Com isso, o roteirista consegue deixar que o humor seja o fio condutor de sua história, conseguindo também não cair em piadas fabricadas, racistas e misóginas. Um exemplo disso se dá nas passagens que mostra sua família tentando arranjar um casamento pra ele, seguindo as tradições paquistanesas. As sequências são repletas de humor, com piadas afiadas, mas sem que elas estejam ali pra ofender os muçulmanos, pelo contrário, servem é claro como uma crítica ao que Kumail considera arcaico na sua cultura, mas ao mesmo tempo ele trata tudo aquilo com um respeito admirável.

Os elementos técnicos também estão ali em função da comédia. Costumo sempre valorizar quando se usa um elemento como forma de construção narrativa. E nesse sentido destaco a montagem, já que contendo rimas visuais muito bem construídas, muitas vezes o espectador acaba rindo por conta dela. Os cortes são precisos, deixando o time perfeito de humor, não somente nas sequências de diálogos puro e simples, mas também através do humor de situação, que faz com que a montagem seja ainda mais importante, como por exemplo, logo no começo do filme, durante a primeira transa do casal protagonista, onde logo que eles se agarram, o montador corta para o colega de quarto de Kumail sozinho na sala, mandando uma mensagem de texto para uma mulher, perguntando se ela ainda está acordada.

E por falar em Kumail Najiani, ele obviamente se destaca, e muito, nas cenas que exige humor, mas também não decepciona nos momentos mais dramáticos, já que por ser carismático (e obviamente contar sua própria história) o ator consegue ser orgânico nos momentos mais difíceis, como aqueles em que ele tentar descontrair a situação tensa que passa com os pais da namorada, ao tempo em que em seu olhar o espectador consegue ver toda a tristeza por ver a mulher que ama em coma. No geral o elenco todo está muito bem, e destaco principalmente Zoe Kazan, ótima humorista, mas que também se sai bem nas sequências mais dramáticas, sem cair no romance clichê e na figura da mulher desamparada, mostrando o tempo todo uma doçura em seu olhar, sem deixar de transparecer o lado forte de sua personagem. E é incrível a química existente entre o casal protagonista, sendo desde já um dos melhores (se não o melhor) casal do audiovisual em 2017. Elogiável também o trabalho de Anupam Kher, que dá vida ao pai de Kumail. Os diálogos entre os dois são sensacionais.

Trazendo ainda uma homenagem ao cinema, já que tanto os pais do paquistanês, como Kumail e Emily, assistiram filmes nos primeiros encontros, Doentes de Amor é uma comédia romântica que tem como seu maior trunfo a leveza com que consegue tratar temas mais densos sem tirar deles a importância que os tem. É uma aula de como levar a vida de uma maneira mais leve e colorida. Mais uma grande surpresa do cinema independente norte-americano.

 



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.