15
out
2017
Crítica: “Roda Gigante”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Roda Gigante (Wonder Wheel)

Woody Allen, 2017
Roteiro: Woody Allen
Imagem Filmes

3.5

Roda Gigante talvez seja o filme mais adulto dentre os recentes trabalhos de Woody Allen, e possivelmente também o mais pesado (embora, é claro, não abra mão do senso de humor).

A trama se passa na Nova York dos anos 50, em Coney Island, e começa quando uma jovem procura abrigo na casa do pai com quem estava brigada, ao mesmo tempo em que a esposa deste está tendo um caso com um homem mais jovem

O roteiro é puro Woody Allen, lembrando sua fase anos 80 (quando fazia filmes com Mia Farrow), e não possui o erro de perder muito tempo em subtramas. Sim, há algumas coisas mais mal resolvidas, como o filho do protagonista que gosta de provocar incêndios e ir ao cinema (com certeza inspirado do próprio diretor), mas nada que desvie muito a atenção da trama principal.

E é sempre muito bom ver Woody Allen mergulhar no mundo de uma mulher mais velha cheia de conflitos. Essa visão lhe rendeu seu melhor filme recente, Blue Jasmine, e também clássicos ao longo da carreira, como A Outra, Setembro, A Rosa Púrpura do Cairo e Simplesmente Alice.

Também é ótimo ver um diretor já tão experiente apostar em uma estética tão distinta e marcante. Dando prosseguimento à sua parceria com o diretor de fotografia Vittorio Storaro, Allen cria aqui uma Nova York exuberante e colorida sem negar sua melancolia.

E além da pura beleza plástica, é admirável também como a fotografia comenta sobre os próprios personagens. Reparem, por exemplo, no corte que vai de um encontro da protagonista com seu amante para uma cena passada em sua casa: enquanto a primeira é fotografada em cores quentes, a segunda é toda dessaturada e sem vida – e por virem logo uma depois da outra o contraste é gritante.

Gosto também do momento em que a protagonista e seu amante (vividos, respectivamente, por Kate Winslet e Justin Timberlake) estão embaixo de um píer no mar e conforme a conversa avança a iluminação vai mudando de tonalidade: a princípio a luz é calorosa, mas conforme algumas revelações vão acontecendo, a luz vai se apagando e tudo fica mais escuro. Estratégia parecida também pode ser observada na cena que traz Kate Winslet e Juno Temple conversando banhadas em luz azul, onde a iluminação vai progredindo para um alaranjado e voltando de acordo com o rumo da conversa.

Como de costume, as atuações são excelentes principalmente pela precisão da escalação dos atores. Enquanto Juno Temple vive com talento a mistura de arrependimento maduro e empolgação juvenil de sua personagem, Justin Timberlake surge como uma figura que justifica o interesse com que é visto por outras personagens. Já Kate Winslet protagoniza o filme com segurança admirável, não apenas como alguém com conflitos e inseguranças, mas também capaz de surpreender.

O roteiro decepciona um pouco em seu desfecho, que mesmo não podendo ser classificado como totalmente insatisfatório, e merecendo créditos por trazer um toque sombrio coerente, acaba soando um pouco como um anti-clímax e não faz jus aos seus personagens.

Com uma reconstrução de época fascinante e uma fotografia deslumbrante, Roda Gigante tem seus pontos fortes e fracos, mas é um filme eficiente que respeita seus personagens e mais uma vez prova a vivacidade de seu diretor.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael