27
out
2017
Crítica: “Thor: Ragnarok”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno
Thor: Ragnarok
Taika Waititi, 2017
Roteiro: Eric Pearson, Christopher Yost e Craig Kyle
Disney / Buena Vista

3.5

Alguns filmes causam empolgação pela originalidade e outros provocam sentimentos quase tão fortes quanto por sua baixa qualidade. E há também, é claro, aqueles filmes que por serem tão comuns e dentro da média (em todos os sentidos possíveis), acabam sendo esquecidos assim que o espectador sai da sala de cinema. E é nessa última categoria que entra Thor: Ragnarok.

É óbvio que quando digo “espectador” não me refiro àqueles que assistem aos filmes de super-heróis já motivados por paixões vindas dos quadrinhos ou qualquer outra coisa “extra-filme” (não que esse público não também não seja “espectador”, que fique claro!). Me refiro aqui a quem vai ao cinema somente pelo filme em si. Não me importa a guerra de “Marvel x DC”, não me importam os quadrinhos, não me importa o que está sendo produzido para os próximos filmes, o que me importa é o que este filme tem a oferecer por si próprio, mesmo que seja uma continuação e por conta disso dependa de elementos já apresentados anteriormente.

Enfim, onde eu quero chegar com tudo isso é que este novo Thor é um bom filme. É difícil dizer o contrário. Trata-se de um filme competente, que diverte, cumpre seu papel, e sou capaz de apostar que tem tudo para agradar a grande maioria do público (e, se for pra se basear em um dualismo redutivo de “bom” ou “ruim”, também grande parte da crítica).

Mas da mesma forma com que é um filme competente no que se propõe (e isso é sempre o principal a ser avaliado), é feito com tamanha mentalidade industrial que apenas a duração dos créditos finais já foi suficiente para me fazer esquecer e me desinteressar totalmente pela história contada nas últimas duas horas.

Até porque como trama este é mais uma vez um filme convencional ao extremo: uma vilã megalomaníaca aparece em momento conveniente, e o herói tem que unir forças e enfrentar suas próprias limitações para salvar seu povo.

Não que uma premissa convencional não possa resultar em um filme original (até porque fui extremamente redutivo no resumo acima), mas é só que nem o próprio filme está interessado em sua história. O que ele quer e precisa fazer é dar continuidade ao seu universo expandido de super-heróis. Arrumar uma desculpa para continuações.

E por falar em universo expandido, é uma pena que a necessidade de se encaixar nos outros filmes leve o roteiro a divagações tão gratuitas (ainda que breves), como na dispensável cena envolvendo o Doutor Estranho, que parece ter uma importância muito maior do que realmente tem por envolver um personagem “importante” – o que, aliás, me fez lembrar que não se passou nem um ano e eu já não lembro nada desse filme.

Mas voltando para o Thor, gosto muito de como a narrativa ganha força ao finalmente chegar ao ambiente em que se passa grande parte da história: com um design de produção cheio de cores e um “cafonismo” divertido que combina com uma trama que envolve heróis de capa e um gigante verde, o filme também merece créditos por conseguir uma ótima regularidade em seus alívios cômicos. Não há momentos dignos de gargalhadas, mas pouquíssimas piadas não funcionam. E se o diretor Taika Waititi não aproveita muito o grande potencial estético que tem em mão, e abusa de planos fechados nas sequências de ação, ao menos compensa um pouco essa falta de criatividade com um uso divertido da música “Immigrant Song” em dois dos melhores momentos da projeção.

Já o elenco também pode ser citado como uma das coisas que o filme tem de melhor. Cate Blanchett embarca na vilania exagerada de sua personagem e faz o espectador lamentar que não tenha mais tempo de tela, e Chris Hemsworth mais uma vez demostra um grande talento para o humor. Já Mark Ruffalo e Tom Hiddleston são sempre atores interessantes, mesmo fazendo o que já fizeram várias outras vezes, e Jeff Goldblum talvez seja a melhor escalação para um papel de todos os filmes da Marvel.

Sempre digo que é importante avaliar um filme pelo que ele se propõe a fazer. Nesse sentido, Thor: Ragnarok é um trabalho competente e divertido. É um bom filme, sem dúvidas. Tem boas piadas, sequências de ação relativamente interessantes, e se encaixa em seu universo expandido. Mas o fato de cumprir tão bem seu papel não o terna menos comum e esquecível.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael