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out
2017
Festival do Rio 2017 #6
Categorias: Festivais • Postado por: João Vitor Moreno

They, de Anahita Ghazvinizadeh

They é a primeira grande decepção do festival, e também o único entre os mais de 20 filmes que vi até agora que pode facilmente ser classificado como “ruim”.

A trama acompanha um adolescente que está em dúvidas quanto a sua identidade de gênero, e também seu relacionamento amigável com sua irmã e o namorado dela.

Se por um lado o filme pode parecer ter uma importância temática atual e pertinente, seu descaso com toda questão potencialmente interessante que surge ao longo da projeção é algo que frustra até mesmo as melhores expectativas.

Dessa forma, em nenhum momento o roteiro parece interessado em discutir os verdadeiros conflitos de seu protagonista, preferindo perder tempo no insignificante relacionamento entre os coadjuvantes.

Confundindo sutileza com a mais pura frieza, a diretora Anahita Ghazvinizadeh também parece não saber a diferença entre entonação e profundidade, já que faz seus atores soltarem seus diálogos em tons solenes que tentam (e não conseguem) disfarçar o vazio destes.

Conseguindo parecer arrastado e aborrecido mesmo com apenas 80 minutos, They é um filme que espera que o espectador o preencha com uma profundidade que ele próprio não tem e parece não querer buscar.

Como é Cruel Viver Assim, de Julia Rezende

Embora o cinema brasileiro seja um dos mais diversificados do mundo, a comédia não é um de seus fortes. Não que não existam bons comediantes no Brasil, mas no cinema, especificamente, a linguagem cômica constantemente cai em clichês e dificilmente surge um filme original.

Mas vez ou outra surge algum filme como O Roubo da Taça, algum roteiro de Jorge Furtado, ou então este novo e ótimo Como é Cruel Viver Assim.

Baseado em uma peça de Fernando Ceylão (excelente comediante), o filme acompanha uma família de classe média baixa que decide fazer um sequestro para melhorar de vida. Mas como nenhum deles tem experiência no crime, procuram também a ajuda de um temido criminoso local.

Muito mais do que sobre o planejamento de um sequestro, o filme é sobre indivíduos frustrados com suas próprias vidas e que procuram algo que possam fazer bem e ganhar reconhecimento.

Adotando uma abordagem que remete muito aos fabulosos irmãos Coen, o roteirista Fernando Ceylão e a diretora Julia Rezende criam um universo onde todos são moralmente corrompidos, frustrados, e extraem humor justamente deste pessimismo.

Contando também com um elenco homogeneamente competente, que possuem uma dinâmica que faz com que muita coisa pareça até improviso, talvez o maior acerto do filme seja justamente não se levar a sério, divertindo muito mais por conta disso.

Com diálogos inspirados e um ótimo elenco, Como é Cruel Viver Assim é um excelente filme, que cria um universo próprio e diverte por entender a lógica de seus personagens.

Motorrad, de Vicente Amorim

E por falar em diversidade do cinema brasileiro, este Motorrad é justamente um exercício de gênero que busca mostrar que é possível fazer todo tipo de filme no Brasil.

A trama acompanha um grupo de jovens que durante um passeio passam a ser perseguidos por misteriosos motoqueiros assassinos.

O grande objetivo do filme é ser um puro exercício de gênero. Os personagens são simples (embora não totalmente unidimensionais) e servem mais para fazer a ação acontecer. E o sadismo e a fascinação com que o diretor Vicente Amorim se entrega ao terror e à ação são suficientes para deixar a experiência no mínimo interessante.

As sequências de ação são bastante competentes e enérgicas. Há um ou dois momentos em que o excesso de planos fechados deixa a coreografia um pouco confusa, e alguns clichês que incomodam um pouco por parecerem ser apenas a saída mais fácil. Mas são mais momentos isolados do que regra geral, já que na maior parte do tempo o filme diverte por sua própria paixão.

Deixando algumas pontas soltas de propósito, justamente para brincar com convenções de gênero, Motorrad é um filme que vale por saber o que quer ser e pela confiança que emprega ao contar sua história.

O Formidável, de Michel Hazanavicius

Falar sobre Godard é falar sobre linguagem, e o diretor Michel Hazanavicius soube disso ao conceber este O Formidável como um filme que muito mais do que sobre personagens ou trama, funciona como oficina para brincadeiras de linguagem que quase todo diretor tem vontade de fazer, mas dificilmente encontram justificativa para tal.

O filme acompanha Godard e sua esposa Anne Wiazemsky no final dos anos 60 quando o diretor deu uma virada em sua carreira e passou a fazer filmes com cada vez mais teor político e buscou desconstruir todos os padrões possíveis de linguagem tradicional.

Em nenhum momento negando a já muito conhecida arrogância de seu protagonista, O Formidável funciona acima de tudo como um exercício de linguagem, brincando com os artifícios que o próprio Godard usava em seus filmes dessa época.

Dessa forma, em diversos momentos vemos em tela textos (seja escrito nos cenários ou até mesmo em forma de legendas) que complementam o que os personagens dizem, a forma curiosa e fascinada com que a câmera observa a personagem de Stacy Martin remete muito ao estilo de Godard, e o design de produção brinca com as cores que tanto marcam o visual de seus filmes no anos 60, principalmente o azul e o vermelho.

Em alguns momentos o filme parte para artifícios mais óbvios, como quando um personagem diz que “na vida não há voz em off” apenas para logo em seguida aparecer uma voz em off no próprio filme para explicar algo óbvio. Mas em outros há momentos mais sofisticados, como quando os dois personagens principais estão conversando enquanto assistem A Paixão de Joana d’Arc no cinema e suas falas combinam com os movimentos dos atores na tela.

Tendo um arco dramático interessante e bem definido, que mostra o declínio do relacionamento dos protagonistas sem nunca perder o foco principal que é na pura linguagem cinematográfica, O Formidável é um filme divertido, que funciona como homenagem a Godard sem precisar sem reverencial.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael