02
nov
2017
Crítica: “Gabriel e a Montanha”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Gabriel e a Montanha

Fellipe Barbosa
Roteiro: Fellipe Barbosa e Lucas Paraizo
Pagu Pictures

4.5

Quem gosta do trabalho do crítico André Bazin (1918 – 1958) já deve estar familiarizado com sua quase obsessão por um cinema realista, onde a câmera tem que dar a impressão que não existe, e a tela possa ser esquecida e não mais representar uma barreira entre o filme e o espectador.

E algo me diz que se Bazin estivesse vivo até hoje ele iria adorar este Gabriel e a Montanha, que em sua reconstrução fiel de acontecimentos reais cria uma narrativa que flui de tal maneira que nem sequer parece um filme ensaiado e gravado.

O roteiro conta a história real de um jovem economista que passou um ano viajando pela África e faltando pouco tempo para seu retorno morreu após escalar uma montanha sem equipamento ou acompanhamento (não se preocupe, isso não é um spoiler pois é revelado na primeira cena do filme).

A direção é de Fellipe Barbosa, que depois de surpreender com o excelente Casa Grande, se estabelece de vez como um dos principais nomes da nova geração de cineastas brasileiros.

O filme utiliza poucos atores profissionais, e os personagens que Gabriel encontra em suas viagens são, muitas vezes, vividos pelas pessoas que realmente o conheceram na vida real, e que aqui estão recriando suas experiências com ele.

O resultado são cenas cheias de afeto e de uma naturalidade que faz com que o espectador se esqueça de que está vendo um filme. Não chega a ser uma abordagem documental, e não é como se a câmera estivesse montada e os personagens estivessem vivendo normalmente, mas sim como se a câmera simplesmente não existisse.

E enquanto os atores amadores são de fundamental importância para a atmosfera do filme, os dois atores profissionais que vivem o protagonista e sua namorada (João Pedro Zappa e Caroline Abras, respectivamente) criam uma dinâmica tão impecável que também dão a impressão de que não estão interpretando. Eles simplesmente são os personagens.

Pegue como exemplo a cena em que ambos estão em um ônibus conversando: a câmera está parada do lado de fora e vemos os dois pela janela, um fala por cima do outro e eles hesitam sem parecer ensaiado, o diálogo flui perfeitamente e o rumo da conversa simplesmente vai para onde tem que ir. E pela dinâmica perfeita entre os dois atores conseguimos sentir tanto uma irreverência inerente entre eles quanto o amor e também um pouco de ressentimento escondido.

Tendo também uma excelente trilha sonora, que está mais preocupada com uma discreta criação de atmosfera do que em comentar sentimentos óbvios, Gabriel e a Montanha é um filme difícil de escrever sobre, pois tem algo de mágico que não tem como traduzir em palavras, é necessário assistir. A impressão que dá é que ele não é um filme. E isso, por incrível que pareça, é um grande elogio.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael