09
out
2017
Festival do Rio 2017 #2
Categorias: Críticas, Festivais • Postado por: João Vitor Moreno

The Florida Project, de Sean Baker

Há na pequena obra de Sean Baker uma preocupação constante com os excluídos e marginalizados, assim como um enorme carinho com seus personagens. Seus filmes mostram o lado obscuro do “American Dream”, mas longe de moralismos, está mais preocupado em encontrar humanidade no dia a dia difícil de quem se submete a humilhações em prol de um sistema falho: a relação quase maternal entre uma atriz pornô e uma senhora de idade é o ponto central de Uma Estranha Amizade, enquanto os pequenos gestos de afeto entre duas amigas transexuais que ganham a vida como prostitutas são o grande diferencial de Tangerina.

E em The Florida Project ele segue a mesma linha e realiza seu melhor filme até aqui. O foco agora é na infância, uma menina de uns 7 anos que vive com a jovem mãe em quartos minúsculos em um condomínio nos subúrbios de Orlando.

A ambientação não poderia ser mais significativa: a trama se passa toda quase que literalmente à sombra da Disney, um mundo de sonhos que não pode ser compartilhado pela jovem protagonista.

O filme encontra uma inocência infantil delicada, que cria um contraste dolorido com as dificuldades dos adultos daquele mundo. O visual é colorido, mas melancólico: o roxo berrante do prédio onde vivem os personagens é o oposto da vida destes, e as placas vistas ao longo do filme não deixam de ter sua ironia trágica (“continue no futuro”, diz uma, enquanto outra indica um local chamado “Sete Anões”).

E é nessa ambiguidade entre inocência infantil e fatalismo generalizado que o filme encontra sua força, conseguindo emocionar puramente pela humanidade e carinho com que trata seus personagens, permitindo também momentos quase catárticos, que deixam clara sua visão crítica ao consumismo e ao “American Way”, como na sequência que traz algumas crianças se divertindo destruindo uma casa abandonada, ou na cena final (que, obviamente, não darei detalhes) onde, assim como nos filmes anteriores de Sean Baker, ele encontra uma força dramática enorme e possibilita algo à sua protagonista que nos deixa em um misto de alegria e melancolia.

Contando ainda com uma performance absolutamente fantástica da jovem Brooklynn Prince (de apenas 7 anos!), o filme também encontra momentos de humor muito competentes e diverte com a mesma competência com que emociona.

A Câmera de Claire, de Hong Sang-soo

Particularmente, devo admitir que não sou um admirador do diretor Hong Sang-soo, que para mim faz um cinema auto indulgente, vazio e repetitivo. É um dos raros casos de cineasta que sempre é possível saber o que esperar de seus novos trabalhos, assim como é fácil prever que quem gosta de algum de seus filmes provavelmente gostará de todos e vice-versa.

Curiosamente, este A Câmera de Claire, por ser um pouquinho mais descompromissado do que seus últimos filmes, acaba até por agradar levemente quem normalmente não gosta de sua obra.

É um filme redondinho, com uma trama simples, mas que possui alguns momentos de humor interessantes, seja por constrangimento ou por pura brincadeira narrativa.

Os longos diálogos não têm muito a dizer mas o carisma de atrizes como Isabelle Huppert e Kim Min-hee são suficientes para prender a atenção.

Alguns vícios do diretor, como o excesso de zoons manuais, em alguns momentos encontram justificativa, como quando ele aproxima a câmera a partir do momentos em que dois personagens passam a sentar juntos; já em outros ele usa esses artifícios de forma quase aleatória só porque é o esperado de um filme seu.

Tendo também sua dose de metalinguagem, que quem já conhece seu trabalho está familiarizado, A Câmera de Claire é um filme de Hong San-soo levemente diferente dos outros, talvez seja o mais diferente que consiga chegar, e isso é o suficiente para torná-lo levemente mais interessante.

 

A Guerra dos Sexos, de Jonathan Dayton e Valerie Faris

Se o roteiro de A Guerra dos Sexos fosse um história ficcional, eu diria que é um pouco “certinho” demais, mas como é baseado em história real, acaba sendo um “fell good movie” bastante divertido.

O filme conta a história real da partida de tênis entre o ex-campeão Bobby Riggs e a líder da classificação mundial Billie Jean King, que trouxe à tona o debate de igualdade de gêneros no início dos anos 70.

O filme é divertido, tem atores carismáticos, uma reconstrução de época nostálgica com fortes luzes brancas e cores vivas, e alguns diálogos inspirados (como aquele onde dois personagens dizem “see you around” e dão uma volta em círculo para direções opostas e já voltam a se reencontrar).

Há também um interessante comentário sobre discriminação de gênero, principalmente ao ilustrar como chega a ser ofensivo a insistência masculina de ter sempre que “elogiar” a beleza física das mulheres.

As sequências de partidas de tênis são enxutas e claras mesmo para quem não gosta do esporte, e o filme diverte sem cair em moralismos ou momentos muito expositivos. No geral, não é uma obra-prima mas diverte na medida certa.

Zama, de Lucrecia Martel

Lucrecia Martel faz um dos cinemas mais peculiares da américa latina e talvez até do mundo. Não que tenha uma linguagem revolucionária ou algo do tipo, mas seus filmes têm algo de particular que os tornam joias raras para os cinéfilos.

Seu novo Zama, uma coprodução Argentina e Brasil, é um filme lento, talvez até mais lento do que o necessário, mas é um estudo de personagem cuidadoso e bastante rico.

A reconstrução de época está mais para suja do que glamorosa (como os personagens e seus universos), mas também há imagens belíssimas principalmente quando a fotografia joga com contraste de cores saturadas.

A pouca trilha instrumental acentua o ritmo vagaroso (nesse caso, uma pena, pois as sequências com música estão entre seus melhores momentos) e o filme se conduz em um mundo sujo e complexo.

É uma experiência difícil e nada agradável, mas é um bom filme, que mais do que tudo está preocupado com o desenvolvimento psicológico de seu protagonista. O mais importante aqui é o não dito, o que os personagens pensam mais do que falam ou agem, e desvendá-los é seu desafio.



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.