30
out
2017
Crítica: “Gosto se Discute”
Categorias: Críticas • Postado por: Rafael Hires

Gosto se Discute

André Pellenz, 2017
Roteiro: André Pellenz
Imagem Filmes

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O mundo da alta gastronomia já teve diversos tipos de abordagem não apenas na TV, mas em várias outras mídias. Nos últimos anos, uma das ondas que chamaram atenção foram os inúmeros reality shows de alta gastronomia competitiva. Até aqui, o programa Master Chef ganhou versão nacional e vem conquistando o publico.

Agora, pode ser que esse mundo tenha começado a invadir o cinema brasileiro, a começar pela comédia Gosto se Discute. Na trama, Augusto é dono de um restaurante de alta gastronomia bem quisto pelo “high society” paulistano, sendo point para celebridades como Mariana Ximenes, com direito a entrevista daqueles programas tipo Amaury Jr.

Alguns anos se passam, e Augusto se numa situação completamente oposta. Seu restaurante, antes querido pela nata paulistana, agora está jogado as traças, cujas visitas mais relevantes são ex-BBBs de segunda categoria. Augusto ainda tem de amargar o fato de que um restaurante food truck está fazendo muito mais público que ele. Como se já não fosse o bastante, ainda terá de lidar com uma contadora linha dura (Kéfera Buchmann) que o informa que o restaurante está passando por sérias dificuldades financeiras.

E para piorar, seu estado de saúde, principalmente agravado pelo estresse, pode acabar pondo o destino do restaurante em xeque.

A direção de arte é bem feita. O restaurante de Augusto é bem no estilo da maioria dos grandes restaurantes retratados nos milhares de reality shows existentes. Quando chega ao segundo ato, ele acaba passando por uma “readequação” (fruto de um cardápio novo feito, literalmente as pressas), mas acaba por poluir o cenário, onde se antes algo até falava com algo, acabou por fazer nada conversar com nada.

A montagem destaca e muito as cenas onde os pratos são feitos, com excessivos planos detalhes nos pratos, focando nos alimentos sendo colocados, molhos sendo despejados sobre a comida, adornos, etc. Algo típico quando se trata de alta gastronomia, onde a agilidade é (quase) sempre prioridade.

O roteiro até se esforça para (tentar) fazer algo inusitado, com a introdução do elemento dos orixás, ao fazer Augusto se inspirar num livro que havia lido para montar o novo cardápio, mas a explicação acaba por ser tão rasa e pífia que, dificilmente, irá convencer até mesmo, o mais distraído dos espectadores. O roteiro tenta fazer com que o chef e a contadora formem um par romântico, mas soa ridículo, absurdo e completamente despropositado, incluindo uma cena de sexo não explicito gratuito sem um único propósito narrativo.

Kéfera Buchmann faz uma contadora linha dura, que parece ter sido inspirada pela personagem de Meryl Streep em O Diabo Veste Prada, tratando cada um dos funcionários do restaurante na base da rédea curta, até, por vezes, portando uma arma de choque. Ela até instala micro câmeras e micro gravadores nas flores de plástico só para ouvir o que falam. Apesar de fazer sua personagem ser alguém, num primeiro momento alguém que amamos odiar, logo, se revela um personagem que só está na trama para virar alivio cômico.

Falando em alivio cômico, os integrantes do restaurante tentam ser um prato cheio, já que vivem soltando piadinhas uma atrás da outra, mas não conseguem fazer uma ser minimamente memorável. E o pior, dois dos integrantes acabam fazendo uma piada recorrente que não só é ridícula, como também não tem o menor motivo de estar ali.

Gosto se Discute tenta pegar carona nessa onda de programas de culinária que acabou por se tornar popular aqui no Brasil, mas produziu um prato nada criativo, pouco original, sem sal, açúcar, pimenta ou qualquer outro tipo de tempero. Era de esperar que, no mínimo, fosse levemente engraçado, visto que estreou no mesmo ano em que Bingo – O Rei das Manhãs, que consegue ser o crème de la crème e mostrar que é possível fazer comédia sem cair numa fórmula irritante e vazia de significado.



Fã alucinado da sétima, oitava e nona arte, decidi me aprofundar em seus conhecimentos ao entrar na faculdade. Faltando pouco menos de 1 ano para a formatura, espero sempre o melhor filme possível.