12
nov
2017
Crítica: “O Amante Duplo”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

O Amante Duplo (L’Amant Double)

François Ozon, 2017
Roteiro: François Ozon
California Filmes

4.5

Em certo momento de O Amante Duplo, um casal está transando e a câmera “mergulha” na boca da mulher para nos mostrar suas cordas vocais enquanto ela geme. A imagem “vaginal”, por assim dizer, da garganta com as cordas se abrindo e fechando deixa sua mensagem irônica bem clara. E se essa descrição por acaso te deixou desconfortável, provavelmente este filme não é para você.

Temos aqui um filme que talvez possa ser imaginado a partir de um exercício cinéfilo: imagine o que seria se Almodóvar pegasse um roteiro de Brian de Palma (no início de carreira) para dirigir, e talvez consiga ter uma ideia do que encontrar aqui.

A trama acompanha uma jovem que após se envolver amorosamente com seu psiquiatra, descobre que ele esconde um irmão gêmeo, que também é psiquiatra mas de personalidade oposta. Aos poucos, ela começa a se envolver com ele também, e descobre segredos cada vez mais sombrios.

Sim, essa sinopse é propositalmente cafona e novelesca, mas esse é o objetivo do filme. Fazendo questão de passar o mais longe possível de qualquer traço de sutileza, o filme abraça o absurdo desde a primeira imagem após seus créditos iniciais, assumindo sua extravagância com travellings que deixariam Wes Anderson admirado, e um visual cheio de cores quentes e exageradas.

Brincando com o “duplo” do título desde seus créditos iniciais, o diretor François Ozon se diverte “duplicando” seus personagens ao longo de todo o filme, seja por meio de espelhos ou até mesmo por tela dividida. E qualquer traço de sutileza dessa estratégia é descartado quando vemos o casal principal conversando sobre ter um gêmeo e ele fala algo como “imagine como deve ser ruim ter sempre um espelho a sua frente”, enquanto ambos estão justamente diante de um espelho.

Além disso, a extravagância de Ozon fica ainda mais clara quando vemos a protagonista indo encontrar seu psiquiatra pela primeira vez subindo uma enorme escada em espiral; ou quando sua roupa complementa as cores do museu onde trabalha; ou em certo momento quando a vemos falando ao telefone toda contornada por galhos de uma obra de arte.

Surpreendendo pela eficiência com que abraça o suspense em sua reta final, O Amante Duplo reforça o que eu sempre digo sobre “julgar um filme pelo que ele se propõe”. O que ele tenta fazer é divertir pelo absurdo, seja estético ou por meio de sua trama. Na verdade, a trama praticamente não importa. É absurda e implausível demais para ser levada minimamente a sério. Mas a forma com que é conduzida é tão… extravagante (e se uso essa palavra pela milésima vez é por falta de uma melhor, e este filme quase me deixa sem palavras) que se você conseguir aceitar o que está sendo proposto fica impossível não se divertir. E qualquer filme que possa ser classificado como inesquecível é sempre bem-vindo.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael