19
out
2017
Crítica: “Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe (The

Meyerowitz Stories)

Noah Baumbach, 2017
Roteiro: Noah Baumbach
Netflix

3.5

A carreira de Noah Baumbach pode ser dividida em duas categorias: a primeira com os filmes ótimos, com personagens complexos, senso de humor interessante, e melancolia subjacente (aqui se encaixam Frances Ha, Margot e o Casamento, A Lula e a Baleia…); já a segunda tem filmes também bastante competentes, mas menores, que se repetem e possuem um humor mais fraco (entram aqui O Solteirão, Mistress America, e agora este The Meyerowitz Stories).

O filme é basicamente um drama familiar: temos um pai (Dustin Hoffman) que passou por vários divórcios e tem filhos com diferentes esposas (vividos por Elizabeth Marvel, Adam Sandler e Ben Stiller). Seus filhos agora também têm filhos, e também passam por processos de separação, e têm que lidar com os sentimentos conflitantes em relação ao pai, que mistura afeto com ressentimentos.

A maior força do filme está na concepção de seus personagens. Todos são figuras complexas e com muito potencial dramático. Partindo do tema principal que é conflito de gerações, o roteiro fala da necessidade de ser diferente dos próprios pais, mas de repente se ver na mesma posição, além de ter que lidar com ressentimentos passados e relações familiares desagastadas, que ao mesmo tempo preservam o afeto “automático” que surge pelo próprio laço familiar, mas também trazem feridas surgidas por ações duvidosas.

Mas o problema da narrativa está na necessidade de Noah Baumbach de colocar sua “cara” no filme, apostando em um humor que mesmo com momentos eficientes, soa muito repetitivo. Utilizando muitas vezes longos diálogos que se estendem propositadamente para sugerir o próprio desconforto e falta de jeito dos personagens, o diretor também constantemente usa a montagem no ritmo dos diálogos, cortando cada vez mais rápido conforme as falas ficam mais curtas e ágeis.

Tentando também tirar humor do fato de vários diálogos serem cortados no meio para já começar a cena seguinte (uma ideia interessante que funciona nas primeiras vezes, mas inevitavelmente fica cansativa pela repetição), o roteiro também peca em alguns momentos mais expositivos, onde algum personagem verbaliza todas suas inseguranças abandonando a naturalidade do diálogo até então.

Há também alguns outros pequenos momentos mais mal resolvidos, como algum acontecimento que parece ganhar mais importância do que deveria, ou então no absurdo salto no eixo que Baumbach utiliza em uma cena passada em um restaurante de forma completamente aleatória, e que chama a atenção para si sem necessidade alguma.

Mas mesmo com suas falhas, The Meyerowitz Stories ainda é um bom filme pela complexidade de seus personagens. Sua execução pode ter seus defeitos, mas as qualidades de sua concepção são suficientes para lhe sustentar.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael