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out
2017
Festival do Rio 2017 #4
Categorias: Críticas, Festivais • Postado por: João Vitor Moreno

Verão 1993, de Carla Simon Pipó

Candidato da Espanha ao Oscar de filme estrangeiro, Verão 1993 é doce sem ser meloso e emociona mais pela simplicidade do que por grandes momentos dramáticos.

A trama acompanha uma jovem garotinha adotada por uma família depois da morte de sua mãe.

O filme adota uma visão inocente infantil e não mastiga demais para o espectador suas informações.

Mantendo constantemente a câmera da mão acompanhando os personagens quase como se tudo fosse feito no improviso, a diretora Carla Simon Pipó cria uma narrativa humana que abraça a inocência de sua protagonista sem cair em ingenuidades ou no melodrama (gosto particularmente do momento em que a garotinha ao querer saber sobre a morte da mãe pergunta se ela “sangrou muito”).

Chegando a um desfecho bastante singelo e condizente com o que havia sido feito até então, Verão 1993 tem a doçura infantil de sua protagonista como ponto forte e conquista pela sutileza.

Crown Heights, de Matt Ruskin

A história de Crown Heights merecia ser contada, disso não há dúvida. Mas é uma pena que tenha sido contada de uma forma tão convencional.

O filme conta a história real de um jovem negro que passou mais de 20 anos na cadeia por um crime que não cometeu enquanto seu irmão tentava provar sua inocência.

Há uma força enorme nessa história, e não tem como dizer que o filme não tem seu impacto, mas este se deve mais os fatos reais do que por méritos cinematográficos propriamente ditos.

A direção de Matt Ruskin (este é apenas seu segundo filme) é convencional e não incomoda nem impressiona. Há alguns momentos mais inspirados como quando um gesto da mão de um personagem leva a um flashback ligado por um movimento similar (em um artifício de montagem que remete ao clássico Hiroshima, meu Amor), mas são exceções e não a regra.

A atuação central de Keith Stanfield merece destaque principalmente por não utilizar seu carregado sotaque como algo para sugerir vulnerabilidade (erro tão comum em filmes americanos).

Com uma bela fotografia que joga bem com o forte contraste entre luz e sombras, o filme também utiliza imagens de arquivo de discursos políticos de forma um tanto quanto expositiva e simplista, mas também eficiente.

Conseguindo seu impacto mais através de sua história real do que por méritos próprios, Crown Heights tem seu valor mesmo que não seja particularmente original.

Terra Selvagem, de Taylor Sheridan

Roteirista dos fantásticos Sicário e A Qualquer Custo, Taylor Sheridan consegue agora com Terra Selvagem se mostrar também um diretor muito promissor.

Utilizando mais uma vez uma interessante mistura de drama, ação, suspense e comentário social, o foco de Sheridan agora não é mais nos carteis e no falho combate às drogas, ou então na ganância selvagem dos bancos, e sim um problema tão grave tanto esses outros: o descaso com os nativos-americanos.

Passado quase todo em uma reserva indígena, o filme acompanha um caçador que perdeu a filha recentemente e passou por um divórcio, e se vê envolvido em uma investigação sobre o assassinato de uma jovem indígena, percebendo na situação uma forma de se vingar da morte da própria filha.

Se equilibrando muito bem entre o suspense, o drama e a ação, e deixando seu comentário social surgir mais como consequência, o filme também impressiona pela riqueza de seus personagens, não temendo em apostar em um protagonista imperfeito.

A trama de investigação é simples e não encontra quase nenhum obstáculo. O que importa aqui são muito mais as motivações dos personagens do que os fatos em si.

Demostrando um talento para a direção que faz jus ao seu já conhecido potencial como roteirista, Taylor Sheridan cria momentos de tensão com a mesma eficiência com que encontra momentos mais intimistas (a cena em que o protagonista desabafa sobre a morte da filha é um dos momentos mais fortes do filme). Além disso, Sheridan consegue também criar transições elegantes e discretas como aquela que corta de um golpe para um chute na porta, ou no momento em que uma batida da porta serve de entrada e saída para uma intensa sequência de flashback.

Mesmo ficando expositivo demais em seu letreiro final, Terra Selvagem tem uma trama simples, mas ótimos personagens e um excelente roteiro, apresentando um promissor diretor.

Rastros, de Agnieszka Holland

A mensagem por trás de Rastros é ao mesmo tempo infantil e macabra. Por um lado, faz um discurso de sustentabilidade e proteção da natureza, por outro, abraça a violência como melhor arma para essa luta.

A história se passa em uma cidadezinha no interior da Polônia onde alguns caçadores começam a morrer misteriosamente e urge a suspeita de que pode ser a natureza se vingando.

O filme tem suas ideias e momentos interessantes. Ao brincar com o paralelo entre o ser humano e os animais, a diretora Agnieszka Holland concebe ideias inspiradas, como no raccord que corta de duas pessoas se acariciando para dois besouros em posições similares, ou então na sequência em que vemos várias crianças com máscaras de animais ao longo de um caminho (em uma imagem com toque macabro que me remeteu ao clássico O Homem de Palha).

Porém, falta ao filme ritmo, estrutura, e foco. Seu ritmo lento e sua alternância entre momentos bastante distintos sem justificativa acabam criando uma narrativa por vezes aborrecida.

Mesmo com alguns ótimos momentos, falta a Rastros uma estrutura mais bem definida e mais objetividade ao tratar seus temas. E por mais que atinja um desfecho satisfatório, não anula o tédio das duas horas anteriores.



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.