08
out
2017
Festival do Rio 2017 #1
Categorias: Festivais • Postado por: João Vitor Moreno

As Boas Maneiras, de Marco Dutra e Juliana Rojas

A dupla de diretores responsáveis pelo ótimo Trabalhar Cansa (2011) volta a trabalhar junta em um filme que se diferencia por flertar com diversos gêneros e desafiar as expectativas do espectador.

A grosso modo, a trama acompanha uma empregada doméstica que é contratada para cuidar de uma mulher que está grávida de um lobisomem.

Fazendo seu comentário social mais através de sutilezas do que de momentos catárticos, o filme também consegue criar um humor peculiar e significativo, como na rima visual que traz a patroa tirando uma foto com sua empregada em poses que remetem diretamente a outras fotos que ela havia tirando com seu cavalo de estimação.

Há também um cuidado estético que se demostra eficaz tanto para criar sutis e elegantes raccords (como quando uma personagem cospe algo na pia e ao se levantar já está em outro momento e ambiente) quanto para brincar com gêneros (gosto particularmente de um corte que vai de uma personagem ensanguentada para essa mesma personagem dançando).

E é justamente aí que o filme se torna tão interessante: ao se mostrar um exercício de gênero, ou melhor dizendo, de gêneros.

Passando de momentos surpreendentemente eficazes de terror para outros igualmente inspirados de comédia, sempre mantendo uma coesão que se reflete tanto na já comentada fluidez estética quanto na precisão temática (reparem nas diferentes significações do título ao longo de toda a trama), o filme consegue até encaixar momentos que brincam com o musical de forma bastante orgânica.

Há alguns momentos onde a suspensão da descrença pode ser um pouco demais, como em um acontecimento importante no principal ponto de virada do roteiro, que obviamente traria implicações para a vida das personagens mas que não são nem comentadas, ou em alguns momentos em que alguns personagens agem de forma um tanto quanto duvidosa em prol da pura brincadeira cinematográfica, mas que acabam mais sendo momentos deslocados do que prejudiciais.

Tendo também um surpreendente trabalho de efeitos visuais, que se mostra ainda mais eficaz em momentos menores (estou me referindo principalmente à uma cena que evolve um bebê), As Boas Maneiras é um filme que tem um propósito temático e que brinca com gêneros de forma coesa. E até mesmo sua longa duração acaba funcionando como um interessante jogo para ver até onde a trama vai chegar – e sua capacidade de brincar com expectativas e surpreender é o que o torna tão interessante.

Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name), de Luca Guadagnino

A trama de Me Chame Pelo seu Nome (um jovem que se apaixona por um hóspede de sua casa) poderia dar origem a uma bobagem convencional, que usaria a homossexualidade apenas para promover uma história já contada tantas vezes, mas também poderia ter possibilitado um estudo de personagem interessante e comovente.

Felizmente, é na segunda categoria que ele se encaixa.

Este é um filme sobre sexualidade. Curiosamente, não é um filme com muitas cenas de sexo. Não que elas não existam, mas são relativamente poucas e bem menos gráficas do que a maioria dos diretores optariam. Porém, isso não o impede de ter um erotismo subjacente durante toda sua projeção.

Ao contar uma história sobre amadurecimento e despertar sexual, o diretor Luca Guadagnino cria uma narrativa delicada e que estabelece um envolvimento emocional de forma gradual, conseguindo então emocionar não por grandes momentos trágicos, mas, ao contrário, justamente por ser tão contido.

O filme conta também com performances fantásticas de todo seu elenco. Enquanto o jovem Timothée Chalamet vive o protagonista longe do clichê de garoto inseguro, conseguindo equilibrar muito bem suas inseguranças com suas tentativas de demostrar uma maturidade que ainda não conhece, Armie Hammer é uma figura apropriadamente imponente e que não precisa de momentos expositivos para demostrar sua própria fragilidade. Já Michael Stuhlbarg demostra uma faceta até então desconhecida de sua capacidade, e tem a oportunidade de protagonizar um monólogo que talvez seja o momento mais tocante do longa (e a força e sutileza de sua interpretação nessa cena são mais do que suficientes para lhe garantir uma indicação ao Oscar).

Aproveitando bem suas belíssimas locações no interior da Itália, que praticamente clamam por uma ambientação de época (o filme se passa nos anos 80), e tendo também uma perfeita trilha sonora, que vai desde piano erudito até rock n’ roll, Me Chame Pelo seu Nome é um belíssimo filme, que justifica seu título de forma interessante e comove por seus complexos personagens.

Detroit em Rebelião, de Kathryn Bigelow

Particularmente, me considero um espectador forte. Não costumo me incomodar no cinema mesmo com cenas de violência mais gráfica ou tortura. Porém, este Detroit em Rebelião, novo trabalho da diretora Kathryn Bigelow, foi um dos casos que eu tive que me render como espectador e torcer para o filme acabar logo não por sua baixa qualidade mas, ao contrário, por sua eficiência.

O filme acompanha os eventos que ocorreram em Detroit em 1967, onde uma operação policial não autorizada deu origem a uma série de protestos violentos, que criaram uma verdadeira zona de guerra na cidade. Mais especificamente, se foca no incidente que ocorreu no Algiers Motel, onde um grupo de policiais torturou física e psicologicamente um grupo de jovens negros, resultando em mortes e depois absolvição para os policiais.

Talvez o mais impressionante no trabalho de Kathryn Bigelow seja evitar o puro maniqueísmo, sem que com isso tenha que “humanizar em excesso” os agressores. E sua já conhecida capacidade de criar tensão e desconforto atingem aqui um novo nível.

Mesmo ao manter a câmera quase sempre em movimento constante, como que sem saber o que vai acontecer em seguida, a diretora consegue evitar com que a mise-en-scène fique muito confusa, com uma montagem muito dinâmica que estabelece os elemento e geografia das cenas sem que com isso precise perder ritmo. E a longa sequência que se passa no motel e acompanha as torturas praticadas pelos policiais merece crédito especial pela coreografia perfeita mesmo em um espaço reduzidíssimo.

O trabalho de som também merece destaque por conseguir incomodar mesmo sem utilizar elementos mais óbvios de trilha sonora e por fazer com que os sons de tiros disparados pelos policiais se destaquem e se diferenciem tanto em meio a todos outros ruídos, acentuando assim o peso daquela ação para os personagens.

Utilizando violência gráfica de forma chocante e às vezes até inesperada, mas sem nunca poder ser acusado de estilização desnecessária, Detroit em Rebelião pode até não ter grandes arcos dramáticos em seus personagens, mas é uma experiência intensa e muitíssimo competente em sua proposta. No fim, incomoda, revolta e frustra, mas paradoxalmente, por sua qualidade técnica, também agrada.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael