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out
2017
Festival do Rio 2017 #5
Categorias: Críticas, Festivais • Postado por: João Vitor Moreno

120 Batimentos por Minuto, de Robin Campillo

120 Batimentos por Minuto se passa na França dos anos 90 e conta a história real do grupo ativista Act Up, que lutava para espalhar a importância da prevenção à aids e pressionava órgão governamentais para investir em pesquisas de tratamentos.

O diretor Robin Campillo (roteirista do vencedor da Palma de Ouro há alguns anos, Entre os Muros da Escola) opta por uma abordagem quase documental, com os personagens muitas vezes falando juntos, a câmera sempre se movendo e cortes rápidos e fluidos que acompanham o calor dos momentos que retrata.

Com uma montagem dinâmica que cria elipses sempre muito eficientes, o filme também não abusa de uma melancolia forçada e exclusivamente pessimista, também demostrando respeito com seus personagens e os permitindo momentos mais leves e descontraídos.

Investindo mais nas ações do grupo como um todo do que focando exclusivamente em um personagem (embora tenha seu protagonista e seu arco dramático principal), 120 Batimentos por Minuto prende a atenção por seu dinamismo e emociona pela sensibilidade e força de sua história real.

Thelma, de Joachim Trier

Elementos sobrenaturais de filmes de terror sempre possibilitam diversas interpretações metafóricas, e Thelma, novo filme do ótimo diretor Joachim Trier (Oslo, 31 de Agosto e Mais Forte que Bombas), entende isso e é um filme que funciona tanto como exercício de gênero como estudo de personagem.

O roteiro segue a personagem título, criada em uma família cristã fundamentalista e que está em seu primeiro ano de faculdade, quando ela começa a observar acontecimentos estranhos provocados por seus ataques epiléticos.

O que Joachim Trier faz aqui é usar os elementos paranormais da trama como metáfora da opressão religiosa sofrida pela personagem. Assim, o filme se entrega ao sobrenatural justamente quando ela passa a se interessar sexualmente por uma amiga da faculdade, despertando seus “valores morais” e também um “poder misterioso”.

Não que o filme seja exclusivamente sobrenatural, pois as sequências de “fantasia” são relativamente poucas e durante boa parte de seu tempo o roteiro está mais preocupado com as relações humanas mais cotidianas: seu relacionamento frio com os pais, um trauma fortíssimo do passado, suas discretas amizades na faculdade, etc.

Entretendo pelo seu exercício de gênero, mas agradando também pela qualidade de seu roteiro, Thelma é um filme redondinho, gostoso de assistir (mesmo tendo momentos mais pesados) e é mais um acerto na ótima carreira de seu diretor.

Gabriel e a Montanha, de Fellipe Barbosa

Depois do fantástico Casa Grande, Fellipe Barbosa se estabelece de vez como um dos principais nomes na nova geração de cineastas brasileiros com este belíssimo Gabriel e a Montanha.

O filme conta a história real de um jovem economista que passou um ano viajando pela África e faltando pouco tempo para seu retorno morreu após escalar uma montanha sem equipamento ou acompanhamento.

Há no filme uma fluidez que acompanha o personagem principal sem estilização forçada ou momentos mais expositivos de roteiro, fazendo o espectador esquecer que o que está vendo é um filme.

A dinâmica entre o protagonista e sua namorada (vividos, respectivamente, por João Pedro Zappa e Caroline Abras) é impressionante e em nenhum momento parece um texto ensaiado (gosto principalmente de uma cena que traz os dois conversando em um ônibus, filmado todo um único plano, onde a discussão é completamente natural e eles se comunicam de uma forma que sugere tanto uma irreverência inerente entre eles quanto amor e também um pouco de ressentimento escondido).

Também explorando muito bem seu elenco formado muitas vezes por não atores que interpretam eles próprios, e tendo um ótimo trabalho de som que usa música mais como atmosfera do que para comentar sentimentos óbvios, Gabriel e a Montanha é um filme tão humano e honesto que nem sequer parece um filme. E isso, por incrível que pareça, é um grande elogio.

Em Pedaços, de Fatih Akin

Em Pedaços conta a história de uma mulher que tem que lidar com a morte do marido e do filho por um ataque de nazistas na Alemanha contemporânea.

O roteiro tem uma estrutura de três atos, cada um com um título, e cada um com uma proposta.  O primeiro retrata o ataque que matou a família da protagonista, o segundo segue o julgamento dos responsáveis, e o terceiro se passa depois desse julgamento (não darei detalhes para evitar possíveis spoilers).

O filme poderia ser (e, tangencialmente, não deixa de ser) tanto um estudo sobre o ódio na sociedade contemporânea quanto um exercício de gênero, mas o que é seu principal foco e o que o torna tão coerente ao longo de seus três atos distintos é o cuidado e atenção dedicados ao psicológico de sua protagonista.

E para isso a atuação de Diane Kruger (que venceu o prêmio de melhor atriz em Cannes pelo papel) se mostra de fundamental importância. O que mais importa para o filme são os efeitos que a tragédia tem sobre ela e sua reação a isso, buscando na dor física um escape da dor psicológica.

Mesmo apelando para um didatismo fraco em seu letreiro final, Em Pedaços oferece uma experiência intensa e um roteiro que sabe o que quer, valendo a pena muito mais pelo que ele é do que pelo que poderia ser – e é isso que importa.



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.