10
out
2017
Festival do Rio 2017 #3
Categorias: Festivais • Postado por: João Vitor Moreno

Corpo e Alma, de Ildikó Enyedi

Vencedor do Urso de Ouro no último Festival de Berlim, o húngaro Corpo e Alma tem um humor particular, personagens interessantes e uma surpreendente sensibilidade.

A trama acompanha dois personagens que trabalham em um matadouro: um homem que tem um braço paralisado e uma mulher metódica com dificuldades de se relacionar com qualquer pessoa. Um dia eles descobrem por acaso que estão tendo o mesmo sonho todas as noites, onde ambos são cervos em uma floresta, e um estranho relacionamento começa a se desenvolver entre eles.

A diretora Ildikó Enyedi consegue, ao constantemente enquadrar os personagens atrás de batentes de portas ou outros tipos de obstáculos, criar um senso de deslocamento e desconforto que refletem a natureza introspectiva de seus protagonistas.

Lembrando um pouco do estilo de cinema do grego Yorgos Lanthimos ao extrair humor de situações absurdas que às vezes envolve até violência, o filme ainda diverte pelo humor mais sutil, como no paralelo entre os animais dos sonhos dos personagens e aqueles abatidos no matadouro onde trabalham.

Encontrando um surpreendentemente eficiente impacto dramático em seu terceiro ato, onde vemos que nutrimos sentimentos por personagens que tentam sempre não esboça-los, Corpo e Alma é uma experiência atípica, um romance por definição, e que encontra um equilíbrio perfeito entre humor e desconforto.

Bom Comportamento, de Ben e Josh Safdie

A intensidade dos primeiros quinze minutos de Bom Comportamento já seria o suficiente para torná-lo interessante, e mesmo que o filme tenha problemas, no fim acaba sendo no mínimo um exercício de energia curioso.

O roteiro segue um personagem que depois de um assalto a banco frustrado tenta libertar seu irmão deficiente mental da prisão.

Esteticamente o filme é ao mesmo tempo moderno e vintage: enquanto a textura da imagem é irregular e lembra película, as cores vivas de neon esbanjam vivacidade e energia.

Com um ótimo trabalho de som, o filme não teme em já começar com barulhos ensurdecedores que jogam o espectador de cabeça dentro daquele universo sujo e desesperado.

Os diretores optam quase sempre por planos fechados e câmera da mão, criando um clima claustrofóbico e de urgência. E por mais que o roteiro dependa um pouco demais de uma coincidência absurda em seu desenvolvimento, e nunca chegue a ser o estudo de personagem tão profundo que almeja, isso não o impede de alcançar um impacto dramático em seu desfecho.

Tendo também uma ótima performance central de Robert Pattinson, que repete a intensidade de papeis como aquele que viveu no filme The Rover, Bom Comportamento é um filme intenso, que vale por seu universo sujo e, principalmente, pela energia com que se entrega a este.

Aos Teus Olhos, de Carolina Jabor

Os temas de Aos Teus Olhos são essencialmente “importantes” e “modernos” (poder das redes sociais, irracionalidade coletiva, homofobia, etc.), mas o que o torna um filme tão bom não são apenas seus temas, mas a competência com que conduz sua narrativa.

A história é a de um professor de natação que é acusado de ter beijado um de seus alunos no vestiário, e depois de o boato se espalhar pela internet sua vida vai sendo destruída.

O que mais torna o filme interessante é a intensidade da direção de Carolina Jabor, que mesmo não sendo muito sutil, embarca no tumulto interno dos personagens com muita câmera na mão e em movimento, mas sabendo também usar momentos mais “estáticos” para não ficar muito repetitivo.

O trabalho de som também é fantástico (se houvesse uma categoria de “melhor som” no festival, este com certeza seria o vencedor). Refletindo muitas vezes o estado psicológico dos personagens sem apelar para grandes clichês (como o coração batendo forte), o filme também acerta na trilha instrumental ao apostar na economia.

O roteiro por ser muito ambicioso tem um ou outro deslize. Tenho alguns problemas com o personagem vivido por Marco Ricca, que apesar de ser uma figura bem pensada e que funciona na trama, é o que mais se aproxima de um clichê. Mas não há como não admirar a competência com que o texto desenvolve várias figuras complexas ao mesmo tempo e com a mesma eficiência. E ao chegar em seu desfecho, o filme deixa o espectador em contradição: por um lado, sua inconclusividade reflete a impossibilidade de se resolver problemas que não têm fim, por outro, não deixa de ser um pouco decepcionante do ponto de vista puramente dramático.

Tendo sua importância temática, mas acima de tudo sendo um filme que vale por sua competência narrativa, Aos Teus Olhos é mais um ótimo filme brasileiro que tem uma linguagem própria, desenvolve seus temas com cuidado e tem empatia com seus personagens.

*Não deixe de conferir também a crítica de Pedro Bonavita sobre o filme que pode ser lida aqui



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael