13
nov
2017
Crítica: “Açúcar”
Categorias: Críticas, Festivais • Postado por: João Vitor Moreno

Açúcar

Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, 2017
Roteiro: Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira
Boulevard Filmes

4

Há algo de estranho em Açúcar. Uma inquietude incômoda que permeia toda a projeção e que deixa o espectador com sentimentos conflitantes quanto ao filme como um todo. Parte da proposta é justamente incomodar, questionar, mas é difícil saber até que ponto o filme tem controle sobre si mesmo. Mas mesmo que não tenha, é ótimo que consiga tirar seu espectador de qualquer zona de conforto e o convide a se questionar sobre o próprio filme e sobre suas próprias reações.

O roteiro segue uma herdeira de um engenho que passa a presenciar coisas estranhas envolvendo uma comunidade vizinha, composta por negros descendentes de escravos.

O filme flerta com o realismo fantástico e aposta em um exercício de estilo que é curioso pela força que encontra justamente naquilo que não mostra. As coisas mais interessantes aqui acontecem fora de foco, ao fundo, não totalmente invisíveis, mas não suficientemente claras para serem compreendidas – exatamente como o preconceito racial enraizado que o filme denuncia.

Contando com uma performance central excelente de Maeve Jinkings, o filme faz uma transição interessante entre planos mais estáticos e outros que colam nos personagens, às vezes até usando lentes grande-angulares, que dão uma aparência de alucinação para as imagens.

Mantendo o interesse por meio de pistas que sugerem algo sobrenatural, mas que nunca prometem uma explicação definitiva, o filme pode até parecer mais longo do que seus 100 minutos, mas levando em conta sua peculiaridade, não tenho muita certeza se isso é algo exclusivamente ruim.

Conforme a história avança, a tensão fica cada vez mais palpável, e é ótimo que o filme nunca tenha que parar para explicar para onde está indo. Descobrir por si mesmo faz parte da graça.

Sem nunca se entregar completamente para o escatológico, nem tampouco se acovardar e negar sua própria força, o filme em diversos momentos faz o espectador apertar os olhos para tentar ver mais do que é possível. Enxergar nas sombras, desembaçar o que está fora de foco, movimentar a câmera um pouquinho mais para o lado…

E é por causar sensações tão particulares e incomodar quase tanto quanto provocar que Açúcar é mais uma prova da capacidade e versatilidade do cinema brasileiro. É um filme único, podendo até lembrar diversos outras obras (de O Som ao Redor a Corra!), mas nunca o suficiente para podermos defini-lo totalmente. E a tarefa quase impossível de desvendá-lo é o que o torna tão marcante.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael