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out
2017
Festival do Rio 2017 #7
Categorias: Festivais • Postado por: João Vitor Moreno

Uma Criatura Gentil, de Sergei Loznitsa

Uma Criatura Gentil é um filme que por um lado vale por seu comentário político e seu exercício de gênero, mas por outro incomoda por sua longa duração e seu ritmo irregular.

A trama acompanha uma mulher que precisa viajar para ver o marido da prisão e encontra diversas dificuldades no caminho.

Durante boa parte do tempo, o filme vale por sua construção de atmosfera e pelo desconforto que consegue criar com as situações em que se encontra sua protagonista. Além disso, a transição para um tom quase fabulesco no terceiro ato é interessante por ser ao mesmo tempo gradual e inesperado.

O que acaba incomodando no filme é a repetição. Chega um momento em que o objetivo já está claro e situações muito parecidas são refeitas diversas vezes, o que deixa o ritmo bastante cansativo.

Tendo seus problemas e suas qualidades, Uma Criatura Gentil consegue traçar um retrato da Rússia de forma muito interessante por boa parte do tempo, ainda que incomode pela repetição.

Baseado em História Real, de Roman Polanski

Ver um filme de Polanski é quase uma massagem para os olhos. O posicionamento de câmera preciso e os cortes que fluem de forma quase imperceptível são coisas que agradam qualquer cinéfilo.

Não à toa ele comandou tantas bem-sucedidas adaptações do teatro para o cinema, já que seu jogo de câmera quase invisível é fundamental para adaptar peças.

E neste seu novo Baseado em História Real ele decide brincar com outro tipo de adaptação, a literária, e ainda que seja um filme bem abaixo de sua média, é suficientemente bem realizado para garantir uma experiência interessante.

A trama acompanha uma escritora que passa por um bloqueio criativo após o lançamento de seu novo livro e seu relacionamento com uma cada vez mais obsessiva fã.

Há no filme elementos de Louca Obsessão, Persona, e sempre com o toque de Polanski.

A trama flerta com o suspense e vale muito mais pela forma com que é conduzida do que por suas próprias reviravoltas.

Eva Green encarna uma quase femme fatale e as ações duvidosas de sua personagem e o suspense em torno dela são suficiente para torná-la fascinante.

Chegando a uma conclusão satisfatória, mas até bastante “simples”, Baseado Em História Real é um filme com uma trama convencional, mas com bons personagens e uma atmosfera envolvente. E afinal de contas, um Polanski menor ainda é um Polanski.

Discreet, de Travis Mathews

É sempre interessante notar como o contexto histórico influencia na produção de filmes. Dessa forma, é curioso que este Discreet use o atual momento político americano para encaixar sua história, mesmo que a falta de foco desta deixe a desejar.

O roteiro segue um jovem marginal que descobre que o homem que abusou dele quando criança ainda está vivo.

O que torna o filme interessante é sua premissa peculiar e a forma com que encaixa seu contexto político: ouvimos no rádio discursos de ódio contra minorias, vemos diversas placas de campanha apoiando Trump, etc.

Porém, falta ao filme um pouco de coesão, dando a impressão de que salta de uma cena para outra de forma quase aleatória apenas para provocar choque, e encontrando o caminho mais fácil em vários momentos (incluindo seu desfecho).

Valendo pela peculiaridade mais do que por sua narrativa em si, Discreet é um filme atípico que incomoda mesmo que não cause grande impressão.

Pequena Grande Vida, de Alexander Payne

E por falar em peculiaridade, esta é o grande diferencial deste novo trabalho de Alexander Payne, Pequena Grande Vida.

A premissa é a seguinte: em um futuro próximo inventam uma tecnologia capaz de diminuir o tamanho das pessoas para resolver o problema da superpopulação. E o filme acompanha um homem (Matt Damon) que decide passar pelo processo de diminuição.

O que torna o filme interessante é seu humor irreverente (gosto particularmente da cena que traz enfermeiras pegando as “miniaturas” com espátulas). Além disso, há uma ironia crítica interessante, que mostra que as pessoas daquele universo querem ficar pequenas não por uma preocupação com o meio ambiente e sim para poderem ficar “ricas”. E há em diversos momentos outros comentários sociais, ora mais óbvios, ora mais sofisticados, mas o principal do filme é mesmo seu humor.

Brincando com o potencial de sua premissa e tangencialmente fazendo comentários sociais, Pequena Grande Vida é um filme peculiar e irreverente. Não chega a ser tão político quanto gostaria, mas sem dúvidas diverte.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael